Campeonato Brasileiro

Ao Maestro, com carinho: Há 30 anos, o talento de Junior conduzia o Flamengo a mais um título brasileiro

Júnior conduziu com muita maestria, aos 38 anos, um Flamengo que mesclou juventude e experiência para se sagrar campeão

*Texto publicado originalmente no Flamengo Alternativo

Poucos são os craques tão associados a uma conquista de Campeonato Brasileiro como Junior foi para o Flamengo em 1992. O ex-lateral convertido em meia, que completou 38 anos em altíssimo nível durante o torneio, também brilhou como poucos, sendo o centro de um time que mesclava bons nomes rodados a uma excelente safra de jovens talentos criados no clube. A equipe dirigida por outro gigante rubro-negro, Carlinhos, oscilou ao longo da competição, mas engrenou na hora certa, recebendo da força de sua torcida e do talento de seu capitão o empurrão necessário para chegar ao caneco, há exatos 30 anos.

Após um começo muito bom, no qual o time parecia reiterar seu posto entre os maiores favoritos, o Flamengo mergulhou numa sequência de maus resultados, mas se reabilitou a tempo de obter uma vaga na segunda fase. Nela, aproveitou o embalo para superar outros candidatos ao título, como o Vasco de Bebeto e Edmundo e o São Paulo de Raí e Telê Santana, antes de atropelar o Botafogo – outro clube que se tornara mais cotado que os rubro-negros – na decisão, resolvida praticamente ainda na primeira partida.

Foi também um campeonato especial e empolgante como um todo: graças em grande parte à torcida rubro-negra, mas não só a ela, superou-se de longe a média de público das quatro edições anteriores, registrando 16.814 torcedores por jogo, o melhor número desde 1987. E, turbinada por frequentes goleadas até mesmo em confrontos entre times grandes, a média de gols também foi melhor que a das seis edições anteriores, com 2,29 tentos por partida. Desde 1985 não se balançava tanto as redes em média no torneio.

OS ANTECEDENTES

Se a conquista do pentacampeonato brasileiro pelo Flamengo em 1992 tem um ano-gênese, no qual a maior parte de suas principais peças começou a se conectar, este foi a estranha temporada de 1990. Foi ao longo dela que o veterano Junior – 35 anos ao seu início – passou a ser, após a despedida oficial de Zico do clube em fevereiro e a discreta retirada de Leandro em março, o elo remanescente dos rubro-negros com sua geração mais vitoriosa, que levantara o título mundial em Tóquio diante do Liverpool em dezembro de 1981.

O curioso é que Junior, que retornara à Gávea em meados de 1989 após cinco anos no futebol italiano, também pensava seriamente em pendurar as chuteiras naquele ano, um tanto magoado por não ter sido lembrado pelo técnico Sebastião Lazaroni para a seleção brasileira que jogaria a Copa do Mundo na Itália. Tanto que também fez sua “despedida”, uma partida de veteranos reeditando o Brasil x Itália de 1982, desta vez vencida pelos brasileiros – por 9 a 1! – no Estádio Adriático, em Pescara, no dia 1ª de junho.

O ex-lateral e agora meia, porém, não parecia inteiramente convencido de que aquela era a hora certa de parar. Ainda faltava algo. Ecoava dentro dele a pergunta feita por seu filho Rodrigo quando Junior ainda atuava na Itália: “Pai, quando eu vou te ver campeão no Maracanã?”, questionava o menino enquanto assistia às fitas de vídeo com as conquistas do pai vestindo rubro-negro. Foi o que acendeu a luz para o jogador de que era o momento de retornar a seu povo. Promessa era dívida, ainda mais com o filho.

Foi também o que motivou Junior a deixar a aposentadoria de lado e renovar seu contrato com o Flamengo, ficando no clube até poder justificar plenamente a razão de seu retorno. Assim, nem mesmo o título da Copa do Brasil, no fim daquela temporada, satisfez completamente o objetivo do veterano meia. Até porque a volta olímpica havia sido no Serra Dourada, diante do Goiás, e não no Maracanã, como queria Rodrigo. Aquele desfecho de temporada, aliás, também indicava que Junior ainda tinha lenha para queimar.

O ano de 1990 também marcou outro retorno, mas de um jogador ainda por escrever com glórias sua história no clube: era o centroavante Gaúcho, que despontara na base rubro-negra no início dos anos 1980 – chegara a figurar numa reportagem de 1982 da revista Placar ao lado de Zinho, a quem reencontrava agora, e de outros promissores pratas-da-casa de então. Descartado pelo clube na metade da década, rodou o Brasil e chegou a atuar até no Japão (pelo Yomiuri) antes de voltar à Gávea comprado do Palmeiras.

Gaúcho, a artilharia aérea rubro-negra

Falastrão, raçudo e perito no jogo aéreo, Gaúcho logo cativou os torcedores ao evidenciar seu potencial goleador: mesmo com o Flamengo sequer chegando às finais do Estadual e terminando em quarto lugar, ele se sagrou o artilheiro do campeonato, balançando as redes 14 vezes. Ao longo da temporada seriam 38 gols, entre jogos oficiais de competição e amistosos pelo país e pelo exterior. Seria um dos raros jogadores trazidos de fora para aquela temporada a conseguir se firmar e seguir na Gávea para o ano seguinte.

Em parte porque o Flamengo vinha gestando em casa uma geração fora de série, que em janeiro conquistara de maneira brilhante a Copa São Paulo de juniores. Mas embora tivessem feito parte de uma mesma equipe na conquista do torneio de base, os garotos campeões vinham atravessando estágios distintos quanto ao elenco principal do Flamengo. Alguns já haviam feito sua estreia nos profissionais em 1988 ou 1989, enquanto outros só começariam a ser utilizados ao longo daquela temporada ou da seguinte.

A campanha vitoriosa da Copa do Brasil, por exemplo, contou com a participação de cinco deles: o lateral-esquerdo Piá, os meias Marquinhos, Marcelinho e Djalminha (este, o grande destaque do torneio de juniores) e o atacante Nélio. Outro garoto da mesma geração presente naquela conquista nacional era o zagueiro Rogério, que só não jogou a Copinha por já ter sido incorporado ao elenco principal. Além deles, o zagueiro Júnior Baiano e o volante Fabinho não jogaram a Copa do Brasil, mas atuaram pelo Brasileiro de 1990.

Para 1991, o Fla apostava num nome emergente e ambicioso para o comando técnico: um certo Vanderlei Luxemburgo, ex-lateral formado no clube nos anos 1970 e que se tornara reconhecido nacionalmente como treinador após levar o Bragantino ao título paulista em 1990 na chamada “final caipira” contra o Novorizontino. Também do futebol paulista viriam a maioria dos (poucos) reforços, como o goleiro Gilmar, em baixa no São Paulo, e o volante Charles, do Guarani, cuja raça em campo lhe valeria o apelido de “Guerreiro”.

Por outro lado, a maior baixa no time era o ponta Renato Gaúcho, que, em meio a disputas quanto à renovação de contrato, acabou seduzido por uma proposta do bicheiro Emil Pinheiro e trocou o Flamengo pelo Botafogo. Os alvinegros, que também levariam o atacante Bujica (outro nome da base rubro-negra), pouco depois acabariam cedendo o zagueiro Wilson Gottardo como forma de “compensação”. Cerca de um ano e meio depois, o Flamengo acabaria rindo por último com o desfecho daquela negociação, como veremos.

A primeira passagem de Luxa pelo comando do Fla colheria resultados pouco satisfatórios. O time fez campanha mediana no Brasileiro (nono lugar) e parou nas quartas de final da Libertadores diante do Boca Juniors em dois jogos com arbitragem muito contestada. No meio do ano, levou a edição inaugural da desprestigiada Copa Rio, torneio dividido entre capital e interior que valia uma das vagas do estado na Copa do Brasil de 1992. O título veio contra o Americano de Campos, num Maracanã com pouco mais de 3 mil torcedores.

