Brasil

Que o Botafogo, maioria eventual e nostalgia, seja boa brisa à seleção

Depois de muito tempo, Alvinegro retoma a sua tradição de servir atletas à seleção brasileira

O Botafogo é o clube que mais cedeu jogadores às seleções brasileiras em Copas do Mundo, o que não é pouca coisa. Se a gente pudesse enfileirar para uma foto todos os caras que representaram o país num Mundial, ou seja, toda uma coleção dos mais importantes futebolistas de seus respectivos tempos, desde aquele voo carioca à Itália há quase um século até o recente pulo no sui generis Catar, a turma maior vestiria alvinegro, colocada logo no centro do retrato de meias cinzas e o sentimento da estrela solitária.

Agora, quem diria, tanta bola depois, é botafoguense a maioria eventual de um quadro nacional destroçado.

É um acaso, claro que é, cortes de jogadores do Real Madrid e essas incessantes lesões que riscam a lista de Dorival Júnior todos os meses, mas é simbólico que o melhor Botafogo em décadas, com a factível perspectiva de ganhar um ou os dois títulos mais importantes do nosso futebol daqui a pouco, e time de melhor bola apresentada no país, seja maioria no vestiário desta rodada dupla de eliminatórias da Copa, com os repatriados Alex Telles, Luiz Henrique e Igor Jesus.

Não é nada, e não é nada mesmo, mas que ao menos seja uma boa brisa de um clube em momento iluminado, num contexto em que todos questionam o porquê de gente tão relevante em ligas importantes terem tanta dificuldade de jogar legal com a camisa amarela. Aponta também um vácuo de representatividade na elite — se Igor Jesus precisou de nem 20 jogos para virar seleção é também porque não tem assim tanta gente jogando muita bola no estrangeiro, afinal.

O debate eterno sobre o nível do jogo aqui e lá, Rio de Janeiro e Manchester, São Paulo e Barcelona, tem suas nuances que nunca devem ser generalizadas. A gente torce para que Gerson tenha minutos que lembrem a forma como é a própria pulsação e clareza do Maracanã tantas vezes, e alguém sempre vai dizer que, ah, ele não dá conta.

Mas Bruno Guimarães tem dado? A gente também reconhece, de fora para dentro, que um meia e ponta como Raphinha sobraria num Brasileirão em que Scarpa e Veiga ganham tantos jogos. Mas também dá para pensar que Marlon Freitas depois de amanhã talvez entregasse mais que João Gomes. Que Leo Ortiz é mais zagueiro que Beraldo, que Igor Jesus pode estar um centroavante mais inteiro que João Pedro.

Matheus Pereira, não Andreas, podia ser uma opção para um passe de gol no segundo tempo, por que não, ainda que um em Belo Horizonte, outro em Londres.

Craques do Brasileirão tiveram pouco espaço com Tite

O Brasil com Tite jamais topou beber da fonte de grandes momentos de times brasileiros, e talvez o treinador tivesse razão em não reconhecer o patamar de gente como Luan, craque da América pelo Grêmio e de boa Olimpíada, Dudu, mais técnico nome do Palmeiras recente, ou Hulk, líder do ressurgimento do Galo. Do Flamengo, chamou quase todo mundo, de Rodrigo Caio a Bruno Henrique, mas também nunca morreu de amores pelo melhor momento de Gabigol.

Everton Ribeiro teve moral, sim, chegou a ser titular na pandemia, e Pedro foi à Copa, está lá no campo da imagem naquele curta-metragem dos quatro minutos contra a Croácia. Houve um flerte com Diego Souza, lembram? Nomes aqui e ali, mas tudo bem tímido, picado, sem maiores concessões de olhar para algum trabalho e pensar, poxa, posso usar algo dali. Praticamente se firmou a ideia da diferença. A Europa é outro patamar e pronto, sem ressalvas.

E não é que o Brasil vai ser um pouquinho Botafogo, nada disso, mas a moral para Igor Jesus me agrada. Jogo grande atrás de jogo grande, aquela sequência à brasileira de dois meses de pressão por resultado quarta e domingo, forjando a casca e valendo uma chance.

Exemplo perfeito dessa mistura que falei acima, entre o ritmo de um time em grande fase e a ausência de unanimidades – chega a ser estranho lembrar que há menos de dois anos, no Mundial, Richarlison era um dono absoluto da 9, com Gabriel Jesus esperando uma brecha.

A seleção brasileira vive uma das fases mais sem graça de toda a sua história, e a lista é longa: pingando de técnico em técnico, sofrendo para chutar no gol do Paraguai, com dificuldade de listar certezas no elenco, mais esse alarmante déficit de carisma ou lideranças que empolgam a torcida e, por fim, naquele limbo do calendário onde jogos contra os vizinhos não bastam mais como caminho a uma grande Copa, na mesma medida que não é possível que não vamos mais ganhar dois jogos numa rodada dupla dessas, Chile e Peru, gente. Não tem muito por onde cortar caminho, mas a paciência está à prova. Urge um joguinho alto astral.

 

Foto de Paulo Junior

Paulo JuniorColaborador

Paulo Junior é jornalista e documentarista, nascido em São Bernardo do Campo (SP) em 1988. Tem trabalhos publicados em diversas redações brasileiras – ESPN, BBC, Central3, CNN, Goal, UOL –, e colabora com a Trivela, em texto ou no podcast, desde 2015. Nas redes sociais: @paulo__junior__.

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