Abel exagerou, mas Flamengo arrecada ‘uma Crefisa’ a mais que o Palmeiras
Flamengo tem a torcida mais numerosa e isso vale dinheiro; rivais têm que lutar -- e o Palmeiras vem conseguindo
É tudo muito simples: o Flamengo arrecada mais que o Palmeiras. O clube paulista se equipara ao maior rival esportivo porque trabalha internamente e no campo para minimizar o peso dessa diferença. Mérito do Flamengo por arrecadar mais. Mérito do Palmeiras por conseguir bater de frente com menos dinheiro. Neste domingo (21), às 16h (horário de Brasília, no Allianz Parque (veja onde assistir), o Verdão terá nova chance de se provar nessa equação.
No dia seguinte às declarações de Abel Ferreira sobre a diferença orçamentária entre Flamengo e Palmeiras, diversas contas foram feitas. A maioria com o intuito de comprovar que Abel estava errado ao dizer que o Flamengo tem um orçamento “três ou quatro vezes superior ao do Palmeiras”. E de que o português estaria fazendo elogios a si mesmo ao apontar a diferença.
Em primeiro lugar, Abel nunca falou “Eu faço”. Falou sobre o esforço de todo no clube. Se tem algo que Abel faz bem é reconhecer a dedicação do diretor Anderson Barros, da presidente Leila Pereira e de seus colegas de comissões técnica e médicas — além dos atletas, é claro.
Muitos também agiram como se fosse a primeira vez que estivessem ouvindo Abel e não soubessem que o português adora uma figura de linguagem, uma hipérbole, uma muleta linguística. É óbvio que a conta estava errada. Para começar, uma multiplicação por três ou quatro na casa das centenas de milhões já parte de uma enorme diferença conceitual.
Uma Crefisa de diferença
O que Abel disse, com seu exagero característico, é que o Flamengo arrecada um valor significativamente maior que o Verdão. Algo que uma leve batida de olho nos balanços dos dois clubes atesta com facilidade. O orçamento do Flamengo para este ano prevê receitas de R$ 1 bilhão. O do Palmeiras, R$ 880 milhões.
Há R$ 120 milhões a mais no cofre do Flamengo. Considerando que a Crefisa paga um patrocínio de R$ 81 milhões ao Verdão, com penduricalhos que podem fazer o montante chegar a R$ 120 milhões, o Palmeiras precisaria ter mais de duas Crefisas para zerar a diferença.
E é claro que existem diversos fatores se combinando para dar aos cariocas tal vantagem. Mas há uma coincidência numérica muito relevante.
Avaliando os dois balanços, é possível ver que muitas quantias de despesas e receitas se equiparam. Exceto em uma: no orçamento flamenguista, a previsão de arrecadação com direitos de TV é R$ 279 milhões. A do Palmeiras, R$ 174 milhões.
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Mérito sócio-histórico?
Há aí R$ 105 milhões de diferença de arrecadação que o Flamengo recebe pelo simples fato de ter uma torcida mais numerosa. Mérito esportivo e administrativo em boa medida. Bem como mérito sócio-histórico.
Antes de tudo, é claro que as conquistas do Flamengo têm peso e estão dimensionadas no contexto. Mas há clubes igualmente campeões e com apenas uma fração do contingente de apoiadores do Rubro-Negro.
Pode-se discutir se a torcida do Flamengo é mais numerosa porque as cariocas Rádio Nacional e TV Globo levaram antes e, por muitos anos, exclusivamente os clubes do Rio a todo o Brasil. Há, certamente, um impacto aí.
Pode-se dizer também que a diferença populacional venha da mística, das muitas paixões despertadas pelo clube. Pouco importa. O fato é que há no País muito mais rubro-negros do que quaisquer outros torcedores. Isso vale muito dinheiro. E tudo bem.
Ser o clube de maior torcida está na essência do Flamengo. Mais que os títulos, mais que o Zico, o maior orgulho do Flamengo é ser o clube mais popular do Brasil, posição que deverá manter pelos próximos 100 anos. E os rivais que lutem para tirar o impacto de tal diferença na contabilidade.
Pois foi justamente isso que Abel falou. Que a luta é complicada, mas que o Palmeiras consegue. O bi brasileiro e o recente bi da Libertadores mostram isso. E quem viu na fala claramente exagerada e pouco científica do técnico Abel Ferreira, um motivo para criticá-lo, gastou energia à toa e focou na questão errada.



