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Revelações sobre tragédia do Ninho reforçam a urgência por responsabilização e mais respostas

Funcionários do Flamengo sabiam das condições precárias das instalações elétricas no Ninho do Urubu e tinham a possibilidade de evitar o incêndio que vitimou dez garotos dentro do clube. A revelação, feita através de e-mails obtidos pela reportagem do UOL Esporte, redimensiona a tragédia ocorrida no centro de treinamentos rubro-negro. As conversas indicam que não houve um acidente, e sim negligência, que culminou no episódio mais triste da história do Fla. Há responsáveis. E as novas informações exigem mais respostas, para que se averígue quem não tomou as medidas necessárias e que se transmita um mínimo senso de justiça às famílias, diante das histórias que elas não poderão viver mais.

A reportagem assinada por Leo Burlá e Pedro Ivo Almeida aponta que o Flamengo “sabia de riscos em função da precariedade das instalações elétricas do Ninho do Urubu desde 11 de maio de 2018”. Com nove meses de antecedência, dirigentes foram informados que as instalações elétricas não estavam em conformidade com os requisitos de segurança e existia um alto risco de acidente. Um técnico da segurança do trabalho do próprio clube realizou uma inspeção no local e entregou um relatório, comprovando “as não-conformidades e suas gravidades”, bem como uma situação de “alta relevância e grande risco”. O quadro elétrico dos dormitórios da base era citado nominalmente.

O relatório, com imagens, foi enviado por Wilson Ferreira, funcionário do departamento pessoal. Receberam o documento o gerente de administração, Luiz Humberto Costa Tavares; a gerente de recursos humanos, Roberta Tannure; e o funcionário Douglas Silva Lins de Albuquerque. Posteriormente, também foi notificado Marcelo Helman, diretor de administração do Ninho. Na conclusão, o relatório afirmava que “as irregularidades não serão tratadas no momento”, já que o clube justificava a mudança de alojamento no fim de 2018 – o que não se concretizou a tempo.

Na mesma época da análise feita pelo técnico de segurança do trabalho, todavia, Luiz Humberto Costa Tavares providenciou um orçamento de reparos elétricos e o Flamengo acertou o conserto. Custaria R$8.550,00 e seria feito em dez dias pela empresa CBI. A prestadora de serviços foi contratada e emitiu duas notas fiscais, uma em maio e outra em outubro de 2018, mas o trabalho nunca aconteceu.

“Para surpresa, em inspeção realizada no local na data de 19/02/2019, verificamos que o objeto do contrato 15.1/18-PA, não havia sido realizado e as instalações continuavam as mesmas de quando a inspeção fora realizada, em registros fotográficos antes e depois do evento que culminou na morte de dez adolescentes. Podemos perceber que o serviço que a empresa CBI foi contratada, não foi realizado, mantendo o mesmo alto grau de risco antes verificado. As tais gambiarras elucidadas na proposta, ainda estavam claramente no local”, escreveu a Anexa Energia, contratada para analisar a situação das instalações após a tragédia, em documento enviado à diretoria do Flamengo em março de 2019.

Durante sua prestação de serviços, a Anexa Energia também apontou as irregularidades nas instalações elétricas e comparou com o relatório de 2018. Além da má conservação, o sistema elétrico estava sobrecarregado. O contrato com a empresa, porém, seria rompido pelo Flamengo ao alegar que os serviços não vinham sendo cumpridos – o que é negado pela Anexa. A empresa aponta que, dias antes da tragédia, um dos equipamentos de ar condicionado teve um suposto incêndio. Na véspera da tragédia, uma companhia foi chamada para manutenção e reinstalação de um aparelho.

Antigo diretor de administração do Ninho do Urubu, Marcelo Helman chegou a ser desligado pelo presidente Rodolfo Landim no início de 2019, por sua postura até mesmo debochada em relação ao incêndio. Nomeado sob a presidência de Eduardo Bandeira de Mello ao cargo, o principal responsável pelo local dizia que não tinha informações sobre os riscos e chegou a apontar que “poderia estar na praia” em uma das reuniões depois da tragédia.