O RETORNO DE UMA LENDA MODESTA

O técnico acabaria demitido na segunda rodada do Estadual após um empate com o Itaperuna e sairia reclamando da falta de estrutura do clube. O Flamengo chegou a sondar Telê Santana, que acabara de levar o São Paulo ao título brasileiro, mas, com caixa baixo, resolveu atender a uma sugestão dos jogadores – Junior à frente – e promoveu o velho patrimônio rubro-negro Carlinhos a uma nova passagem pelo time de cima, sua terceira na carreira, após as de 1983 e 1987/88, quando levou o time a conquistar a Copa União.

Carlinhos conhecia o clube como ninguém: durante uma década, entre 1959 e 1969, havia sido o dono da camisa 5 do Flamengo, único clube que defendera em toda a carreira. Volante de futebol clássico, elegante, refinado, era chamado de “Violino”. Pré-convocado para a Copa de 1962, jogou pelo Brasil na Taça das Nações, dois anos depois. Ao se aposentar, em 1970, entregou as chuteiras a um jovem promissor da base chamado Zico, repetindo o gesto que o antigo ídolo Biguá fizera com ele em seu “batismo” no Fla, 16 anos antes.

Carlinhos com Wilson Gottardo

E mesmo depois de encerrar a carreira de jogador, continuou ligado ao clube, o qual frequentava quase diariamente, além de ter tido longos períodos no comando das categorias de base. Como treinador, Carlinhos fazia o simples, mas tinha olho clínico. Sabia exatamente a posição e a função em que cada jogador podia render mais, assim como sabia armar o time de modo a potencializar as melhores características de cada um. Tudo isso sem gritar: o jeito calmo e a voz mansa eram marcas inconfundíveis que construíam seu carisma.

Seu nome havia sido sugerido por isso e também pelo fato de já ter trabalhado com todos aqueles garotos nos juniores, embora não tivesse sido ele o técnico campeão da Copinha. Para acalmar o ambiente após a turbulenta passagem de Vanderlei Luxemburgo, encerrada com farpas entre ele e os dirigentes rubro-negros, o velho “Violino” era o nome mais adequado. E aos poucos o time foi entrando nos eixos: o título da Taça Guanabara não veio por um ponto. Mas quando começou a Taça Rio, o Flamengo já estava embalado.

Na virada dos turnos, o técnico promoveu alterações pontuais. O volante Uidemar, que fraturara o tornozelo no início do ano e ficara vários meses de fora, recuperou-se e ganhou a vaga à frente dos zagueiros, melhorando a saída de bola e a distribuição. Com isso, Charles foi deslocado para a lateral-direita, onde seu fôlego empurrava o time. Marcelinho, que vinha jogando de segundo atacante, perdeu o lugar para outro garoto, Paulo Nunes. E na reta final, Nélio entrou no time no lugar de Marquinhos, mas atuando mais à frente.

Além disso, Junior ganhou mais liberdade: dispensado das funções de marcação, era o grande cérebro da equipe, ditando o ritmo, orientando os companheiros, abrindo o jogo pelas pontas e vindo de trás para se juntar ao ataque, numa função muito semelhante à de Zico no time de 1987. O time, que só havia perdido uma partida (2 a 1 de virada no Fla-Flu da quinta rodada da Taça Guanabara), não voltou a ser derrotado: ganhou a Taça Rio no jogo extra contra o Botafogo e levou o Estadual nas finais contra o Fluminense.

A longa história de Junior no Flamengo poderia ter se terminado logo após aquela decisão, afinal sua promessa já fora cumprida: o abraço emocionado no filho Rodrigo no gramado do Maracanã naquele chuvoso 19 de dezembro após os 4 a 2 sobre os tricolores (com o meia anotando o quarto gol) quase foi seguido pelos créditos do fim do filme. “Quando começou o Campeonato Carioca, minha intenção era encerrar a carreira ao final da competição”, revelou em depoimento a Maurício Neves de Jesus no livro “Maestro”.

“A conquista do título seria um modo de me despedir dos gramados deixando uma sensação ainda mais positiva, deixando a bola antes que ela me deixasse. Porém, algumas coisas foram mudando na minha cabeça. Eu havia terminado a temporada jogando em um nível até mais alto do que no ano anterior, a imprensa pedia minha volta à seleção e eu sentia que tinha gás e disposição para prosseguir”, lembrou o meia, antes de revelar o encontro que se tornaria decisivo para fazê-lo voltar atrás na aposentadoria.

O time da final do Estadual e base do Brasileiro

“Na comemoração do título encontrei o Carlinhos no (restaurante) La Mamma, ali perto da Gávea. Ele também cogitava parar e me disse entre um chope e outro: ‘Se você continuar eu também continuo’. Talvez esse tenha sido o momento decisivo, o apelo que faltava”, relembrou. “As pessoas me pediam nas ruas todos os dias, os companheiros de clube também. Acho que a decisão não pertencia mais a mim”, comentou. Assim, o Maestro protelou um pouco mais o fim da carreira para viver um ano inesquecível.

O ELENCO

O time da reta final do Estadual seria também a base para o Brasileiro. No gol, o experiente Gilmar havia conquistado a titularidade em março com a lesão de Zé Carlos, prata da casa que era o dono da posição desde 1986 e integrara a seleção brasileira nos Jogos Olímpicos de Seul e no Mundial da Itália. Na zaga, ao lado do “xerife” Wilson Gottardo, revezava-se uma dupla de estilos distintos formada no clube: o vigoroso Júnior Baiano (titular de momento) e o técnico Rogério, dono de chute forte em cobranças de faltas.

Pelas laterais, Charles já se mostrava não só plenamente adaptado do lado direito, como também se tornava ídolo da torcida pela raça e dedicação em campo. Já na esquerda, o garoto Piá, que convivera com críticas logo assim que subira para o elenco profissional, revelava-se uma peça fundamental no apoio, com seus cruzamentos milimétricos para o forte jogo aéreo rubro-negro. Na frente da área, o volante Uidemar (trazido do Goiás em 1989) cobria o setor e distribuía o jogo com eficiência, discrição e qualidade.

Mais adiante vinha Junior, em torno de quem o time girava. A cada jogo mais exuberante, ditava o ritmo, liderava e orientava os companheiros, em especial os mais jovens. E ganhava de Carlinhos a liberdade para se aproximar da área e aproveitar sua requintada visão de jogo acionando os laterais e municiando o ataque. Como se não bastasse, ainda levava perigo com suas magistrais cobranças de falta, evidenciando que o Flamengo continuava muito bem servido nessa especialidade mesmo após a retirada de Zico.

Ao lado de Junior, ajudando a refinar o toque de bola e o talento da equipe, estava outro cria do clube que, se por um lado não era tão experiente quanto o Maestro, por outro já tinha bem mais rodagem que os garotos campeões da Copinha: era Zinho, que integrava o elenco profissional desde 1986 e agora já havia deixado a ponta-esquerda para se converter definitivamente em um meia-armador que aliava habilidade e dinamismo. No flexível esquema de Carlinhos, no entanto, a peça crucial na transição era um dos jovens.

Centroavante na base, o versátil Nélio foi transformado num atacante pelo lado esquerdo que ajudava a fechar o meio-campo. Combativo e de grande fôlego na marcação, usava velocidade e habilidade nos contra-ataques. Apesar de ter se ausentado de parte da campanha do Brasileiro por lesão, quando esteve em campo participou com frequência de lances de gols, muitos deles decisivos. Seu desempenho seria premiado com a Bola de Prata da revista Placar com a melhor média entre todos os atacantes do campeonato.

