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Acostumado ao impossível, Grêmio é o time certo para lutar contra o racismo

Não é dessas coisas que se admite em público, eu sei. Paciência. Mas naqueles emocionantes anos 1990, quando o Grêmio vencia jogos impossíveis e torneios improváveis, inclusive contra o meu time, eu criei uma certa simpatia pelo tricolor gaúcho. Nunca foi torcida-torcida, já que prezo pela monogamia esportiva. Mas aquela retranca que se transformava em contra-ataques mortais era incrível. Para meu desespero, era movida por um dos hinos mais bonitos do futebol mundial. Que time no mundo resistiria a uma equipe tão boa animada por versos como “Até a pé nós iremos/Para o que der e vier/Mas o certo é que nós estaremos/Com o Grêmio onde o Grêmio estiver”? Confesso: sempre que o meu time não estava envolvido na parada, eu torcia pelo Grêmio. Era uma Síndrome de Estocolmo boleira, aquela enorme simpatia por quem tanto mal te fez. O Grêmio encarnava o impossível – e eu sempre tive uma certa simpatia pelas coisas improváveis.

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Nerd boleiro, descobri que o hino fora escrito por Lupicínio Rodrigues, um colosso das canções dramáticas. Aquele mulato gaúcho tinha composto não apenas canções essenciais para a vida de qualquer homem que sente intensamente as dores do amor – ainda tinha cometido uma baita canção para uma equipe de futebol. Era covardia. Mesmo nas piores épocas, o Grêmio insistia em mostrar que o impossível não era nada perto do “até a pé nós iremos”. A Batalha dos Aflitos é uma das poucas memórias futebolísticas que carrego comigo como se fossem do meu próprio time.

Por isso eu tenho certeza que o Grêmio vai superar o racismo de uma parte da sua torcida e dos seus dirigentes. Embora isso pareça impossível hoje, já que o bom senso vem sofrendo punhaladas na barriga, um time que tem um hino tão bonito composto por um mulato tão genial não vai se apequenar dessa forma. Porque ceder ao racismo seria diminuir o Grêmio, seria transformá-lo em uma instituição banal, tola. É um esforço descomunal, mas vai valer a pena. Um time tão grande não precisa ficar na defensiva nesse assunto. O Grêmio precisa sair da retranca, admitir o problema e batalhar para resolvê-lo dentro do que ele pode fazer. Um bom caminho seria dar um chega-pra-lá em algumas das suas nobres figuras.

Uma delas é Luiz Carlos Silveira Martins, o Cacalo, ex-presidente do time. Nesta terça, fez de tudo um pouco. Com um estilo similar ao da zaga do Grêmio na campanha do rebaixamento, Cacalo protagonizou #cenaslamentáveis. O bom senso passou pela peneira de Cacalo sem nenhuma resistência e se perdeu no rio da vida. Cacalo relativizou o racismo contra o goleiro Aranha, do Santos, num nível que me dá até vergonha de reproduzir. Uma das pérolas: “Dentro do folclore do futebol, o Internacional coloca uma faixa ‘aqui é macacada’. É dentro do folclore do futebol. Se você passar pela rua, encontrar um negrão, um afrodescendente e dizer ‘olha, negro macaco’, você está praticando um racismo grosso, sim. Mas nesse contexto do futebol, nessa forma, é o fim do futebol.” Calendário absurdo e contratações estapafúrdias não são o fim do futebol. Racismo, curiosamente, é. Tenho de admitir: criatividade não falta nesta lógica gongórica. Como se não bastasse a cascata de absurdos, Cacalo usou até a infatigável construção “nada contra, tenho até amigos que são”. Você sabe: quando alguém fala uma abobrinha, geralmente se sai com essa para relativizar a história. Enfim, a ESPN tem o áudio e as declarações. Vale ler. É sempre bom ter um exemplo do que não fazer.

A atitude de Cacalo tem um leve parentesco com o os cantos da torcida Geral do Grêmio, que insistiu nos xingamentos de macaco. A falta de bom senso, infelizmente, está muito presente na humanidade. Com frequência, as pessoas fazem a pior escolha. A boa notícia é que tanto a direção do Grêmio quanto milhares de outros torcedores do time estão empenhados em devolver a grandeza perdida nas repetidas cenas de racismo. A vaia contra a Geral, uma baita atitude gremista, se somou à firmeza da direção do time, que rompeu com a organizada, vai processá-la por uso indevido de imagens e ainda convocou a torcida para se manifestar contra o racismo. Ainda há um longo caminho pela frente, mas é coisa simples para quem já se acostumou a ir a pé, onde o Grêmio estiver. O racismo não faz parte do Grêmio nem da vida. Pode parecer impossível acabar com ele hoje, mas nada é improvável para um time deste tamanho. O futebol fica maior quando grandes atitudes são tomadas – e o Grêmio é talhado para essas grandes batalhas.

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