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Como ruiu o império que já produziu 85% das bolas do mundo

São poucos aqueles que não percebem que o futebol é bem mais que um jogo. A disputa em campo é a parte mais evidente de um esporte que também envolve economia, sociologia, política e diversos outros aspectos da sociedade. Uma história representativa sobre esse assunto vem da cidade de Sialkot, no Paquistão, maior produtora manual de bolas de futebol do mundo e que hoje vive grave crise de desemprego – de certa forma, causada pela Fifa.

Uma das cidades paquistanesas mais populosas, com 1,6 milhão de habitantes, Sialkot tem seus primeiros registros datados do Século IV A.C. e uma história moderna diretamente relacionada com o futebol. A lenda conta que a confecção de bolas começou há 90 anos, depois que um local consertou a bola de oficiais britânicos. Seu nome era Syed Sahib, personagem que hoje dá nome a uma das ruas da cidade.

Em 1994, a cidade foi escolhida para produzir as bolas oficiais para a Copa do Mundo e, pouco depois, marcas como Adidas e Puma passaram a se associar com manufaturas da região. Há dez anos, Sialkot chegou a produzir 85% das bolas de futebol do mundo e a empregar 100 mil pessoas em suas fábricas. Porém, o declínio da indústria é notável. Nos últimos cinco anos, a quantidade de bolas produzidas caiu de 40 milhões em um ano para 22 milhões, enquanto o total de trabalhadores despencou em 90%, para apenas 10 mil funcionários.

A explicação? Segundo a revista World Soccer, está em 2006, quando a Fifa introduziu especificações precisas para uniformizar as bolas. As últimas regras permitem um desvio de 1,3% na esfera. Algo que prejudica a produção manual do Paquistão e impulsiona as máquinas desenvolvidas na China e na Tailândia. Um bom operário paquistanês fabrica seis bolas em um dia de jornada, recebendo cerca de 70 centavos de dólar por cada. Já as máquinas chinesas e tailandesas produzem 50 bolas, de qualidade inferior, mas a quatro centavos de dólar. Para salvar o Paquistão, ao menos, as bolas de jogo de muitas competições oficiais continuam vindo do país, incluindo as da Premier League.

Embora o salário médio do proletário de Sialkot seja o dobro do valor médio dos paquistaneses, as condições nem sempre são ideais. Há um acordo para erradicar o trabalho infantil desde 1997, mas nem sempre ele é cumprido. E a crise só tende a piorar isso. Um paraíso industrial construído pelo futebol, mas que sequer deixa como legado um time na primeira divisão do Campeonato Paquistanês. Se o ódio à Fifa se tornar comum na região, mesmo que o futebol não seja a maior paixão, não será sem razão.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

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