Na frente, o irrequieto ponta-direita Paulo Nunes, um dos últimos campeões da Copinha a serem promovidos para o elenco principal (durante o Brasileiro de 1991) se firmava como parceiro do artilheiro Gaúcho, com quem formava dupla irreverente nas comemorações de gols. O goleador, aliás, fechava uma espinha dorsal de nomes experientes que tinha Gilmar, Wilson Gottardo, Junior e Zinho, auxiliada pelos dedicados Charles e Uidemar. A garotada completava o onze inicial e ainda fornecia ótimas opções de banco.

Junior e seus pupilos Nélio, Marcelinho, Djalminha, Marquinhos, Paulo Nunes, Júnior Baiano, Rogério e Piá

Carlinhos podia recorrer, por exemplo, à categoria do meia Marquinhos, um camisa 8 de ótima técnica e visão de jogo, excelente no drible curto e nos lançamentos. Outro que apareceu com frequência foi o volante Fabinho, marcador duro que se mostrava um apoiador eficiente quando improvisado nas laterais. Havia ainda os talentosos meias Marcelinho e Djalminha – ainda que este, após ser titular na conquista da Copa do Brasil, viesse perdendo espaço por problemas disciplinares – e o atacante Luís Antônio.

Com boas peças e sem dinheiro em caixa, o Flamengo se reforçou para o Brasileiro trazendo de início apenas jogadores baratos e desconhecidos para compor o elenco, como o zagueiro Mauro, do São Cristóvão, e o centroavante catarinense Toto, do Juventus de Jaraguá do Sul-SC. Por outro lado, o goleiro Zé Carlos encerrava seu primeiro ciclo no clube em que começara, saindo por empréstimo ao Cruzeiro já perto de completar 30 anos. Quando o torneio começou, porém, o técnico Carlinhos se viu repleto de desfalques.

O início do campeonato, na última semana de janeiro, coincidia com a disputa do torneio pré-olímpico no Paraguai, e os rubro-negros tinham nada menos que cinco nomes convocados: Nélio, Marquinhos, Marcelinho, o goleiro reserva Roger e Júnior Baiano (que acabaria cortado). Além disso, alguns titulares como Wilson Gottardo, Uidemar e Zinho estavam sem contrato. Para piorar, Paulo Nunes se lesionara num amistoso entre combinados carioca e paulista e era dúvida para a partida contra o Bahia na Fonte Nova.

Sobre o próprio jogo, aliás, pairava uma dúvida: a data da partida. Como a decisão do Estadual se estendera até 19 de dezembro, o Flamengo pedia o adiamento de sua estreia no Brasileiro, marcada pela CBF para 26 de janeiro, menos de dez dias após a reapresentação do elenco vindo dos 30 dias de férias – a pré-temporada exígua, aliás, era outro problema com o qual Carlinhos tinha de lidar. No fim, a entidade acabou remanejando alguns jogos do domingo para a quarta-feira, dia 29. Entre eles, Bahia x Flamengo.

COMEÇO PROMISSOR

Com Júnior Baiano e Rogério formando a zaga e Djalminha no lugar de Nélio no meio, o Flamengo saiu na frente em Salvador numa bela cobrança de falta de Gaúcho aos oito minutos. Mas aos 34, Osmar se jogou num lance com Júnior Baiano na área e o árbitro paulista Ulisses Tavares da Silva Filho marcou pênalti, que Paulo Rodrigues bateu para empatar em 1 a 1. O zagueiro rubro-negro ficou irritado: “Quem chega perto de mim na área vai caindo, forçando o pênalti. Nem toquei no cara. Ele já veio pipocando”, protestou.

O segundo jogo também seria fora de casa, no Brinco de Ouro contra o Guarani do técnico Fito Neves, que entrou em campo com três centroavantes e saiu na frente no fim da primeira etapa com Ânderson. Mas na etapa final, o Flamengo (que repetia a escalação contra o Bahia) voltou melhor, virou e venceu por 3 a 1, gols de Gaúcho (num chute de fora da área), Paulo Nunes (de cabeça após cruzamento de Piá) e Zinho (que recebeu lançamento de Gaúcho, driblou o goleiro Marcos Garça e tocou para as redes).

 

A primeira partida no Maracanã seria logo um clássico – e um jogaço – contra o Botafogo, que já se credenciava a disputar o título após vencer bem seus dois primeiros jogos. Foi um duelo intenso, com alternância de domínio, reviravoltas no placar e muitas chances criadas. Mesmo com a chuva que caiu no início, os alvinegros se valeram de sua velocidade, enquanto os rubro-negros, com Gottardo de volta à zaga, exibiram mais uma vez sua perfeita organização em campo, e qualquer um dos dois poderia ter vencido.

O Botafogo saiu na frente com Valdeir, mas Junior empatou no começo do segundo tempo com um golaço, enchendo o pé da intermediária em uma bola mal afastada pela defesa alvinegra. Um dos tentos mais marcantes daquela campanha. E o mesmo Junior – apelidado “Vovô Garoto” pelo saudoso apresentador Fernando Vannucci – faria a assistência para Piá, que passava no corredor pelo lado esquerdo, bater cruzado e virar o jogo. Mas, num escanteio, o centroavante alvinegro Chicão deixaria de novo tudo igual: 2 a 2.

Assistido das cabines do Maracanã pelo técnico da Seleção Brasileira Carlos Alberto Parreira e por seu auxiliar Zagallo, o golaço de Junior aumentou a cotação do meia de 37 anos para uma possível convocação para o amistoso do Brasil contra os Estados Unidos, marcado para 26 de fevereiro em Fortaleza. O camisa 5, porém, mantinha a modéstia: “Não sei se vou acertar um outro chute como esse do empate. Esse gol foi tão bonito quanto o que marquei contra a Alemanha, num amistoso da Seleção na Europa em 1981”.

Na quarta rodada, o Flamengo jogaria pela terceira vez fora de casa, enfrentando o Palmeiras no Parque Antártica. Aliás, a tabela da primeira fase do campeonato formulada pelo Departamento Técnico da CBF, com as 20 equipes se enfrentando em turno único, merecia críticas pela má distribuição dos confrontos dentro dos estados. Um dos vários exemplos era o fato de os rubro-negros terem de enfrentar cinco dos sete clubes paulistas (entre eles Corinthians, Santos e o já citado Palmeiras) na casa dos adversários.

O Alviverde vinha embalado. Mas, para Junior, não era motivo forte o suficiente para o Flamengo se rearmar: “Há oito meses, desde que o Carlinhos assumiu, o Flamengo tem um padrão de jogo e que vem dando certo. Por que mudar?”, alegou o Maestro, colocado pela imprensa paulista como um dos desafiantes em um “duelo de gerações” com o meia palmeirense Luís Henrique, 23 anos, ex-Bahia (e com rápida passagem pelo próprio Fla em 1988), convocado regularmente pela seleção e um dos caros reforços do adversário.

Naquela tarde de sábado, pouco se ouviu falar de Luís Henrique em uma desarticulada equipe palmeirense, exposta aos contra-ataques rubro-negros. Junior, por sua vez, apareceu logo aos três minutos cobrando escanteio venenoso que César Sampaio desviou contra as próprias redes tentando se antecipar a Gaúcho. O empate alviverde também veio num córner, batido por Edu Marangon (de passagem apagada pela Gávea em 1990) para a cabeçada do lateral Marques no último minuto do primeiro tempo.

Na etapa final, o Flamengo chegou a acertar a trave numa cabeçada de Nélio, que voltava ao time naquele jogo. E aos 36 minutos, um outro escanteio batido por Junior decidiria o jogo, com Wilson Gottardo cabeceando sem chances para o veterano goleiro Carlos e decretando o 2 a 1 para os rubro-negros na capital paulista. O resultado alçava o Fla à liderança momentânea da competição antes do desfecho da rodada no domingo. Mas o bom futebol, o resultado e os retornos no elenco já mereciam ser comemorados.

