Brasil

Borja é o ápice do processo que levou o Palmeiras a ser um leão no mercado de jogadores

O Palmeiras havia escapado do rebaixamento por um triz há coisa de um mês quando, em um domingo, dia incomum para confirmar uma transferência, a compra de Dudu foi anunciada. Depois da chegada de Alexandre Mattos, homem forte dos dois títulos do Cruzeiro, algumas boas contratações haviam sido feitas, como Vitor Hugo, Zé Roberto e Gabriel, mas nenhuma do calibre do ex-jogador do Grêmio, que estava sendo disputado por São Paulo e Corinthians, dupla prestes a disputar a Libetadores e em um patamar muito acima do Alviverde naquela época – foram, respectivamente, segundo e quarto colocado no Brasileirão de 2014.

LEIA MAIS: O que o Palmeiras pode esperar com a contratação de Alejandro Guerra

Custou caro, quase R$ 20 milhões, mas o Palmeiras não estava apenas contratando um atacante que faria dois gols na final da Copa do Brasil, seria capitão do título brasileiro e decidiria aquela crucial partida contra o Botafogo: o Palmeiras também estava comprando respeito. Além do aspecto técnico, era a tentativa de afirmação de um clube que não participava das negociações pelos jogadores mais cobiçados pelo menos desde 2008-2009, quando tinha o aporte da Traffic. Quis enviar ao mercado a mensagem de que estava de volta.

Foi o começo de um processo que culminou, na noite da última quinta-feira, com o anúncio de Miguel Borja, o ápice dessa estratégia. O primeiro passo foi reconstruir o elenco do zero, contratando 25 jogadores ao longo de 2015. Alguns deles eram valorizados no mercado daquela época, como Arouca, Cleiton Xavier e Lucas Barrios, trazidos na esteira da chegada de Dudu, que demonstrou a ambição de um clube que não brigava por títulos há bastante tempo. Também ajudou a atrair esses jogadores a fama muitíssimo recente de ser confiável e pagar salários em dia, construída nesse período. Campeão da Copa do Brasil e na Libertadores, passou a tentar qualificar o time e buscar negócios mais pontuais, como Erik, uma jovem promessa contratada por R$ 13 milhões, Mina, Tchê Tchê, Róger Guedes e Jean, eventuais pilares do título brasileiro. Agora, veio o salto ainda maior de qualidade, com Guerra, Felipe Melo, Michel Bastos e, finalmente, Borja.

O atacante tem apenas 24 anos, disputou a Olimpíada do Rio de Janeiro e foi convocado para a seleção principal. Discutivelmente, foi o melhor jogador do continente ano passado, com cinco gols entre a semifinal e a final da Libertadores, outros seis na Copa Sul-Americana, 14 ainda pelo Cortuluá, no Apertura do Campeonato Colombiano e 39 no total em 2016. Já foi assediado pelo mercado chinês e observado pelo europeu, tanto que o Palmeiras só conseguiu fechar a contratação depois do fechamento da janela de transferências da Europa, quando o Atlético Nacional reduziu sua pedida. A possibilidade de lucrar em cima do investimento aproximado de R$ 35 milhões – bancado pela patrocinadora – é razoável. A pulga atrás da orelha é o fato de Borja ter explodido apenas depois de algum tempo de carreira, já com passagem por alguns clubes, entre eles, o Livorno, da Itália. Mas pode ser apenas um caso de amadurecimento e, no geral, o reforço é uma excelente tentativa de repor a saída de Gabriel Jesus.

A contratação de um jogador que parecia fora da realidade para os clubes brasileiros, como admitido pelo próprio Mattos,  vencendo o interesse da China, graças, em grande parte, à vontade do jogador, e todo o processo que levou o Palmeiras a isso só foram possíveis graças a uma confluência de fatores. O Allianz Parque foi inaugurado, no final de 2014, e desde então tem sido uma forte fonte de receita, com arrecadação de bilheteria de R$ 42 milhões apenas no Campeonato Brasileiro do ano passado. Verdade ou não, provavelmente não, a diretoria foi esperta ao vincular a contratação de Dudu ao crescimento do número de sócio-torcedores, que chegou a 126 mil em julho do ano passado.

O mais importante, porém, foi o dinheiro de dois milionários ligados ao clube. Paulo Nobre colocou R$ 103 milhões do próprio bolso para ajustar as contas do clube durante o seu mandato, dívida que está sendo paga com o repasse de 10% da renda bruta ao ex-presidente e já caiu para R$ 66 milhões. A outra injeção foi de R$ 45 milhões que, segundo o Lance!, será quitada com o dinheiro do contrato de direitos de transmissão assinado com o Esporte Interativo e da venda de Gabriel Jesus para o Manchester City.

A segunda benfeitora é Leila Pereira, dona da Crefisa com ambições políticas dentro do clube, gastando quantias vultuosas para ser notada. A empresa havia pagado R$ 66 milhões pelo seu primeiro contrato de patrocínio, valor já bem acima do mercado, mais R$ 12 milhões em gastos com Lucas Barrios. Esse acordo foi renovado por dois anos, com depósitos de R$ 72 milhões no primeiro e R$ 78 milhões no segundo, mais os salários de Barrios, que pode chegar a um gasto total de R$ 18 milhões, se o paraguaio ficar até o fim do seu vínculo, em julho de 2018. Também pagou R$ 63,8 milhões pelas contratações de Borja, Guerra e 50% de Dudu, além de bancar parte dos vencimentos do atacante colombiano com um aditivo de R$ 200 mil.

Não parece ser um modelo de negócios sustentável. Ainda precisamos aguardar para ver qual será a repercussão desse mecenato, apesar de haver contratos assinados. Boa vontade é volúvel, e interesses políticos podem arrefecer subitamente. Nunca é recomendável dar tanto poder e importância a uma ou duas pessoas dentro de um clube de futebol, por mais que o Palmeiras tenha aparentemente colocado a casa em ordem para caminhar com as próprias pernas, se eventualmente precisar.

Mas, com as próprias pernas, não teria um elenco tão poderoso para a temporada que está começando, nem teria uma torcida eufórica com a chegada de um potencial sucessor para Gabriel Jesus.Proporcionalmente aos rivais, tão forte pela primeira vez desde 1993/94, com o primeiro esquadrão da Parmalat. Entra como favorito para disputar todos títulos deste ano, e batata agora está nas mãos de Eduardo Baptista. Ele não pode reclamar da falta de peças para trabalhar.

Mostrar mais

Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

Artigos relacionados

Botão Voltar ao topo