Campeonato Brasileiro

Corinthians controlou suas crises para chegar a mais um título brasileiro

Ganhar o título paulista de 2017 já era uma espécie de massagem no ego do Corinthians (e dos corintianos). Não só por mostrar que o time não era a “quarta força” do estado de São Paulo, mas também por indicar: a campanha no Campeonato Brasileiro que estava por vir talvez não fosse o desastre que poderia parecer no começo do ano. Enfim, seria um ano “apenas” honroso. Aí, veio aquele excepcional primeiro turno. Que, por incrível que pareça, aumentou o perigo: o que seria do time do Parque São Jorge caso permitisse que os outros adversários o superassem? E tal perigo chegou a existir. Mas a equipe conseguiu controlá-lo em todas as rodadas. Por essa capacidade de “controlar crises” – e por ter reagido a elas na hora certa -, o Corinthians chega a um sétimo título brasileiro extremamente merecido.

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Talvez mais merecido pela regularidade invejável, não pelo nível técnico da equipe. Os destaques não diferiam do Paulista: a firmeza da zaga, com Pablo e Balbuena; um Cássio que voltava da forte crise técnica de 2016 para crescer novamente, cada vez mais consolidado como o jogador que um dia simbolizará (se é que haverá esse jogador) a década magistral que o Corinthians vive dentro de campo; um Jô renascido dentro de campo; e um Rodriguinho que dava à armação das jogadas a velocidade de que o time precisava. No banco, Fábio Carille – que soubera esperar até mais do que precisava para enfim ganhar a oportunidade de mostrar o que aprendera auxiliando Tite e Mano Menezes. Fora suficiente para o título estadual. Seria para o título brasileiro?

No duro, a resposta só veio a partir da 10ª rodada. Certo, o começo corintiano já era esplêndido: sete vitórias e dois empates, mantendo a solidez vista no Campeonato Paulista, com pelo menos uma grande atuação – os 5 a 2 sobre o Vasco, em pleno estádio de São Januário, na 5ª rodada. De mais a mais, a história do clube já mostrava: um bom começo de Brasileiro fora fundamental para o título de 2011. Todavia, a 10ª rodada supracitada traria a primeira “decisão”: contra o Grêmio, segundo colocado (a apenas um ponto de desvantagem), com estilo de jogo muito mais técnico, fora de casa…

Pois ali o Corinthians começou a ganhar a cara de favorito com a qual ficou pelo resto do campeonato. Mostrou seu principal trunfo ofensivo: a velocidade nos contra-ataques, principalmente pelos lados. Ali Paulo Roberto (contestadíssimo reserva) apareceu, cruzando para Jadson – também valioso no começo do campeonato – fazer 1 a 0. Resultado que seria segurado com toda a dedicação defensiva possível, simbolizada no pênalti (mal cobrado) de Luan, defendido por Cássio. Resultado que agigantou o moral corintiano – e a crença da torcida de que o esforço do time e as boas atuações dos jogadores certos poderiam, sim, ser suficientes para o sétimo título brasileiro da história do clube da Zona Leste paulistana.

Aliás, pensando bem, talvez foi exatamente neste momento do campeonato, entre a 10ª e a 13ª rodadas, que o Corinthians teve as atuações que haverão de ser lembradas nesta campanha. Senão vejamos. A supracitada 10ª rodada, com a vitória sobre o Grêmio; na 11ª, o triunfo árduo sobre o Botafogo – quando a equipe insistiu em tentar vazar a resistente defesa botafoguense, mas só conseguiu com uma jogada individual de Pedrinho (outro personagem que voltou pouco à história do título), completada por Jô; na 12ª, o 2 a 0 na Ponte Preta, vitória na qual, mais do que os gols, foi marcante o pênalti de Lucca defendido por Cássio; e, acima de todas as partidas, a 13ª rodada.

Esta, talvez, com uma das duas mais marcantes atuações corintianas no campeonato. O 2 a 0 no Palmeiras, em pleno Allianz Parque, foi a prova de que havia um favorito ao título brasileiro – e nesse favorito, dois destaques: Fagner e Guilherme Arana, muito ativos e velozes nas laterais. Sem contar o personagem pitoresco: Ángel Romero, com quem a torcida alvinegra vive insistente relação de amor e ódio.