O São Paulo, adversário da quinta rodada no Maracanã, compartilhava de muitas semelhanças com o Flamengo na ocasião. Ambos eram os campeões de seus estados, estavam invictos desde outubro (os paulistas há 18 jogos, um a mais que os cariocas) e haviam somado duas vitórias e dois empates até ali no Brasileiro. Além disso, o Fla sondara Telê antes de efetivar Carlinhos, ao passo que o técnico tricolor tentara persuadir Junior a se transferir ao Morumbi no fim de 1991, sem sucesso. Mas a admiração era mútua.

E foi nesse clima que a partida transcorreu desde antes de a bola rolar, com os times trocando faixas de campeões e posando para fotografias. A imprensa, que colocava Junior e o meio-campo tricolor Raí como os dois melhores jogadores em atividade no país naquele momento, falava em tira-teima. Mas no primeiro tempo do jogo, disputado numa noite de quarta-feira, só o Flamengo justificou seu prestígio, dominando amplamente as ações, sem ceder uma chance sequer ao São Paulo. E abriu o placar aos 31 minutos.

Paulo Nunes fez boa jogada pela direita e cruzou para a altura da meia-lua. Raí não cortou e Gaúcho recebeu a bola, matou no peito e desferiu um potente chute para vencer Zetti. O placar era até pequeno pelo volume de jogo dos rubro-negros naquela primeira etapa, com Junior e Gaúcho em grande noite. No começo do segundo tempo, porém, o Flamengo recuou buscando os contra-ataques e chamou para o seu campo um São Paulo mais organizado, com a revelação Palhinha no lugar de Macedo no ataque.

E foi exatamente Palhinha que fez o gol de empate, abaixando-se para cabecear um cruzamento à meia altura de Cafu pela direita, aos 19 minutos. Imediatamente, o time de Carlinhos tratou de recuperar o controle do jogo e rapidamente voltou à frente no placar: aos 27, Junior bateu falta da ponta direita, Zetti saiu caçando borboletas e Rogério entrou para testar firme para as redes. Nove minutos depois, o Fla praticamente liquidaria a fatura graças a uma das muitas jogadas geniais de seu camisa 5 naquele campeonato.

O drible “vou-não-vou” no volante Suélio foi desclassificante. E o cruzamento da direita para a cabeçada de Gaúcho no cantinho foi milimétrico. Obra de craque. O São Paulo ainda descontaria com um gol contra de Wilson Gottardo aos 41, colocando certa tensão no jogo, mas o Fla segurou a merecida vitória por 3 a 2. “Quem não veio ao Maracanã hoje realmente perdeu. Jogos como este ajudam a resgatar a credibilidade do futebol brasileiro”, declarou Junior, o craque da partida, após o encerramento de um jogaço.

O resultado encerrou a série invicta são-paulina e estendeu a rubro-negra aos mesmos 18 jogos ostentados pelos tricolores antes do início da partida. Além disso, levou o Fla de novo à liderança da competição, agora empatado com o Vasco, que ficou no 1 a 1 com o Fluminense no dia seguinte. A grande atuação mantinha o prestígio do time. Entretanto, encerrava ali o primeiro ato da campanha da equipe de Carlinhos na competição. Pela sequência que viria pela frente, o segundo bem que poderia se chamar “A Agonia”.

DECLÍNIO BRUSCO

E ela começaria no último jogo antes da pausa para o Carnaval, contra o Cruzeiro no Maracanã numa noite de segunda-feira. Carlinhos preferia falar de seu time (“O fato de tratarmos de corrigir nossos defeitos e aprimorar nossas virtudes já é uma prova de respeito pelo adversário, não acham?”, comentava). Mas tanto ele quanto os jogadores do Fla já esperavam um oponente fechado, marcando em cima, sem dar espaços na defesa e explorando os contra-ataques, bem ao estilo de seu comandante Ênio Andrade.

E o primeiro gol cruzeirense, marcado pelo centroavante Charles logo aos três minutos de partida, dificultaria enormemente a missão rubro-negra. A expulsão do meia Luís Fernando trouxe novo ânimo, mas o Cruzeiro dificultava o toque de bola do Flamengo e ainda ampliaria numa cobrança de falta de Paulo Roberto no começo da etapa final. Para piorar, Gaúcho se desentendeu com o zagueiro Adílson e foi expulso. Carlinhos tirou Uidemar e colocou Toto, que descontou no último minuto. Mas não evitou a derrota por 2 a 1.

Dois dias depois, o time foi a Florianópolis e venceu um amistoso contra o Figueirense por 2 a 1. Mas as atenções já estavam voltadas para o desfile das escolas de samba que aconteceriam no domingo, 1º de março, e na segunda, dia 2. Junior desfilou no primeiro pela Mangueira de sempre e foi destaque em um carro alegórico da Beija-Flor. Gaúcho nem fez questão de se poupar: ao todo, saiu em cinco escolas. E ainda pegou “uns bailinhos por aí, pra manter a forma”, como declarou o artilheiro ainda no sábado.

Mas pé-quente mesmo foi a trupe rubro-negra formada por Zinho, Djalminha, Nélio, Paulo Nunes, Piá e Gottardo, que desfilou pela campeã Estácio de Sá na segunda-feira. No sábado seguinte, porém, as notícias já não eram tão animadoras. Já desfalcado de Gaúcho, suspenso, o Flamengo perdeu Junior, gripado, para enfrentar o Santos na Vila Belmiro. Com o pouco rodado Zé Ricardo em seu lugar, o time se segurava até perder também Charles, expulso. Logo em seguida, Paulinho marcou os gols da vitória do Peixe por 2 a 0.

Restaria ao time tentar a recuperação no Mineirão diante de um desesperado Atlético-MG, que até ali ainda não havia vencido no campeonato e somado apenas dois pontos, ocupando a última colocação. Porém, se Gaúcho e Junior voltavam, Nélio era desfalque por lesão no joelho direito e Charles e Zinho cumpriam suspensão. O jogo, disputado numa quarta-feira à noite, foi truncado – Edu Lima acertou um soco em Fabinho – e fraco tecnicamente. E o mesmo Edu Lima abriu o placar para os mineiros cobrando pênalti.

Junior, porém, reservava outro lance de pura genialidade para o empate rubro-negro: numa falta perto da linha de fundo, o camisa 5 bateu direto para o gol, com curva, surpreendendo o goleiro João Leite e decretando o 1 a 1. Durante o jogo, porém, Djalminha e Uidemar se desentenderam e trocaram empurrões depois que o volante cobrou do meia mais atenção na marcação. Na volta ao Rio, Djalminha se desculpou e Carlinhos colocou panos quentes. O time, porém, não vencia há três jogos e lutava para não perder o embalo.

Mesmo com as voltas de Gaúcho e Zinho, o Flamengo mais uma vez não conseguiu boa atuação contra o Bragantino, clube que vinha se firmando como pedra no sapato dos cariocas (e de outros grandes do país) desde que estreara na elite nacional em 1990. Após um primeiro tempo muito ruim dos dois lados no Maracanã, os paulistas abriram o placar na etapa final numa cabeçada do zagueiro Nei em escanteio. No último minuto, Luís Antônio foi derrubado na área, mas Gaúcho perdeu o pênalti e não evitou a derrota por 1 a 0.

