Brasileirão Série A

Após três anos de um buraco sem fundo, o Cruzeiro decola à Série A revigorado e com uma campanha que não limita novos sonhos

O Cruzeiro conquistou o acesso com a maior antecedência da história da Série B, méritos de um clube que fez um excelente ano principalmente no planejamento esportivo

Foram três anos de espera até que, finalmente, o céu de Belo Horizonte voltasse resplandecer uma intensa cor celeste e trouxesse de volta o Cruzeiro a apontar o caminho para a Série A. Para o cruzeirense, a demora soou como uma eternidade, a quem temeu que tudo se tornasse pior, do buraco que não tinha fim ao risco de queda à Série C. Mas inesgotável também era a fé de que a grandeza da Raposa prevaleceria e, mesmo que não tivesse dado certo na primeira ou na segunda tentativa, a história do clube finalmente seria respeitada com o acesso. A confirmação da promoção, com uma sonora vitória por 3 a 0 sobre o Vasco e com uma antecedência recorde na Série B de sete rodadas, não desata apenas o alívio pelo fim da penúria que se arrastou em rumos tão incertos. Hoje é até maior o ânimo pelo futuro que se torna bastante promissor, e que permite ao orgulho de ser cruzeirense sobrepor qualquer vergonha dos anos recentes. O Cruzeiro não só volta à elite, como também não deixa pedra sobre pedra para mostrar que seu lugar é, sim, bem maior que o desengano da segundona. O Mineirão, lotado com 60 mil pessoas alucinadas, ressoou tal sensação.

A crise que o Cruzeiro precisou encarar é uma das mais nefastas já registradas no Campeonato Brasileiro. Afinal, o dessabor da torcida celeste não se limita à mudança abrupta de rumos, de um time que empilhava taças para, em pouco tempo, amargar o rebaixamento. É o patrimônio cruzeirense que terminou dilapidado por uma administração repugnante, que deixou a fraude tomar conta e causou um rombo na casa do bilhão. Por isso mesmo, a Raposa sabia que a reconstrução não partia apenas de trabalhar em campo para conquistar os resultados. Ela precisava escapar de um desterro profundo e impedir que o desmoronamento institucional não sufocasse ainda mais o departamento de futebol.

Não seria fácil, claro. Até porque a pandemia tornou o cenário ainda mais instável e o Cruzeiro se distanciou de sua fonte de força, a torcida. Se desde o início da passagem pela Série B muita gente esperava que a Raposa não subisse de imediato, com direito a punição em pontos por calote, a realidade seria cruel quando de fato bateu à porta. Em 2020, o Cruzeiro frequentou a zona de rebaixamento no primeiro turno, alternando apatia com pilha de nervos, e apenas a chegada de Felipão conferiu um fôlego para escapar da queda, mas nada suficiente para alcançar a zona de acesso. O planejamento foi ruim e parecia haver até um menosprezo aos desafios da Segundona. Já em 2021, o filme se repetiu novamente penoso, com o marasmo da parte inferior da classificação e também o risco de desastre à beira do precipício na Série C. Seria Vanderlei Luxemburgo, o comandante do sucesso de outrora, a completar a jornada de mais um acesso distante, mas a salvo do pior.

A Toca da Raposa teria dias bastante agitados desde as semanas finais de 2021. A Lei da SAF seria vista como uma tábua de salvação pelo Cruzeiro. Um caminho diferente para tentar reerguer o clube, quando o modelo administrativo de então parecia girar em círculos. Os novos caminhos desbravados geravam cautela, especialmente por deixar as estruturas cruzeirenses submetidas aos interesses de um novo dono. Ronaldo se valeu de sua história no clube e também de privilégios nas negociações para se tornar o novo proprietário. Os entraves iniciais seriam muitos, cabe lembrar, e quase fizeram o veterano abandonar o barco se não tivesse suas vontades cumpridas. As reduções de gastos resultaram não apenas na saída de Luxa, como também numa amarga despedida para o ídolo Fábio. O corte na carne tinha suas necessidades, mas sem transmitir garantias.