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Àquela altura do campeonato, já não faltavam os que comentavam a possibilidade do embalo tornar o Corinthians o segundo campeão brasileiro invicto, após o Internacional de 1979. Aí veio o tombo. Primeiramente, com “avisos leves”. No empate por 1 a 1, pela 17ª rodada, o Flamengo mostrou que o Corinthians tinha lá suas vulnerabilidades. Tudo bem, resultado contrabalançado por ótimas atuações nas duas rodadas seguintes, nas vitórias contra Atlético Mineiro e Sport. Mas logo na primeira rodada do segundo turno, veio a primeira derrota do Corinthians: justamente em casa, e justamente contra o Vitória, vice-lanterna do campeonato à época. Poderia ser apenas um tropeço – aliás, mais do que previsível. Preocupou mais a derrota para o lanterna Atlético Goianiense, na qual o time insistiu e insistiu, sem conseguir balançar as redes de Marcos. Foi o início de um momento em que a crise começou a rondar o ambiente.

Resultados ruins não faltaram. A derrota para o Santos; a eliminação para o Racing, na Copa Sul-Americana; dois empates, contra São Paulo e Cruzeiro, nos quais o time foi inferior na maior parte dos jogos; e, talvez, o ponto baixo da campanha corintiana – a derrota para o Bahia. Além do mais, a velocidade e o esforço defensivo do primeiro turno eram coisa do passado. Por vários fatores: a queda de desempenho de Fagner, Guilherme Arana, Rodriguinho e Jadson; as lesões de Jô; o esforço de Romero tomando “rumos negativos”, pela técnica deficiente; a crescente fragilidade defensiva, principalmente nas bolas aéreas; a dificuldade de Fábio Carille em achar alternativas de estilo de jogo; a qualidade menor dos reservas… a lista é grande. E mesmo as vitórias vinham com mais sofrimento – vale lembrar os triunfos sobre a Chapecoense, no último minuto, e contra o Vasco, com o gol de Jô desviado com a mão.

Ainda assim, o Corinthians seguia na frente. Os jogadores se esforçavam, a diretoria (leia-se Flávio Adauto e Roberto de Andrade) dava menos declarações bombásticas e palpitava em pouquíssimas coisas, para não fazer desandar o que ainda dava certo. Até as derrotas para Botafogo e Ponte Preta, nas 30ª e 31ª rodadas. Aí a pressão da torcida cresceu. A vantagem tinha acabado. A crise havia crescido. Uma derrota contra o Palmeiras – o “adversário” da vez -, a liderança seria perdida, e o ânimo poderia estar definitivamente abatido, no que seria (repita-se) um dos grandes fracassos da história do Campeonato Brasileiro.

E na hora em que precisava, o Corinthians reagiu, com a sua segunda grande vitória neste campeonato. O 3 a 2 do Derby revelou a volta da competitividade e da garra vistas no primeiro turno. Na rodada seguinte, o triunfo inesperado sobre o Atlético Paranaense – inesperado por ter como destaques o goleiro reserva (Walter e seu pênalti defendido) e um dos mais contestados de toda a campanha (Giovanni Augusto, o autor do gol). Contra o Avaí, supunha-se a vitória – só não se supunha que ela fosse vir do peito de outro enjeitado, Kazim. O embalo estava recuperado. E o jogo do título contra o Fluminense exemplificou essa montanha-russa com final feliz: tanto no primeiro tempo, com o gol precoce do time das Laranjeiras e o visível nervosismo, quanto no segundo, com a apoteose de Jô e a primeira vitória de virada em toda a campanha. A prova de como a equipe alvinegra se valeu de momentos esplendorosos – e da capacidade de não sair dos trilhos nos momentos menos regulares – para garantir mais uma taça nacional, na doce rotina que o Sport Club Corinthians Paulista vive. Dentro de campo, bem entendido.

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