Pior ainda foi a atuação no empate em 0 a 0 diante do Náutico nos Aflitos. Carlinhos fez mudanças no time: Charles voltou ao meio para dar mais pegada ao setor, com Fabinho entrando na lateral, e Zinho ganhou liberdade para atuar como ponta na ausência de Nélio. Diante de um Timbu veloz, mas com péssima pontaria, o Fla ainda escapou da derrota quando o ponteiro pernambucano Nivaldo isolou de maneira bisonha um pênalti perto do fim do primeiro tempo. Além de sofrer com desfalques, o time parecia perder a coesão.

Durante a semana seguinte, o clube apresentou seu último reforço para o Brasileiro: o meia-atacante Júlio César, ex-Atlético Goianiense. Quem também estaria à disposição de Carlinhos pela primeira vez no campeonato era o meia Marcelinho, de volta após um período de duas semanas de testes no Glasgow Rangers, da Escócia. Por outro lado, Gaúcho foi levado a julgamento pelo TJD e recebeu mais um jogo de gancho, além da suspensão automática já cumprida, pela expulsão contra o Cruzeiro, mais de um mês antes.

O time que enfrentou o Corinthians no Pacaembu

Sem o centroavante e mais uma vez sem Nélio, que teria de operar o joelho, Carlinhos preferiu reforçar o bloqueio no meio-campo para tentar impedir o forte ataque vascaíno, formado pelo ex-rubro-negro Bebeto e pela revelação Edmundo. Marquinhos e Luís Antônio entrariam no time, que chegou a ter Uidemar e Paulo Nunes como dúvidas por problemas físicos, mas ambos seriam confirmados na escalação inicial. Se o Vasco era o líder isolado do campeonato, o Flamengo vinha de cinco vitórias seguidas sobre o rival.

Desta vez, porém, a sorte (ou a competência) esteve do lado cruzmaltino. A equipe dirigida por Nelsinho Rosa (que formou com Carlinhos uma dupla histórica de meio-campo no Flamengo nos anos 1960) saiu na frente aos sete minutos com Edmundo e ampliou pouco antes do intervalo numa falta cobrada por Bebeto que desviou na barreira e enganou Gilmar. O Fla voltou melhor na etapa final, criou chances, mas desperdiçou e foi castigado: Charles perdeu a bola na saída para Bebeto, que entrou na área e fez o terceiro.

Letal nas poucas ocasiões que teve, o Vasco chegou à goleada com outro gol de ex-rubro-negro, o volante Flávio, no rebote de um escanteio. O Fla, porém, diminuiu duas vezes, ambas pelos pés de Luís Antônio. O primeiro gol foi bonito: ele recebeu de Charles, deu belo drible em Alexandre Torres e fuzilou o goleiro Régis. E o segundo, de oportunismo, pegando rebote do goleiro após chute forte de Marcelinho. Mas a derrota por 4 a 2 foi o fundo do poço da campanha: já eram seis jogos sem vencer e a vaga ficava mais distante.

O RENASCIMENTO

“Ninguém vai fazer terra arrasada aqui”, bradou Junior após o treino da terça-feira seguinte. Com o time descendo ao 13º lugar e em meio a lesões e à má fase de alguns nomes, Carlinhos mexeu de novo na escalação para o jogo contra o Atlético Paranaense no Maracanã. Na zaga, Rogério deu lugar a Júnior Baiano. No meio, Marquinhos substituiu Uidemar. E no ataque, após Paulo Nunes e Gaúcho se lesionarem nos treinos, o treinador testou uma trinca com Marcelinho e Luís Antônio pelos lados e Toto de centroavante.

Com cinco jogadores campeões da Copinha no time titular (Júnior Baiano, Piá, Marquinhos, Luís Antônio e Marcelinho), o Flamengo enfim voltou a vencer. O nome do jogo, porém, foi Toto, autor dos gols na vitória por 2 a 0. O primeiro, escorando de cabeça – “a la” Gaúcho – na segunda trave após uma falta levantada na área por Junior. E o segundo, demonstrando oportunismo ao tocar para o gol vazio o rebote de uma bela jogada de Marquinhos, que avançou pelo meio e tabelou com Junior antes de entra na área e finalizar.

Foi, entretanto, um jogo de dois tempos bem distintos. No primeiro, um Flamengo avassalador construiu o placar e poderia ter goleado. No segundo, um time dispersivo, tentando enfeitar as jogadas e que quase cedeu à pressão do adversário – que acertou quatro vezes a trave e perdeu um pênalti, com Gilmar pegando a cobrança do meia Negrini. “Vai ter puxão de orelha”, criticou Carlinhos, a seu modo, nos vestiários. “O Atlético quase empatou um jogo que estava nas nossas mãos. Isso não pode acontecer”, criticou.

Na semana que antecedeu o jogo, Junior vivera momento especial. Na terça-feira, 2 de abril, havia sido anunciada sua convocação para a seleção brasileira que faria amistoso com a Finlândia no dia 15 em Cuiabá. Presente na lista de Carlos Alberto Parreira juntamente com outros dois rubro-negros, Charles e Zinho, o meia de 37 anos voltaria a vestir a camisa canarinho a qual defendera pela última vez na Copa do Mundo de 1986. “Não trabalhei pensando nisso, já tenho uma história na Seleção, mas me sinto honrado”, declarou.

Três dias antes do amistoso da seleção, o Flamengo iria ao Pacaembu enfrentar o Corinthians, e a imprensa paulista novamente vislumbrava um duelo no meio-campo, agora entre Junior e Neto. Porém, mais uma vez, do destaque adversário pouco se ouviria falar durante a partida, dominada inteiramente pelo Vovô Garoto rubro-negro, que exibiu uma verdadeira masterclass de futebol, levando o time a uma vitória categórica por 3 a 1. Foi ele, aliás, quem abriu o placar em cobrança de falta impecável aos 23 minutos de jogo.

Dois minutos depois, Fabinho e Zinho combinaram pela esquerda, a zaga paulista tentou afastar, mas a bola sobrou para Marquinhos, que soltou a bomba de fora da área para ampliar. E aos 35, Júnior cobrou outra falta entregando a Zinho, e este passou a Fabinho, que jogava improvisado na lateral esquerda no lugar do suspenso Piá. O volante da Copinha invadiu e bateu firme: 3 a 0. Na etapa final, mesmo com a expulsão de Uidemar, o Fla criou chances para golear, com as traves e o goleiro Ronaldo salvando o Corinthians.

O Alvinegro ainda descontaria para 3 a 1 no fim, com um gol de Ezequiel, mas quem sairia com todas as honras seria mesmo Junior, aplaudido pela torcida corintiana. No dia seguinte, a capa do caderno de esportes da Folha de São Paulo estampava uma foto de corpo inteiro do meia preparando-se para bater a falta do primeiro gol, sob a manchete: “Corinthians leva um passeio do Flamengo”. O time de Carlinhos ainda não estava entre os oito primeiros, mas, ao vencer a segunda seguida, mostrava que seguia vivo.

O elenco, porém, vinha minado por desfalques. Com isso, quem ganhou uma chance foi o recém-contratado Júlio César. Após ter entrado durante os dois últimos jogos, ele recebeu de Carlinhos a camisa 10 para o Fla-Flu da 14ª rodada. E não decepcionou, abrindo o placar ao escorar cruzamento de Wilson Gottardo. Depois disso, o Fla perdeu várias chances e passou a administrar a parca vantagem com a expulsão do tricolor Renê. Foi seu erro: a seis minutos do fim, o Flu empatou em 1 a 1 com o zagueiro Luís Marcelo.

Apesar do vacilo no fim, o ponto somado e os tropeços dos concorrentes diretos puxaram o Fla para a sétima posição, isolado. Com quatro dos últimos cinco jogos da primeira fase marcados para o Maracanã, bastava ao time vencê-los para confirmar a classificação. Mas um resultado inesperado no primeiro deles, contra o Sport, tornou a situação bem mais dramática. No primeiro tempo, disputado sob chuva fina, o Flamengo controlou a posse de bola e dominou as ações, mas perdeu incontáveis chances de sair na frente.