Diante das divulgações desta quarta-feira, a Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro se posicionou com firmeza. Afirmou como o Flamengo tem responsabilidade sobre a tragédia e como precisa responder pelo risco aos quais os adolescentes foram submetidos. A Defensoria realiza uma ação coletiva em defesa das dez famílias.

“Os e-mails mostram que os representantes do Flamengo (em especial o gerente e o diretor responsáveis pela administração do CT) tinham ciência, desde maio de 2018, das gambiarras nas instalações elétricas do alojamento da base, tendo o gerente dito que as instalações foram feitas no esquema ‘faça-de-qualquer-jeito’. Os e-mails também comprovam que eles sabiam do risco de vida a que estavam submetendo os adolescentes que ali dormiam, e nada fizeram para evitar a morte de dez jovens, e as lesões em tantos outros. Esses documentos são a prova inconteste da responsabilidade do clube, e serão anexados à ação coletiva. A Defensoria Pública continuará buscando a reparação integral dos danos causados pela tragédia no Ninho do Urubu.”, respondeu o órgão público, em contato com a reportagem de O Globo.

Além disso, os advogados das famílias irão à justiça após a revelação dos e-mails. Sete das dez famílias tinham entrado em acordo com o Flamengo quanto às indenizações, mas as informações trazem à tona outras questões, sobretudo criminais. “Esperamos que haja justiça na esfera criminal, com a condenação dos ir(responsáveis). Acreditamos que o Ministério Público tomará as medidas cabíveis diante de tais provas”, declarou Paula Wolf, uma das advogadas envolvidas no caso, em entrevista ao blog do jornalista Mauro Cézar Pereira no UOL Esporte.

Como complementou o também advogado Alexandre Soares, ao mesmo blog: “Na minha visão essa é apenas mais uma confirmação da omissão. É responsabilidade do clube. Mesmo não havendo uma conclusão final do inquérito. É um absurdo a forma como o clube tem tratado o caso, bem como as famílias. Não teremos alternativa a não ser buscar a reparação perante a justiça por meio de ações indenizatórias”.

O Flamengo não se manifestou sobre as revelações desta quarta. Seria o mínimo ao clube colaborar com as famílias, mas isso não ocorreu em diversos momentos desde a tragédia. Parece haver uma preocupação, mesmo na atual gestão, sobre a responsabilização do caso. A preocupação parece muito maior com o dinheiro e com a proteção dos responsáveis do que com a justiça e com a reparação às famílias. Enquanto isso, Eduardo Bandeira de Mello lava as mãos outra vez. Ao UOL Esporte, disse que o assunto era dos “escalões mais baixos” e não chegava à presidência. Repete a postura de restringir as responsabilidades, quando parece óbvio que membros de sua diretoria respondem por tal negligência.

Pede-se, cada vez mais, uma postura franca do Flamengo para se esclarecer de quem foi a responsabilidade pela não realização dos reparos elétricos e por não se levar em consideração os riscos evidentes. A própria torcida precisa pressionar por tal abertura. Os documentos também indicam que o clube não colaborou da maneira devida, na gestão antiga e também atual. Diante das revelações, tais respostas se tornam essenciais às investigações sobre a tragédia. Ao menos, a possibilidade de justiça se torna mais visível.

Ainda não está claro sobre quem recai a maior negligência, mas ela existe, e provavelmente não só de um funcionário ou de um prestador de serviços. A teoria de que ocorreu um “acidente” cai por terra e as lacunas a serem preenchidas se tornam urgentes. Além do sentimento de dor e de luto, as famílias agora têm certeza que não foi o acaso que tirou a vida dos dez garotos. Além das indenizações, a questão é se fazer justiça a quem negou os riscos e cujas inconsequências resultaram em dez mortes.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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