Brasil

Tim Vickery: ‘Defendo uma nova fórmula que seria benéfica ao calendário do futebol brasileiro’

'Entendo o papel dos estaduais. Só que chegamos numa situação em que eles não estavam bons para ninguém'

Vou pegar o metrô para o Maracanã com alegria extra na quarta feira, e vou sorrindo também na combinação de metrô e trem para o Engenhão na quinta. No final das viagens, tem Fluminense x Grêmio e Botafogo x Cruzeiro — jogos de importância, confrontos de grandes clubes, lutando por pontos no Brasileirão.

Sempre quis isso. Era frustrante demais esperar até abril para esse tipo de ocasião. E depois do apito final, vou para casa curioso para saber como foi a partida entre Galo e Palmeiras, ou São Paulo x Flamengo, Mirassol contra Vasco, etc. Estamos ainda em janeiro, e o ano futebolístico já está começando!

Tudo isso, realmente, pode ser chamado de progresso. Não esperava ver isso tão cedo. Imaginava que a luta seria mais longa.

Temos muito para comemorar. Mesmo assim, não estou totalmente satisfeito.

Hulk celebra gol pelo Atlético-MG
Hulk celebra gol pelo Atlético-MG (Foto: Imago)

Não é nada fácil organizar um calendário de futebol num país com o tamanho e as características do Brasil. Também tem que levar em consideração a história, as tradições. Entendo o papel dos campeonatos estaduais no desenvolvimento do esporte por essas bandas. Só que, na transição do regional para um enfoque nacional, chegamos numa situação em que os estaduais não estavam bons para ninguém — atrapalharam os grandes sem alimentar os pequenos.

Embora fico feliz com o início mais cedo do Brasileirão, acho que o que está acontecendo com os estaduais cabe dentro da fórmula de “menos” — ou seja, agora atrapalham menos os grandes enquanto alimentam menos os pequenos.

Que tal, então, uma fórmula onde, em vez de ser diminuídos, os estaduais ficariam maiores? Os pequenos precisam jogar mais, de ter um calendário mais cheio, com mais confrontos contra rivais locais. Sem isso, como poder manter uma torcida? Os pequenos não precisam mais do futebol nacional.

O presidente da CBF, Samir Xaud, em evento na sede da entidade
O presidente da CBF, Samir Xaud, em evento na sede da entidade. Foto: Staff Images/CBF

Se alimentam com rivalidades locais — que, além de mais, não implica grandes custos de deslocamento. Podem competir entre si, disputando pontos e também possibilidades — a chance de enfrentar os grandes numa fase posterior do estadual.

Assim, os grandes não precisam atuar nas fases iniciais da coisa — jogos que hoje em dia mal servem como pré-temporada. Desta maneira, os gigantes poderiam começar o ano com o Brasileirão, e somente ele. Assim, nem ia ser necessário a bola rolar em janeiro.

Daria para começar na metade de fevereiro, depois de férias e um período de treinamento. E mais tarde no ano, no segundo semestre, aí sim os grandes poderiam disputar o Brasileirão e os Estaduais no mesmo tempo; com o espaço que acabamos de criar, teriam algumas datas no meio de algumas semanas onde os grandes poderiam enfrentar aqueles que se mostraram melhores entre os pequenos. Chegamos, creio, de um esboço de calendário que consegue alimentar sem atrapalhar.

Arrascaeta em jogo do Flamengo no Brasileirão
Arrascaeta em jogo do Flamengo no Brasileirão. Foto: Imago

Mas não vamos cuspir naquilo que temos. Um Brasileirão no ano inteiro já é alguma coisa. A mudança foi importante. Neste ano tem pausa para a Copa do Mundo, no ano que vem tem a pausa — uma promessa da candidatura — para a Copa do Mundo feminina.

E parece que o Mundial do Clubes já ficou consolidado, fazendo necessária mais uma pausa. O calendário no Brasil tem sido um esforço constante de enfiar três litros numa garrafa onde só cabem dois. Pelo menos os dirigentes pararam de se fazer de avestruz e resolveram procurar algum tipo de melhoria.

Então, vou feliz para desfrutar desse presente, dessa novidade inesperada — Fluminense contra Grêmio e Botafogo contra Cruzeiro em pleno janeiro!

Foto de Tim Vickery

Tim VickeryColaborador

Tim Vickery cobre futebol sul-americano para a BBC e a revista World Soccer desde 1997, além de escrever para a ESPN inglesa e aparecer semanalmente no programa Redação SporTV. Foi declarado Mestre de Jornalismo pela Comunique-se e, de vez em quando, fica olhando para o prêmio na tentativa de esquecer os últimos anos do Tottenham Hotspur

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