Na etapa final, num cochilo da zaga, Franklin botou os pernambucanos em vantagem aos três minutos. Aos 11, veio o empate em outro lance genial de Junior: o goleiro Gilberto escorregou ao bater o tiro de meta e o meia devolveu de sem-pulo para as redes. Apesar da falha, no entanto, o arqueiro do Sport operava milagres para impedir a virada. E, após expulsar o volante Dinho por jogada violenta, o árbitro paulista José Aparecido de Oliveira ignorou pênalti claro quando o zagueiro Aílton agarrou Wilson Gottardo na área.

Em vez disso, quem teria um pênalti a seu favor seria o Sport, já no fim do jogo. O veloz ponta Moura desceu num rápido contra-ataque, ganhou de Charles na corrida e foi travado na bola pelo lateral do Flamengo dentro da área – mas, desta vez, José Aparecido apontou a marca da cal. O meia Neco deslocou Gilmar e deu a vitória aos pernambucanos aos 43 minutos. O revés fora dos planos obrigava, em tese, o Flamengo a vencer os seus quatro últimos jogos, contra Paysandu, Portuguesa, Goiás e Internacional.

Nélio, peça fundamental no esquema de Carlinhos

Nessa hora, foi crucial o retorno de Nélio, recuperado da cirurgia no joelho. Na goleada de 4 a 1 sobre o Paysandu no Maracanã, ele abriu o caminho ao marcar o primeiro gol, com Zinho, Júlio César e Marcelinho ampliando (Edil descontou). O “Marreco” também foi às redes no 1 a 1 com a Portuguesa no Canindé, garantindo ponto importante. E contra o Goiás, ele sofreria o pênalti que Gaúcho – outro que voltava na reta final – converteu para marcar seu segundo no jogo e o terceiro do Fla na vitória por 3 a 1.

Quando chegou 31 de maio, data do encerramento da primeira fase, quatro equipes (Botafogo, Vasco, Bragantino e Cruzeiro) já estavam garantidas na etapa seguinte, e o Flamengo brigava com outras seis pelas quatro vagas restantes. Uma delas era o Internacional, rival direto na rodada decisiva. Gaúcho, que prometera dois gols contra o Goiás e cumprira, estava confirmado. Mas Paulo Nunes, que abrira o placar no último jogo e homenageara seu filho recém-nascido, sairia do time para o retorno de Uidemar.

A ideia de Carlinhos era contar com um meio-campo mais encorpado, com o “Ferreirinha” (como era apelidado o volante goiano) ao lado de Marquinhos, Junior e Zinho, tendo Gaúcho e Nélio à frente. Mas não estava calcada na vantagem do empate com a qual os rubro-negros contavam na briga pela classificação. Empurrado por mais de 90 mil torcedores presentes ao Maracanã, o Flamengo jogou para a frente desde o primeiro minuto, encurralando os colorados e criando várias chances até abrir o placar.

O gol veio, para variar, de um lance de categoria de Junior: uma cobrança de falta com efeito, que surpreendeu o goleiro “Gato” Fernández aos 37 minutos de jogo. O arqueiro paraguaio era quem evitava a goleada rubro-negra, como no lance em que Junior deu um chapéu no volante Élson e emendou um chutaço de primeira, que o camisa 1 colorado foi buscar. Mas no início da etapa final, após evitar uma cabeçada de Gaúcho, ele não pôde fazer nada quando Zinho pegou o rebote e fechou a contagem em 2 a 0.

A vitória fez o Flamengo terminar a primeira fase na quarta colocação, somando os mesmos 22 pontos do Corinthians, mas com saldo de gols superior. À frente vinham apenas Vasco, Botafogo e Bragantino. Os outros classificados eram São Paulo (sexto), Cruzeiro (sétimo) e Santos (oitavo). Na etapa seguinte, as oito equipes eram divididas em dois quadrangulares, com base na posição na fase anterior. O Grupo 1 ficou com Vasco, Flamengo, São Paulo e Santos. E o 2 com Botafogo, Bragantino, Corinthians e Cruzeiro.

AS SEMIFINAIS

A segunda fase começou no dia 7 de junho, mas o Flamengo não entrou em campo nesta data: atendendo a um pedido do São Paulo, que no meio da semana seguinte começaria a disputar a decisão da Taça Libertadores da América contra os argentinos do Newell’s Old Boys, a CBF adiou o confronto para o outro domingo, dia 14, o que desagradou aos rubro-negros, que ficariam duas semanas sem jogar e poderiam perder o embalo – além de forçar a outros remanejamentos no calendário da competição nacional.

Quando enfim a partida aconteceu, coincidiu com o encerramento da Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, a chamada Eco 92, que vinha sendo realizada no Rio de Janeiro. Com vários chefes de Estado do mundo inteiro nas tribunas, o Maracanã viu o Flamengo largar na frente no grupo ao derrotar por 1 a 0 um São Paulo que poupara muitos de seus titulares de olho na final da Libertadores. O gol saiu em falta cobrada pelo zagueiro Rogério, numa falha do goleiro Zetti.

Carlinhos teria problemas na zaga para o jogo seguinte, contra o Santos no Morumbi, no dia 21: Rogério – que havia jogado no lugar de Júnior Baiano, lesionado no tornozelo durante um treino – recebeu o terceiro cartão amarelo e seria desfalque. Como o antigo titular não se recuperou e Mauro também se reabilitava de uma distensão, o jeito foi preparar o jovem Gelson, de apenas 18 anos, titular dos juniores. Outro desfalque era Nélio, também suspenso por terceiro cartão, o que trazia Paulo Nunes de volta ao time.

Um gol de cabeça de Guga abriu o placar para o Santos logo aos sete minutos. O Flamengo ensaiou reação depois de o ponta Cilinho ser expulso ainda no primeiro tempo, mas logo também ficou com dez após Marquinhos receber o vermelho. No fim, o goleiro santista Sérgio operou dois milagres em sequência detendo uma cabeçada de Gaúcho e o chute de Júlio César no rebote para impedir o empate rubro-negro. O resultado de 1 a 0 fez os paulistas assumirem a liderança do grupo com três pontos. O Fla ficava com dois.

Até que vieram os dois aguardados confrontos com o Vasco, marcados para o domingo, 28 de junho, e a quarta-feira, 1º de julho. Assim como os rubro-negros, os cruzmaltinos somavam dois pontos, mas vindos de dois empates: um elétrico 3 a 3 com o Santos no Maracanã e um 2 a 2 com o São Paulo no Morumbi em que reagiram após ficarem dois gols atrás. Com o público pagante superando os 100 mil e o Flamengo voltando ao time titular da reta final do Estadual, o primeiro clássico teve clima quente do início ao fim.

A confusão começou quando o árbitro Cláudio Vinícius Cerdeira não marcou um pênalti claríssimo para o Flamengo quando Luís Carlos Winck esticou o braço para cortar um cruzamento de Zinho, antes dos dez minutos. Daí em diante, seguiram-se jogadas ríspidas de parte a parte. No meio dessa panela de pressão, houve outro lance memorável de Junior, abrindo o placar para o Fla aos 37 minutos ao cobrar uma falta lateral direto para o gol, com curva, fazendo o goleiro vascaíno Régis cair dentro da meta com bola e tudo.

No segundo tempo, o Vasco reagiu e, por ironia, Junior acabou balançando as redes também do outro lado: Cássio desceu pela esquerda e entregou a Luisinho na área, mas o meia rubro-negro, ao tentar cortar, acabou marcando contra. O Fla ainda perdeu ótima chance no fim, num centro da direita para a área que Marcelinho “tirou” o gol de Júnior Baiano ao desviar quando o zagueiro já preparava a cabeçada. No outro jogo, o Santos empatou com o São Paulo nos acréscimos em 1 a 1, deixando o grupo na mesma situação.