A situação do Cruzeiro ainda é limitada. A transformação em SAF permitiu a reorganização das dívidas e os salários em dia, mas os débitos não desapareceram e restringem possibilidades. Ronaldo também pode tomar decisões que não agradam a torcida, com o poder concentrado em suas mãos, mesmo que seus acertos sejam bem mais sublinhados que os erros até o momento. Mas, acima de tudo, há uma esperança que prevalece por aquilo que os celestes fizeram no plano esportivo. Se nas duas temporadas anteriores o caos interno dinamitou o trabalho que precisava se refletir em campo, desta vez os pés no chão da condução do futebol fizeram a tempestade abrandar e o céu se abrir na Toca da Raposa. Esportivamente, contam-se nos dedos de uma mão os clubes brasileiros que fizeram um planejamento à altura dos cruzeirenses em 2022.

STAFF IMAGES / CRUZEIRO

A melhora do Cruzeiro demandou escolhas certeiras. Paulo Pezzolano foi a primeira e, muito provavelmente, a principal delas. O treinador uruguaio não chegava por seu passado, como Felipão e Luxa nos desafogos dos dois últimos anos. Muito pelo contrário, tinha um currículo modesto, com seus feitos pelo Liverpool de Montevidéu e um bom futebol apresentado à frente do Pachuca. Mas era isso: os cruzeirenses consideravam bola e campo. Confiavam que o jovem treinador poderia montar uma equipe coletivamente azeitada e de boa qualidade, sem precisar de grandes investimentos. Até porque os celestes seguiam com um orçamento estrangulado pelos tantos erros do passado para a montagem do elenco.

A lista de negócios que superaram as expectativas no Cruzeiro para 2022, então, se tornou bastante longa. Até abarca alguns nomes mais conhecidos, a começar pelo goleiro Rafael Cabral, que estava encostado no Reading e ocupou brilhantemente a lacuna de maior peso após a saída de Fábio. Passa por jogadores de Série A que puderam entregar com a camisa celeste, como no caso do trio de zaga formado por Zé Ivaldo, Lucas Oliveira e Eduardo Brock. Há a cota de promessas que contribuíram, a exemplo de Geovane Jesus, Daniel Júnior e Jajá. E mesmo aqueles que surgiram sem tanto alarde de outros times menos badalados e se provaram influentes – como Bruno Rodrigues e Neto Moura, mas ninguém no nível de Edu, que vinha de uma boa campanha com o Brusque e virou a grande referência ofensiva dos mineiros.

Em campo, os sinais positivos surgiam desde antes da Série B, com o futebol de alta intensidade e desempenhos satisfatórios. A Raposa voltou à final do Campeonato Mineiro após três anos, mesmo sem levar a taça, e também escapou dos vexames que se tornavam recorrentes na Copa do Brasil. Era time para se candidatar ao acesso, mas a concorrência de peso numa Segundona cheia de camisas pesadas e as frustrações recentes sugeriam cautela, bem como alguns entraves públicos na transição da SAF. A aposta maior de que a fórmula celeste poderia dar certo estava mesmo no futebol e, por fim, Paulo Pezzolano cumpriu a missão para a qual foi contratado. Foi importante para dar, na bola, tranquilidade em meio à pressão de três anos de desilusão. O Cruzeiro subiu sem turbulências, com um destino que parecia certo desde o começo da jornada.

Vale lembrar que, apesar de tudo, a Série B se abriu com derrota. O Cruzeiro tinha um duelo pesado contra o Bahia e tomou de 2 a 0 em Salvador. Também empatou contra o Tombense na terceira rodada, o que deixava os celestes abaixo dos líderes. Quando o time pegou embalo, porém, não teve quem segurasse. Foram oito vitórias consecutivas, sem placares tão elásticos, mas com uma equipe envolvente e segura de si. A derrota na visita ao Vasco conteve a série positiva do primeiro turno, mas a essa altura a liderança cruzeirense era um fato incontestável, com três pontos de diferença. Nada abalava o que se estabelecia. O futebol de permanente capacidade técnica até surpreendia, pela rispidez tão costumeira na segunda divisão nacional.

