Brasileirão Série A

É um milagre que o Brasileirão, boicotado entre copas, seja o melhor da era dos pontos corridos

É corda esticada, régua alta, melhores melhorando e craque até na zona de rebaixamento.

O Brasileirão é tratado com todo o carinho e atenção do mundo para ser o pior campeonato disponível para os clubes do país.

Boicotado em jogos em sequência, ele faz caber 38 semanas em sete meses – um fenômeno capaz de espantar até o Papa Gregório, o cara que um belo dia resolveu dar um tapa na agenda e roubou uns dias para acertar as contas.

Foi num fevereiro, tem uns 450 anos, não havia Carnaval em Roma, então o Gregório resolveu o seguinte: em outubro próximo seria feita uma reorganização do calendário, que andava obsoleto.

Ele arrancou umas folhas, ajeitou a casa, firmou o pitoresco ano bissexto e pronto, a gente acorda de manhã, dorme de noite, e tudo faz mais ou menos sentido nesses 365 dias e um quarto. Chama o Gregório, CBF.

Porque o Brasileiro não para na Copa América e desfalca os times, mas as Copas param, do Brasil e da América, porque não são tontas, e não dá para jogar um mata-mata com meio time viajando para bater um futebol society nos Estados Unidos.

Submetido à programação do continente de um lado, é empurrado pelo cronograma das federações estaduais do outro, então fica ali, onde puder ocupar, sem alarde nem grandes avisos prévios. Sobrou uma quarta, um domingo? Tem jogo do Brasileirão, com o time que der, bota aí e vambora.

A condução do apito é péssima, numa culpa geral e irrestrita: árbitros, bandeirinhas, quartos árbitros, juízes de vídeo, técnicos, comissões técnicas, capitães, craques, perebas, titulares, reservas, torcedores, gandulas, apresentadores de TV, comentaristas, repórteres, ex-árbitros, influenciadores, agitadores e páginas de redes sociais, todo mundo.

Não tem ninguém que resvala no futebol que ajuda o andamento das partidas ser melhor, ninguém, inclusive quem faz as regras, porque toda novidade só piora o jogo, da onda de cartão amarelo para banco de reservas às punições por quem tira a camisa em gol anulado. É tudo bastante ruim.

Mas vamos falar de coisa boa porque tem medalhista olímpico atravessando o rio Sena, o inverno do Rio de Janeiro entra suave pela janela e o último lampejo do turno do Brasileiro – turno mais ou menos, só um terço dos times girou pelos 19 rivais – foi um tapa de classe de Garro, um farol na penumbra do Corinthians, pouco depois da bonita esperteza de Villasanti, essa classuda presença gremista, para nos lembrar em Itaquera que o campeonato está bom. Muito bom.

Rodrigo Garro - Corinthians x Vitória
Contra o Vitória, Garro marcou os seus dois primeiros gols com bola rolando pelo Corinthians (Foto: Icon Sport)

O melhor Brasileirão dos pontos corridos

Num aspecto mais amplo, passadas duas décadas dos pontos corridos e com suas cascatas que interditam o debate sobre fórmula de disputa (por que um formato é superior ao outro sem direito à conversa?), o nível, aos trancos e barrancos, está ótimo.

Jogadores em meia-idade saem menos do que antes, a diversidade de técnicos melhorou o jogo, as torcidas estão mais engajadas em não topar tropeços quaisquer e o crescimento de novos grandes times – Botafogo, Bahia e Fortaleza, por exemplo, coadjuvantes e gangorras até pouco tempo – aumentou a necessidade de se arriscar pela vitória.

Não dá para levar a liga em banho-maria, é preciso pontuar semana após semana, e a entrega alcançou seu melhor patamar desde 2003. É corda esticada, fim de jogo aberto e mais lamento que comemoração por um empate vadio numa quinta à noite.

Luiz Henrique é segunda contratação mais cara da história do Botafogo
Luiz Henrique teve a sua melhor atuação pelo Botafogo (Foto: Vitor Silva/Botafogo)

O Botafogo é bastante melhor que o anterior, apostando tudo em fechar o ano com um troféu, fortíssimo; o Flamengo agora tem um trabalho de Tite, o Palmeiras ganhou opções com Abel, o São Paulo tem time com Zubeldia. O Cruzeiro desembolsou no encontro do supermercado com Alexandre Mattos, o Galo titubeou mas segue se reforçando.

A régua está alta, os melhores estão melhorando. A zona de rebaixamento tem Thiago Silva na zaga e Marcelo para entrar de meia no segundo tempo. Ainda é o nosso futebolzinho de aspirantes à Europa, do êxodo do talento e do retorno dos veteranos ou frustrados, mas está bem acima do que uma década atrás. 

O zagueiro Thiago Silva em ação pelo Fluminense
O zagueiro Thiago Silva em ação pelo Fluminense (Foto: Icon Sport)

Meus jogadores favoritos deste primeiro turno, gosto puramente de olhar pessoal e sem grandes análises contextuais retrospectivas, são Matheus Pereira, Gerson e Estevão. Gosto muito de ver o ataque do Botafogo, que firmeza o Luiz Henrique e a retomada do Tiquinho, e o meio-campo do Bahia, que quando flui é bonito de assistir.

Curioso pela primeira impressão do Bernard, que pode aliviar campo para Hulk e Paulinho. Lucas correndo por dentro no Morumbi é coisa linda, como o Lucero arranja tanto gol para o Fortaleza, e ainda poderia falar de Cuiabano, De La Cruz, Pedro, Garro (de novo).

Cheio de gente que anda legal de olhar, uns tapas do Pochettino, uns petardos do Shaylon, a posse do Fernandinho, alguns lampejos do Veiga… Como vinha jogando bem o Alisson. Arias! Passeia bem demais pelo campo o colombiano. O campeonato é ótimo.

Uma pena que a gente tenha preguiça de fazê-lo ainda melhor, porque os estádios estão cheios e o onze contra onze anda entregando demais. Semana que vem o país vai parar para ver a Copa do Brasil, o mundo já anda parado para os Jogos Olímpicos, depois vem a Libertadores, e é difícil competir com clássicos brasileiros em torneio eliminatório ou Simone Biles versus Rebeca Andrade, o flip da Rayssa, a linha de chegada, canoa a canoa, do Isaquias.

Ali no meio estará o Brasileirão, noventa minutos mais trocentos acréscimos pedindo licença para existir no meio disso tudo, atrapalhado por quem apita e mal mediado no debate, mas resistindo, fazendo de tudo para ser apenas ordinário, mas que vale parar para assistir, fazer o quê. Seguiremos. 

Foto de Paulo Junior

Paulo JuniorColaborador

Paulo Junior é jornalista e documentarista, nascido em São Bernardo do Campo (SP) em 1988. Tem trabalhos publicados em diversas redações brasileiras – ESPN, BBC, Central3, CNN, Goal, UOL –, e colabora com a Trivela, em texto ou no podcast, desde 2015. Nas redes sociais: @paulo__junior__.

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo