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Aranha: “Eu não queria ganhar projeção usando o que aconteceu”

Faz quase quatro meses que Aranha visitou o Grêmio, defendendo o Santos, e saiu do estádio de cabeça quente, com a alma ferida, e humilhado. As ofensas da torcida adversária e principalmente a sua postura de denunciar os racistas fizeram com que ele se tornasse mais que um bom goleiro. Também um símbolo da luta contra o preconceito, principalmente no futebol. Agora, sua história está misturada com aqueles gritos. Quando se aposentar, será conhecido como ex-jogador da Ponte Preta, do Santos e aquele que não abaixou a cabeça para o racismo.

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“Eu não queria ganhar projeção usando aquele fato lamentável”, diz, em entrevista exclusiva à Trivela, depois de receber uma homenagem na TV Gazeta, no Troféu Mesa Redonda, concedida a atletas que “dignificaram o esporte com honra e ética”. Ele recusou convites de programas de televisão porque sabia que esse assunto seria abordado. Também rechaçou abordagens de empresas para ações comerciais. “Pessoas de todas as partes quiseram tirar proveito disso. Recusei muitos pedidos e acabei perdendo também. Hoje não é só jogar. Tem que aparecer também”, afirma.

Aranha reapareceu na Arena Grêmio um mês depois e não teve a recepção que esperava. Foi hostilizado. Na época, afirmou que tinha certeza que não eram vaias normais. Era impossível desassociá-las de tudo que aconteceu. “Eu sai de lá imaginando ou entendendo que aquilo era uma minoria. Quando os diretores do Grêmio se posicionaram contra mim, e os torcedores se posicionaram contra mim, deu a entender que a maioria concorda com aquilo”, avalia.

Uma decepção para o goleiro principalmente porque ele esperava que, ao se portar com firmeza diante das ofensas, tivesse deixado claro que o agressor, independente do que tem dentro da cabeça, precisa se comportar pelo menos quando estiver em público. Mas o problema do racismo no Brasil é muito maior. 70% dos jovens assassinados são negros. Ainda há segregação e muitas pessoas que consideram a cor da pele um diferencial. “Eu acho que foi bom pelo seguinte aspecto: houve uma discussão. E com a discussão, há o crescimento”, explica.

Quase quatro meses depois, como você avalia tudo que aconteceu?

Eu acho que foi bom pelo seguinte aspecto: houve uma discussão. E com a discussão, há o crescimento. Era uma coisa muito camuflada. De repente, tornou-se bem visível, bem público. Foi bom por isso. E foi triste porque é lamentável que nos dias de hoje aconteça isso. No passado também, mas mesmo depois de toda a informação, não mudou nada.

Você ficou surpreso com a repercussão que teve?

Eu não imaginava que tomaria essas proporções. Até porque quando eu tomei a atitude não pensei em representar ninguém. Só a mim mesmo, como cidadão. É assim que todo mundo deveria ser. Se você acha que está sendo desrespeitado, tem que procurar seus direitos.

Atrapalhou sua parte técnica? Sentiu-se mais motivado ou pressionado?

Eu sei separar muito bem as coisas. Esse episódio acabou me atrapalhando na parte de imagem. Eu tive que recusar muitos convites de programas esportivos porque sabia que seria abordado esse tema e eu não queria ganhar projeção usando aquele fato lamentável. Recusei muitos pedidos e com isso acabei perdendo também. Hoje não é só jogar. Tem que aparecer também.

Também houve empresas propondo ações comerciais?

Soube ter inteligência e tive boas companhias para me ajudar a me blindar de tudo isso. Porque de vítima eu poderia sair como vilão.

Mas houve procura?

Pessoas de todas as partes quiseram tirar proveito disso.

Antes de voltar para a Arena do Grêmio, você achou que seria hostilizado?

Sinceramente, eu imaginava que teria outro tipo de recepção porque eu sai de lá imaginando ou entendendo que aquilo era uma minoria, que eram alguns, que não era um pensamento geral. Quando os diretores do Grêmio se posicionaram contra mim, e os torcedores se posicionaram contra mim, deu a entender que a maioria concorda com aquilo.

Acha que não conseguiram separar? Acharam que suas críticas eram ao Grêmio e não ao racismo?

A paixão do futebol não pode ultrapassar o limite da lei, da justiça e do respeito com o próximo. Não pode servir de desculpa. Há muito tempo vivemos lamentamos situações pela paixão do torcedor. Mas se estão se cobrando tantas mudanças no futebol brasileiro, os estádios já mudaram, o pessoal da diretoria está se reformulando, os jogadores também, agora o torcedor tem que ter outro perfil dentro do jogo.

A Patrícia Moreira foi bastante hostilizada depois do ocorrido, algumas pessoas chegaram a ficar com pena dela. Você acha que houve uma tentativa de vitimização da agressora?

Duas frases: “em boca fechada não entra mosquito”, e uma que é bíblica, “por suas palavras, será condenada”. Ela falou e está pagando por isso. Se eu tivesse desrespeitado o torcedor, eu estaria pagando hoje. Poderia custar minha carreira. Se eu tenho que respeitar as pessoas, eu também tenho que me respeitar.

Chegou a se encontrar com ela?

Não tenho vontade nenhuma, não tenho nem por quê.

O racismo ainda está muito longe de melhorar no Brasil?

O problema é familiar. É o pai que leva o filho para o estádio e ensina. Vê o filho xingando, tendo certas atitudes e acha aquilo bonito, engraçado. Não corrige. Isso é passado de pai para filho. Brasil foi um dos últimos países a acabar com a escravidão e não foi por vontade própria. Foi por pressão externa e interna dos próprios negros. A gente carrega muitos vícios antigos. Mas tem que acelerar isso também.

Acha que ajudou a conscientizar as pessoas?

Eu acho que se eu consegui passar alguma coisa foi no aspecto de firmeza, de confiança, de tomar atitude, e fazer com que os próprios negros também se informem um pouco mais dos seus direitos para poder cobrar.

Pensa em ter uma postura mais ativa nessa luta, fora do futebol?

Não. Até porque eu acredito que a conscientização não precisa mais ser feita. Todos sabem o que pode e o que não pode, o que é certo ou errado. Se a pessoa não gosta da situação, mas está em um lugar público, tem que pelo menos se comportar.

Você se arrepende de alguma coisa?

Não me arrependo de nada. Acho que tive uma atitude correta e espero que outras pessoas que também se sintam acuadas tenham um pouco mais de firmeza para fazer o mesmo.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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