O confronto da volta também foi quente. O Vasco assustou de saída com uma bola de William na trave. E após trocarem provocações, Júnior Baiano acertou discretamente um soco em Edmundo (que mais tarde daria um tapa no rosto do zagueiro). Mas no fim o futebol prevaleceria: aos 39, Junior bateu escanteio fechado, Luís Carlos Winck não conseguiu cortar e a bola entrou direto na meta. Gol olímpico que colocava o Flamengo de novo em vantagem na saída para o intervalo, exatamente como no jogo do domingo.

Atrás no marcador, o Vasco voltou nervoso para o segundo tempo. E aos quatro minutos, perdeu o zagueiro Jorge Luiz, expulso após aplicar uma tesoura voadora em Zinho. Pior aconteceu com o lateral Cássio, que entrou em campo sem se aquecer, sofreu uma distensão e teve de dar lugar ao atacante Valdir. O Flamengo assumiu de vez o controle do jogo e empilhou chances perdidas de ampliar o placar. Até que aos 39, Junior recebeu, dominou e passou a Nélio, que bateu cruzado para fechar a vitória rubro-negra em 2 a 0.

Se colocou o Flamengo na liderança do grupo, com cinco pontos (contra quatro da dupla paulista – após a vitória do São Paulo sobre o Santos por 1 a 0 – e três do Vasco), o segundo capítulo da batalha contra os cruzmaltinos mutilou os rubro-negros para o confronto com os são-paulinos no Morumbi: nada menos que as duplas titulares da zaga (Wilson Gottardo e Júnior Baiano) e da criação no meio-campo (Junior e Zinho) haviam recebido o terceiro cartão amarelo e estariam fora do duelo contra um Tricolor completo.

Com o garoto Gelson “Baresi” e Rogério na zaga e com Fabinho e Marquinhos no meio, o time conseguiu segurar o placar em branco no primeiro tempo, mas a falta de experiência pesou na etapa final, em que o São Paulo marcou com Raí e Palhinha, vencendo por 2 a 0. A melhor chance rubro-negra veio no fim do jogo, em outro pênalti desperdiçado por Gaúcho, que amargava um jejum de seis jogos sem marcar. Em todo caso, o empate em 1 a 1 entre Santos e Vasco no outro jogo deixava os quatro clubes com chances.

O São Paulo liderava a chave com seis pontos, Flamengo e Santos vinham logo atrás com cinco, enquanto o Vasco tinha quatro. Mas a perspectiva de reviravolta era considerável, já que rubro-negros e cruzmaltinos jogariam em casa na última rodada, enfrentando os santistas no Maracanã e os são-paulinos em São Januário, respectivamente. Os vascaínos, aliás, tinham vantagem extra: o primeiro critério de desempate no caso de igualdade de pontos era a campanha na fase anterior, na qual terminaram em primeiro.

Porém, a classificação do Vasco dependia de uma única combinação de resultados possível: a vitória sobre o São Paulo aliada ao empate entre Flamengo e Santos. Nesse caso, todos os quatro terminariam empatados com seis pontos, e os cruzmaltinos levariam a vaga pelo desempate. O São Paulo, por sua vez, dependia só de si: bastaria vencer em São Januário ou mesmo empatar caso o confronto entre rubro-negros e santistas não tivesse vencedor. Já o Peixe precisava vencer e torcer pela derrota do Tricolor para o Vasco.

E o Flamengo? O time de Carlinhos não dependia de apenas uma combinação de resultados, mas precisava sobretudo vencer e ficar de ouvido colado no radinho, torcendo para que o São Paulo perdesse ou no máximo empatasse diante do Vasco em São Januário. Quem começou cumprindo sua parte foram os cruzmaltinos, que abriram o placar logo aos 10 minutos com Bebeto. Mas o Fla logo em seguida também marcou: cercado por três santistas, Nélio conseguiu dominar e bater para o gol, com a bola desviando em Índio.

As duas vantagens obtidas no primeiro tempo foram ampliadas logo no início da etapa final: em São Januário, Bismarck fez o segundo do Vasco. No Maracanã, Junior bateu falta lateral para a área e o volante Bernardo se antecipou a Gaúcho para cabecear contra as próprias redes. Porém, ao saber da vitória parcial do Flamengo, a torcida vascaína passou a pedir ao próprio time para entregar o jogo ao São Paulo. Não foi atendida: quando Edmundo marcou o terceiro para o Vasco, teve de ouvir vaias dos cruzmaltinos.

Quando o zagueiro santista Pedro Paulo foi expulso ao parar com falta um contra-ataque rápido do Flamengo, parecia que o resultado estava definido. Mas não foi bem assim: o Santos cresceu e teve a primeira chance de diminuir num pênalti a seu favor, que o artilheiro Paulinho McLaren chutou fraco para a defesa de Gilmar. Logo depois, porém, Marcelo Passos se infiltrou na defesa rubro-negra e enfim descontou aos 36. O que parecia uma tranquila vitória rumo à classificação se transformou num drama para o Fla.

O alívio só veio no último minuto dos pés do herói redimido: Nélio foi lançado pela esquerda, arrancou até a área e rolou para trás. Gaúcho recebeu, dominou e, mesmo desequilibrado, conseguiu finalizar com um chute forte que venceu o goleiro Sérgio, encerrou seu jejum pessoal de seis jogos sem marcar e decretou o 3 a 1 no placar que valeu a vaga na final. “Acabou a má fase. E espero que o Botafogo confirme a vaga amanhã, porque vou marcar contra eles no domingo e sacanear o Renato”, provocou.

No outro grupo a briga foi bem menos acirrada, praticamente reduzida a Botafogo e Bragantino, com o Cruzeiro chegando já eliminado à última rodada e o Corinthians precisando de um milagre. E embora não vencesse nenhum dos jogos contra o clube do interior paulista, empatando em Bragança Paulista e perdendo no Maracanã, o time da Estrela Solitária bateu duas vezes os outros dois adversários e confirmou a primeira colocação e a passagem para a final, à qual chegava como favorito, pela campanha e pelo elenco.

A DECISÃO

O Alvinegro do técnico Gil (o “Búfalo”, ex-ponta do Fluminense, do próprio Botafogo e da seleção nos anos 1970) contava com a experiência do goleiro Ricardo Cruz e dois nomes de seleção do lado esquerdo da defesa: o zagueiro Márcio Santos e o versátil Válber, que atuava como lateral. No meio, a força no bloqueio de Carlos Alberto Santos e Pingo liberava a criatividade de Carlos Alberto Dias. O ataque, embora por vezes contasse com Chicão de referência de área, tinha na velocidade de Renato Gaúcho e Valdeir seu ponto alto.

Mas no Flamengo, apesar da confiança de seu centroavante, o clima era de trabalho e pé no chão contra o otimismo exagerado após a classificação. “Nunca vi tantos convites para festas, começou ontem já no vestiário. Mas esqueçam: comemoração aqui, só depois da final e se conquistarmos nosso quinto título brasileiro”, alertou Junior, antes de lembrar que o Botafogo era o favorito pela campanha que fizera e por jogar por dois empates. Os rubro-negros, porém, apostavam na garra e na união do time e na força da torcida.

Para o primeiro jogo da final no domingo, 12 de julho de 1992, Carlinhos manteve o time que derrotara o Santos: Fabinho entrara na lateral direita no lugar de Charles Guerreiro, ausente por lesão muscular na coxa, e Júlio César ganhara a vaga de Paulo Nunes no ataque. Nas demais posições, era o mesmo time ideal. Já o Botafogo não teve o centroavante Chicão e formou um ataque com três homens de velocidade: Pichetti e Valdeir pelas pontas e Renato Gaúcho mais centralizado, aproveitando sua força.

