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Brasileiros ajudam o futebol do Timor Leste

Um país devastado, com muitos problemas de infraestrutura, em razão do difícil processo de independência, em 1975, e também depois dele. Timor Leste foi colônia portuguesa desde o século XVI, mas, no ano supracitado, conseguiu a independência, de forma unilateral. O movimento orquestrado por Francisco Xavier do Amaral, o primeiro presidente do jovem país, não foi reconhecido por Indonésia, Portugal e Austrália, este último atuante como observador.

Por outro lado, seis nações aceitaram a soberania de Timor Leste (Albânia, Cabo Verde, Guiné, Guiné Bissau, Moçambique e São Tomé & Príncipe), notadamente a maioria ex-colônias lusitanas. Tudo se encaminhava bem, mas, em dezembro de 1975, a Indonésia – que divide ilha com Timor Leste, ficando com a porção oeste – iniciou a invasão do território timorense, anexando-o ao país.

Com 35 mil soldados no vizinho e amplo domínio via terra e mar, os indonésios – com o apoio dos Estados Unidos, apenas na retórica – ocupou Timor Leste, rico em óleo e gás, contra a vontade dos nativos, que queriam preservar a identidade nacional. Uma guerrilha timorense foi formada e durante 24 anos disputou território com os indonésios, que acabaram cedendo à pressão internacional apenas em 27 de setembro de 2002, data da entrada de Timor Leste nos quadros da ONU – estima-se que entre 60 mil e 200 mil pessoas morreram nos confrontos de duas décadas.

Timor Leste fica na porção leste da ilha de Timor, que divide com a Indonésia, no leste asiático
Timor Leste fica na porção leste da ilha de Timor, que divide com a Indonésia, no leste asiático
Seleção nacional

Com cerca de um milhão de habitantes (dados de 2010), o futebol de Timor Leste, cuja população fala português e tetum (idioma local), começou a ser jogado oficialmente após a independência. A primeira partida consta de 21 de março de 2003, derrota de 3 a 2 para Sri Lanka, naquele país.

O primeiro ponto só aconteceria cinco anos depois, em 19 de outubro de 2008, num 2 a 2 com Camboja, em jogo válido pelas eliminatórias da AFF Suzuki Cup 2008. A vitória inaugural, pasme-se, ocorreu há pouco tempo, em 5 de outubro de 2012, uma goleada de 5 a 1 sobre a mesma seleção cambojana, pelo qualificatório da AFF Suzuki Cup 2012.

O primeiro torneio que a nova seleção asiática disputou foi a AFF Suzuki Cup 2004, quando perdeu as quatro partidas pelo Grupo B, terminando na lanterna, com apenas dois gols marcados e 18 sofridos – fizeram parte da chave Myanmar  Malásia, Tailândia e Filipinas e a maior goleada sofrida foi 8 a 0 para os tailandeses.

Com elenco formado por atletas locais e reforçado com o zagueiro português Alfredo Esteves, que defendia o modesto Oliveira do Bairro (Portugal), hoje na quarta divisão nacional – o atleta ainda veste a camisa da seleção timorense, aos 36 anos –, Timor Leste demorou a conseguir bons resultados. Nos Jogos da Lusofonia de 2006, o time perdeu os dois confrontos da primeira fase, contra Moçambique e Angola, ambos por 5 a 0, o que não deixou de ser um aprendizado internacional diante de adversários mais gabaritados.

Pode parecer improvável, mas já em 2007, apenas quatro anos depois do primeiro jogo oficial, a seleção asiática participou das eliminatórias para a Copa do Mundo 2010. Em 21 de outubro, 1.500 torcedores estiveram presentes no estádio Kapten I Wayan Dipta (25 mil pessoas), em Gianyar, na Indonésia, para acompanhar a partida diante de Hong Kong. O adversário venceu, mas o placar de 3 a 2 até animou os nativos. Bem pior foi o desempenho na casa do oponente, goleada de 8 a 1 e eliminação na fase preliminar.

