Brasil

A chuva se misturou às lágrimas no último grande ato dos heróis da Chape na Arena Condá

A chuva possui um significado especial no cinema. É um símbolo comum para se indicar o rito de passagem. Por vezes, ela alude ao corpo encharcado, pesado pelo sofrimento. Em outras, é a alma que se lava em lágrimas. E a vida real parece mesmo emprestar o caráter lúdico das telas em um dia tão emblemático quanto este sábado, em Chapecó. O temporal é a desolação de uma cidade, de um país. As gotas de um choro doloroso, derramado por familiares, amigos e tantos outros que se comoveram com o sonho interrompido da Chapecoense. Poucas vezes o luto se representou de maneira tão forte, mesmo nos cinemas. Um retrato da lamentação. Mas, ainda assim, com a triste beleza da mobilização de todos aqueles que se dedicam a prestar a última homenagem e a confortar as famílias.

VEJA TAMBÉM: A Arena Condá se transformou em templo de fé, no abraço gigante que uniu sua gente

A chuva não impediu que a população de Chapecó se mantivesse fiel aos seus heróis. Desde o início da manhã, milhares de pessoas se deslocaram à Arena Condá. Uma procissão que aos poucos encheu as arquibancadas. O estádio se tornava um templo de condolências e oração. O local foi especialmente decorado para o triste evento. Pássaros de papel se distribuíam pelo alambrado, enquanto as flores se espalharam em diferentes cantos. No gramado, além do escudo da Chapecoense, os catarinenses também se lembraram da fraternidade oferecida pelo Atlético Nacional. Além disso, muitas faixas agradeciam o apoio dado em diversas partes do mundo.

Como aconteceu ao longo da semana, a Arena Condá continuou torcendo para os seus ídolos. Os gritos de apoio à Chapecoense, em lembrança das vítimas, se repetiam a todo instante. Diferentes torcidas organizadas enviaram suas bandeiras e seus representantes a Chapecó, em uma união nunca vista no futebol brasileiro. E havia espaço para outros momentos emotivos. Mãe de Danilo, dona Ilaídes se tornou também a mãe de cada um que chora pela tragédia. Como ela mesma declarou, é o que a mantém de pé. E a senhora recebeu o abraço de milhares ao ser ovacionada, enquanto acenava no gramado.

Os presentes no estádio aguardavam a chegada dos corpos. Já nas ruas, o cortejo fúnebre era acompanhado por toda a cidade. Mesmo sob chuva, a população saiu em peso para aplaudir e dedicar o seu pensamento às 50 vítimas que seriam veladas na Arena Condá. Uma corrente de quilômetros representando a compaixão e a amizade oferecida por tanta gente. O respeito aqueles que se foram tentando levar o nome da Chapecoense ao resto do planeta. E levaram, ainda que de uma maneira dolorosa, como ninguém gostaria.

VEJA TAMBÉM: Os colombianos proporcionaram no Atanásio Girardot um dos maiores dias da história da humanidade

Um a um, sob os gritos de “o campeão voltou”, os caixões dos falecidos eram carregados com honras militares. Ganhavam as palmas dos torcedores e a água dos céus, que passou a cair de maneira ainda mais intensa. Eram recebidos em campo pelos familiares e amigos. Inclusive, pelos próprios companheiros que ficaram no Brasil e se angustiaram de longe com o desastre que aconteceu em Medellín. “Nas alegrias e nas horas mais difíceis, meu Furacão, tu és sempre um vencedor”, dizia a mensagem, na estrutura para onde os corpos eram levados. Emoção à flor da pele.

cond

A partir de então, iniciou-se uma sensível cerimônia, oferecendo palavras de conforto e de reflexão. Entre os discursos, um dos mais emocionados foi o de Ivan Tozzo, presidente em exercício da Chapecoense. O dirigente enfatizou que o “sonho não acabou”, agradecendo o apoio. Outro momento emblemático veio com o prefeito de Chapecó, Luciano Buligon. Presente em Medellín durante toda a semana, auxiliando no trabalho de reconhecimento dos corpos e de atendimento aos familiares, ele vestia uma camisa do Atlético Nacional. “A Chapecoense veio com um sonho, voltou como uma lenda. Lendas não morrem, deixam para nós heranças”, declarou, enfatizando os laços criados com o povo colombiano.

Além disso, o evento contou com diversos atos de profundo simbolismo. O indiozinho, mascote da Chape, entrou em campo com balões verdes, enquanto balões brancos ganhavam os ares a cada nome citado. Funcionários do clube carregaram camisas de cada uma das vítimas, entregando aos parentes com flores e bandeiras. Embaixador da Colômbia, Alejandro Borda recebeu uma placa em agradecimento aos colombianos e ao Atlético Nacional, que será dada ao técnico Reinaldo Rueda – um dos nomes mais aplaudidos pelos presentes, por sua postura exemplar no Atanásio Girardot. Já um dos instantes mais marcantes veio com o apresentador Cid Moreira, recitando mensagens bíblicas no gramado.

VEJA TAMBÉM: Na tragédia, o futebol mostra a sua melhor cara: a união, a solidariedade e o amor

Ainda assim, nada superou o momento final. As famílias de cada uma das vítimas deram uma volta olímpica, carregando fotografias de seus entes queridos. Receberam aplausos intensos das arquibancadas, que continuavam cantando o nome da Chape. Entre os mais ovacionados, os parentes do goleiro Danilo levaram sua foto para um dos gols da Arena Condá, entre lágrimas e palmas.

Ao final da cerimônia, os corpos que serão velados em outras cidades (incluindo os de todos os jogadores) começaram a deixar a Arena Condá. O último ato de grandeza dos heróis que fizeram história no estádio. Embora as lágrimas prevaleçam neste momento, resta a certeza do empenho de cada um deles em busca do sonho, assim como o orgulho por todas as alegrias que puderam proporcionar à torcida da Chapecoense. Eles partem, ainda, ensinando diversas lições. E não só ao futebol, mas ao dia a dia de cada um de nós. Apesar da dor, a mensagem definitiva é muito mais forte.

 

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.
Botão Voltar ao topo