Os favoritos da Série B no geral correspondem nessa edição, mas o Cruzeiro foi o único que passou reto de quaisquer questionamentos. A eliminação na Copa do Brasil não comprometeu em nada – pelo contrário, já que a atuação na queda diante do Fluminense promoveu uma enorme comunhão com as arquibancadas no Mineirão. Existia uma onda positiva que fazia os celestes navegarem por mares tranquilos, nos quais administravam as vitórias que acumulavam e riscavam, rodada após rodada, os dias que faltavam para subir. O time de Paulo Pezzolano não ficou mais do que duas rodadas sem vencer. Sofreu apenas três derrotas, a última delas ainda no início de julho, para o Guarani. Os mineiros permanecem invictos no segundo turno, e com vitórias importantes que sublinham as tantas virtudes da campanha.

STAFF IMAGES / CRUZEIRO

Esta quarta-feira, finalmente, ofereceu a oportunidade tão ansiada pelos torcedores do Cruzeiro. O Vasco era um adversário de peso, um antigo rival em grandes momentos da história do Brasileirão, um virtual concorrente pelo acesso – mas de crise recente. No fim das contas, foi um convidado de luxo para abrir alas aos líderes e permitir o show definitivo dos celestes nesta Série B, das arquibancadas às redes. O placar de 3 a 0 não deixa margem a contestações. Serviu de maneira soberana para coroar a excelência do trabalho esportivo dos cruzeirenses e, principalmente, para liberar o grito dos torcedores que fizeram linda festa no Mineirão. Isso é o mais importante, porque apenas a torcida sabe o que foram esses últimos três anos e quantas noites mal dormidas se passaram até que a certeza de um futuro animador voltasse a pairar sobre os celestes.

É necessário elogiar o que fez Paulo Pezzolano à beira do campo e o que Ronaldo já provocou em tão pouco tempo. Mesmo assim, esse momento do Cruzeiro só é tão grande por causa de sua torcida. Foi ela que abraçou o time e encheu arquibancadas quando o risco era de dias cada vez piores. Foi ela que lidou com as consequências das promessas enganadoras feitas pelos antigos dirigentes, os principais responsáveis por uma queda tão profunda. Foi ela que conviveu com as gozações dos rivais e os vexames proporcionados pela fragilidade do time. Agora é ela quem pode se sentir novamente a razão do Cruzeiro ter de novo um rumo, porque sem ela não existiriam vantagens para Ronaldo e nem tamanha motivação para a equipe.

As próximas sete rodadas da Série B servirão de palco a uma festa do Cruzeiro sem hora para terminar, algo merecido depois de três temporadas tenebrosas. E a alegria se complementa com a firmeza de que o fio da meada não se perderá. A Série A traz consigo novas possibilidades financeiras e a multiplicação das receitas. A administração terá mais robustez para contornar as dívidas e pouco a pouco recuperar o potencial dos cruzeirenses. Os jogos de mais peso voltam ao calendário, assim como o retorno às competições continentais é bem acessível desde já.

Melhor ainda fica a parte esportiva. Paulo Pezzolano deve continuar no cargo e ganhar reforços mais capacitados para o nível da primeira divisão. Se as contratações mantiverem a média de acerto dessa temporada, os passos poderão ser acelerados. Não é preciso ter um caminhão de dinheiro para montar um bom time – uma falácia que os cruzeirenses conhecem à carne crua pela bancarrota recente. As ideias são mais importantes e foram elas que se sobressaíram ao longo da Segundona. Óbvio, a Raposa não é favorita na Série A de imediato e precisa se pautar numa recuperação gradativa. Mas há lições importantes assimiladas e cicatrizes que mostram as dores que ninguém quer que se repita.

O futuro, todavia, é para se pensar somente em algumas semanas. Assim como não é dia de voltar o olhar ao passado que se repetiu feito um filme de terror aos torcedores celestes. O Cruzeiro deve aproveitar o hoje, porque hoje é um marco na virada tão almejada pelo clube. O presente é o orgulho que antes se via repetidamente solapado pelos revezes. O trabalho não está completo, óbvio, e nenhum torcedor em sã consciência deseja que pare por aqui. De qualquer maneira, os cruzeirenses têm plena consciência de como esse dia custou a chegar. Cabe aproveitar o encerramento do pior pesadelo, já suplantado pelo mais vigoroso dos sonhos. É o que essa grande campanha na Série B consegue provocar, com uma empolgação do tamanho do Mineirão lotado.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.
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