Quatro anos depois, no qualificatório para o Mundial do Brasil 2014, Timor Leste novamente mostrou força ao perder de apenas 2 a 1 para o Nepal, fora de casa. No jogo da volta, mais uma vez em solo nepalês – a Fifa não permitiu que o jogo fosse em Timor Leste, por falta de infraestrutura –, os adversários golearam por 5 a 0 e seguiram em frente.

A melhor campanha no torneio do leste asiático (AFF Suzuki Cup) aconteceu no qualificatório para 2012. Timor Leste não conseguiu se classificar para a fase final, mas somou seis pontos em quatro rodadas, ficando com a terceira posição, atrás de Mianmar (dono da casa) e Laos, que somou sete, os dois que seguiram para o campeonato em si – além da goleada sobre Camboja, a primeira da história, os timorenses venceram Laos por 3 a 1.

Sangue tupiniquim

Mas qual o motivo da evolução de Timor Leste no futebol internacional, com duas participações consecutivas em eliminatórias e derrotas por apenas um gol de diferença? É simples: a ajuda dos brasileiros. O pioneiro a desembarcar na ex-colônia portuguesa foi o técnico Antônio Carlos Vieira, em 2010, que além de trazer jovens atletas brasileiros, que chegaram a fazer parte da seleção sub-23 de Timor Leste, ajudou a desenvolver o futebol.

Vieira tinha a experiência de ter comandado a seleção de Belize (2006-07), além de Paraná (2001 e 2004) e Floriana (Malta), seus mais importantes trabalhos. Junto com ele, vieram seis jogadores desconhecidos, com destaques para o zagueiro Diogo Rangel (ex- Palmeiras B e Vasco, hoje atua no Sriwijaya/Indonésia), o lateral esquerdo Rocha, que chegou a atuar nas bases de São Paulo e Fiorentina (Itália), e o atacante Murilo de Almeida, revelado no Bahia e hoje no Busaiteen Club (Bahrein).

Em 2012, Antônio Carlos Vieira deixou o projeto de Timor Leste seduzido por uma vaga no Phoenix Monsoon (Estados Unidos), da quarta divisão, mas o trabalho na seleção asiática continuou com os tupiniquins: Emerson Alcântara, de 42 anos, zagueiro que teve de encerrar a carreira profissional aos 26 anos por causa de acidente automobilístico – jogava no Belenenses (Portugal) –, aceitou o desafio de tornar o futebol timorense uma potência no leste da Ásia.

Com experiência em vários times pequenos do interior paulista, além do Bucheon (Coreia do Sul) e do North East Stars (Trinidad & Tobago), Alcântara passou a comandar oito jogadores de Timor Leste, seis do Brasil, dois da Austrália, um de Portugal e um da Indonésia. Obviamente, há muito a ser feito no futebol nacional, que ainda atravessa graves problemas de infraestrutura. Vieira, por exemplo, disse que Timor Leste será uma potência da região em 2020…

Emerson Alcântara mostra as belezas naturais de Timor Leste

Curtas

– Timor Leste tem 27 jogos oficiais na história, com duas vitórias, um empate e 24 derrotas. A equipe marcou 30 gols, levando 96. Os timorenses enfrentaram os rivais indonésios em duas oportunidades, ambas em amistosos. Em 2010, 6 a 0 para o adversário, que voltou a vencer em 2012, por 1 a 0, o último jogo do país – a partida não foi reconhecida pela Fifa.

– Emerson Alcântara encarou as duas primeiras vitórias na história, durante as eliminatórias para a AFF Suzuki Cup 2012, como um marco para a população: “Creio que cerca de 70% dos timorenses é pobre. Então, essas vitórias são importantes para o povo, que adora futebol e pode ganhar confiança e ter orgulho dos resultados. É muito importante para nós motivar nosso povo e ajudá-lo a mudar de vida”, disse à imprensa nacional.

– A evolução de Timor Leste pode ser percebida também no Ranking da Fifa. A pior posição na história foi em outubro de 2012, o 206º lugar. O melhor resultado ocorreu em dezembro de 2012 e em janeiro de 2013, a 182ª posição. Atualmente (março de 2013), Timor Leste ocupa a 186ª colocação, atrás de Suazilândia, Camboja e Guiné Bissau, mas à frente de Madagascar, Tonga e Andorra.

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