Os dribles de Junior em Renato Gaúcho viraram a final a favor do Fla

Diante de um público de mais de 102 mil torcedores, jogo começou com o Botafogo no ataque, mas um lance logo no início contornaria todo o moral do jogo a favor dos rubro-negros: Gilmar defendeu um chute de Valdeir e rolou a bola para Junior. Renato Gaúcho chegou para tentar o combate com um carrinho e levou um drible seco do meia. Não satisfeito, insistiu em tentar tomar a bola do capitão rubro-negro e levou outra finta, caindo estatelado no gramado, para delírio da torcida do Flamengo no Maracanã.

Assim, não demorou muito até que os rubro-negros abrissem o placar: Piá passou para Zinho na ponta, recebeu de volta e cruzou rasteiro. Percebendo a chegada de Junior, Gaúcho fez o corta-luz e a bola sobrou para o camisa 5 chutar, mesmo desequilibrado, no canto de Ricardo Cruz e dar início à festa em vermelho e preto aos 14 minutos. E aos 33 veio o segundo: Fabinho ganhou uma disputa no círculo central e lançou ao lado esquerdo do ataque para Nélio, que entrou na área e tocou por entre as pernas de Ricardo Cruz.

Como se o jogo já não tivesse se tornado um recital rubro-negro, ainda no primeiro tempo o time de Carlinhos chegaria ao terceiro gol: Junior cobrou uma falta na intermediária rolando para Piá, e o lateral buscou a linha de fundo, alçando para a área. Gaúcho se antecipou a Ricardo Cruz e, pairando no ar, tocou de cabeça para marcar o gol que havia prometido após a vitória sobre o Santos. Com o 3 a 0 no primeiro tempo, o favoritismo do Botafogo desmoronara aos pés de Junior e do Flamengo, que se colocava muito perto do título.

No segundo tempo, os alvinegros se lançaram ao ataque buscando diminuir a desvantagem, mas deixaram a defesa exposta: quando Válber errou um recuo e Márcio Santos não teve escolha a não ser derrubar Júlio César, que avançava sozinho, o zagueiro levou o segundo amarelo e foi expulso. A melhor chance do Botafogo foi num contra-ataque: Vivinho, que entrara no lugar de Pichetti, ganhou de Piá com falta, mas o jogo seguiu e a bola chegou a Valdeir, que rolou na área para Carlos Alberto Dias isolar seu chute com o gol aberto.

“Só se surpreende com o Flamengo quem não conhece o Flamengo”, declarou Junior ao fim do jogo, perguntado se esperava sair com vantagem tão grande. “Demos um grande passo”, afirmou. Mas nem só de boas notícias viveu o time naquele dia: Nélio se lesionou no segundo tempo, assim como Paulo Nunes, seu substituto na partida, que acabou tendo de dar lugar a Marcelinho. Os dois eram dúvida para o jogo de volta. Mas nada comparado ao turbilhão que o adversário viveria naquela semana entre as duas decisões.

Na segunda-feira após os 3 a 0, um churrasco organizado por Renato Gaúcho em sua casa para amigos deu o que falar: entre os convidados, o centroavante rubro-negro Gaúcho, que ganhou até comida na boca do amigo e rival. Como se não bastasse, declarações do ponta botafoguense exaltando a torcida do Flamengo (“Ela é de outro mundo”) foram publicadas no Jornal do Brasil da terça-feira, deixando os torcedores alvinegros furiosos e exigindo o afastamento do atacante do jogo de volta e do clube – o que aconteceu.

Ao longo da semana, o Flamengo ganhou mais dois desfalques delicados para a partida de volta: Júnior Baiano, atingido por um carrinho no treino de sexta-feira, e Rogério, seu reserva imediato, foram vetados por lesão, o que levou o clube a pedir o retorno de Gelson, que treinava com a seleção de juniores em Teresópolis, para formar dupla de zaga com Gottardo. O beque de apenas 18 anos e o capitão Junior, que completara 38 anos no fim de junho, simbolizavam a mescla de juventude e experiência daquele time.

Na frente, Carlinhos fez uma mudança mais ousada: além de manter Júlio César na vaga de Paulo Nunes, avançou Piá para a ponta esquerda, na posição de Nélio, com Fabinho deslocado para a lateral esquerda (Charles Guerreiro estava de volta à direita) tendo como objetivo conter o rápido jogo alvinegro pelas extremas. Pelo lado do Botafogo, Márcio Santos foi absolvido pelo tribunal da CBF e confirmado na zaga. No ataque, sem Renato Gaúcho, Gil escalava Vivinho e Valdeir nas pontas e Chicão como homem de área.

O Maracanã recebeu mais de 122 mil pagantes e 145 mil presentes naquela tarde de domingo, 19 de julho. Entretanto, a má conservação das estruturas do estádio ficou lamentavelmente evidenciada quando, cerca de meia hora antes de a bola rolar, uma grade de arquibancada cedeu, fazendo com que dezenas de torcedores do Flamengo caíssem sobre outros na geral. Três deles morreriam na maior tragédia da história do estádio. A partida começou, porém, sem que os jogadores soubessem da dimensão do ocorrido.

Em campo, o Botafogo entrou parecendo acreditar na possibilidade de reviravolta: uma cabeçada de Chicão acertou o travessão e Carlos Alberto Dias obrigou Gilmar a se esticar numa cobrança de falta rasteira. Mas aos poucos, sem conseguir abrir o placar, o time alvinegro foi murchando e o Flamengo retomou o controle, com Zinho enlouquecendo os marcadores com dribles curtos. Depois de levar um pontapé do lateral Odemilson, acabou sofrendo outra falta dura do zagueiro Renê “Playboy”, que recebeu o cartão vermelho.

E foi também Zinho quem sofreu a falta que Junior cobrou com perfeição abrindo o placar para os rubro-negros aos 42 minutos do primeiro tempo. Na comemoração, ficou eternizada a imagem do meia de 38 anos correndo e pulando como se fosse um garoto. Um Vovô Garoto. O segundo gol veio logo no início da etapa final, aos 10, para não deixar mais dúvidas: Piá recebeu de Zinho e cruzou rasteiro para a finalização de carrinho de Júlio César. O antes criticado lateral dava sua terceira assistência naqueles 180 minutos da final.

O Botafogo teve um pênalti a seu favor quando Valdeir se enroscou com Júlio César na área. Mas o próprio Valdeir chutou para fora. Aos 39, Pichetti descontou num rebote da defesa. E aos 45, em outra penalidade mal marcada – numa disputa com dois rubro-negros, Pingo mergulhou na área –, os alvinegros chegariam ao empate em 2 a 2. Foram, porém, notas de rodapé naquela tarde-noite de êxtase rubro-negro e da consagração definitiva de seu camisa 5, o mesmo número de títulos brasileiros que o clube alcançava ali.

Eleito sem discussão o craque do campeonato, Junior não era, porém, o único a sair consagrado. Carlinhos levantava seu segundo título nacional pelo clube, reafirmando sua competência por trás de seu estilo simples e discreto. Gaúcho escrevia seu nome na galeria de ídolos eternos. A garotada formada na base completava sua trinca de grandes conquistas no time principal, depois da Copa do Brasil e do Estadual. E, sobretudo, um elenco de muita garra, caráter e talento soube crescer na hora certa e faturar mais um caneco.

Os campeões com as faixas

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Emmanuel do Valle

Além de colaborações periódicas, quinzenalmente o jornalista Emmanuel do Valle publica na Trivela a coluna ‘Azarões Eternos’, rememorando times fora dos holofotes que protagonizaram campanhas históricas.

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