Brasil

A-ha, U-hu, o assassino é nosso

De uns tempos para cá, certa camada intelectualizada dos brasileiros tem adotado dois tipos de postura em relação ao futebol. Com um olhar na Europa e na América e outro nos nossos vizinhos, defendem que:

1) O Brasil não tem condição alguma de sediar uma grande competição esportiva. Nenhum país fora da Europa, da Ásia ou da América do Norte tem. Para isso, citam como exemplo a qualidade técnica e organizacional da Liga dos Campeões, com gramados perfeitos, estádios lindos e um comportamento extremamente civilizado da torcida.

2) O Brasil, se fosse possível, não deveria nem disputar a Libertadores. O elenco de nossos times tem craques consagrados, repatriados da Europa, como Pato, Luís Fabiano, Deco e  outros e não podem ficar expostos a campos ruins, estádios pequenos e torcedores que ofendem e pressionam jogadores que vão cobrar escanteio, sob olhares cúmplice da Polícia. Além disso, tem a altitude que iguala desiguais, ajudando bolivianos.

Em resumo: infelizmente não somos europeus, mas também não é justo termos de conviver com índios do altiplano.

Pois bem, sinto informar que não é mais assim.

Em uma hipotética discussão com um boliviano, ao citar altitude, estádio, gramado e torcida, um brasileiro pode receber a seguinte resposta: “é, mas a gente não mata ninguém”.

Porque é isso de que se trata: um garoto boliviano de 14 anos sai de casa e vai ao campo de sua cidade ver seu modesto time de coração enfrentar o campeão do mundo e morre após receber um sinalizador na cabeça. Um assassinato que provavelmente tem como culpado um brasileiro, membro de torcida organizada. Nove brasileiros foram detidos pela polícia boliviana .

Ah, como deve ser linda a vida de quem pode deixar o Brasil na segunda, dar um pulo até a Bolívia na quarta e voltar são e salvo na quinta. Quase uma semana sem trabalhar.

Esse tipo de torcedor – corintiano, palmeirense, sãopaulino, brasileiro, boliviano, chinês – tem de ser combatido. É indecente jogador famoso pagar tributo a essa gente, comemorando gols com gestos idealizados por torcidas organizadas. Não se deve incentivar esse povo.

É hora de jornalistas acabarem com essa glamourização da torcida organizada. A Fiel leva o time à vitória. Leva nada. Levou Guinei e Jacenir a conquistar a Libertadores?

Tite, após o jogo com o San Jose, estava muito emocionado. Disse que trocaria seu título de campeão mundial pela vida do garoto Kevin. Não há motivo para se desconfiar da sinceridade dos sentimentos do treinador. Seria uma leviandade. Por seu passado e pela convivência que se tem com ele. 

Mas, é possível contestar. Tite fariam muito melhor ao futebol se dissesse algo assim:

“Não sei se alguém atirou esse sinalizador. Não sei se foi um corintiano ou um boliviano. Não quero fazer uma generalização, não quero dizer que todo torcedor é ruim, mas ESSE que soltou o sinalizador, é um bandido. Não sei se deve ser julgado pela lei boliviana ou brasileira, mas é um bandido e deve ser preso”.

Ajudaria o futebol, mas ficaria mal com alguns outros bandidos. Quando se fala mal de UM torcedor do Corinthians, já entra em campo a defesa da Fiel. Não se pode falar nada, não se pode criticar. O espírito de corpo passa a orientar o raciocínio. Mesmo que tenha havido um assassinato em terras bolivianas.

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