Ásia/OceaniaEliminatórias da Copa

Afeganistão renasce para o futebol e já consegue sonhar

O futebol afegão sempre teve história conturbada. A federação local foi fundada em 1922, mas a primeira partida oficial data de 25 de agosto de 1941, empate sem gols com o Irã, em Cabul, capital do país. Apenas sete anos mais tarde, a seleção afegã participou das Olimpíadas de Londres 1948, caindo na fase preliminar, ao ser derrotada por Luxemburgo (6 a 0) – foi a única participação do futebol nacional no torneio.

O país tentava evoluir na prática futebolística, mas a falta de profissionalização e de amistosos impediram o saudável crescimento. Entre a estreia internacional e 13 de dezembro de 1959, o Afeganistão entrou em campo apenas oito vezes, ou seja, menos de um teste por ano.

Depois de ficarem sem jogar entre 1959 e 1975, os afegãos voltaram à ativa a fim de tentarem a classificação para a Copa da Ásia 1976. Ficou longe de dar certo… Em seis jogos, a equipe teve de comemorar o ponto conquistado diante do Catar, terminando na lanterna da chave, com três gols marcados e 18 sofridos – Iraque e Arábia Saudita completaram o grupo.

A situação em nada melhorou oito anos depois, no qualificatório para o mesmo torneio. No Grupo 4, ao lado de China, Catar, Jordânia e Hong Kong, os afegãos repetiram o único ponto, mas em quatro jogos, empate sem gols diante dos honcongueses – um gol marcado e 20 sofridos.

Interrupção

Até esta época, era considerado normal os resultados não acontecerem, já que o time pouco jogava. Desde a estreia, a título de ilustração, o Afeganistão não vencera nenhum dos 22 jogos, empatando apenas quatro vezes – o time marcou 16 gols, o primeiro em 2 de maio de 1954, na goleada de 8 a 2 a favor da Coreia do Sul, levando 65.

Seria natural a evolução do país ao longo dos anos, conquanto que os jogadores pudessem entrar em campo em partidas internacionais, aprender com os erros, ganhar experiência. Entretanto, entre 1984-02, a seleção nacional foi extinta, num período bastante difícil para a população  afegã…

A primeira guerra que assolou o país durou nove anos (1979-89). Evento da Guerra Fria, o Afeganistão se viu em disputa entre duas forças antagônicas: a União Soviética, que influenciava os afegãos, contou com 170 mil homens na luta armada contra os Mujahideen, grupo insurgente que contava com apoio financeiro e treinamento militar de China, Paquistão, Estados Unidos, Reino Unido e Arábia Saudita, entre outras nações. Aproximadamente 100 mil pessoas morreram e muitos fugiram para os vizinhos Paquistão e Irã.

Com a saída da União Soviética do Afeganistão em 1989, esperava-se que os grupos étnicos do país se entendessem em prol da formação de uma nação única, mas os ânimos se exaltaram de tal forma que o país se viu mergulhado numa Guerra Civil, que durou quatro anos (1992-96). O grande vencedor das disputas foi justamente o Talibã, que nos anos 2000 controlava pelo menos 90% do território nacional.

O governo do grupo armado de viés autoritário só foi reconhecido por três países (Paquistão, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos), o que resultou na invasão do Afeganistão pelos Estados Unidos, em 2001, e nova guerra – o país continua em plena guerra civil, inclusive com a possibilidade de o Talibã retomar o poder. Mesmo diante de cenário tão avassalador, a seleção nacional voltou aos gramados a partir de 2003.

Crescimento

A primeira partida oficial do país pós-paralisação ocorreu em 1º de outubro de 2003, derrota de 1 a 0 para Sri Lanka, pelas eliminatórias do Campeonato Sul Asiático – os afegãos perderam também para Índia (4 a 0) e Paquistão (1 a 0). No ano seguinte, lá estava o Afeganistão novamente dentro das quatro linhas, pelas eliminatórias para  a Copa da Ásia, sem sucesso – ficou na lanterna do grupo, atrás de Nepal e Quirguistão.

Os resultados positivos ainda não aconteciam, mas pelo menos a seleção nacional tinha sequência de jogos. Em 19 de novembro de 2003, os afegãos fizeram a estreia nas eliminatórias para a Copa do Mundo 2006, sendo humilhados pelo fraco Turcomenistão, que impôs 11 a 0 (em casa) e 2 a 0 (fora).

Desde então, a equipe ficou pouco tempo sem jogar nenhuma partida e de certa forma mostrou evolução. Nas eliminatórias para a África do Sul 2010, derrotas de 3 a 0 e 2 a 1 para a Síria, enquanto o qualificatório de 2014 apresentou o primeiro empate, 1 a 1 com a Palestina, que vencera o primeiro jogo por 2 a 0, seguindo em frente.

Os primeiros bons resultados começaram a aparecer em 2011, durante o Campeonato Sul Asiático. Na primeira fase, o time ficou na liderança do Grupo A, melhor que Índia, Sri Lanka e Butão. Vitória diante do Nepal, nas semifinais, levou os afegãos à primeira disputa de título.  Acabaram eles perdendo para a Índia, por 4 a 0, mas o vice-campeonato da competição foi um bom sinal de que alguma qualidade a seleção afegã mostrara.

Recentemente, o Afeganistão superou Laos, Sri Lanka e Mongólia e alcançou classificação para a AFC Challenge Cup, torneio que reúne as nações asiáticas do terceiro escalão – será a terceira participação da equipe, que jogou as edições de 2006 e 2008, sem vitórias. O melhor desempenho do Afeganistão na história dá esperança de que o futebol nacional possa continuar crescendo, para quem sabe sonhar com mais participações em torneios regionais e internacionais.

Curtas

– Interessante o fato de que a maioria dos atuais jogadores da seleção afegã serem oriundos do Afeganistão, apesar de terem iniciado carreira no exterior, ainda jovens. Apenas um atleta dentre os analisados, Mohammad Mashriqi, é natural dos Estados Unidos.

– O atacante Israfeel Kohistani tem 25 anos e começou no futebol local, mas hoje veste a camisa do Vejle (Dinamarca), da segunda divisão. Ele tem 31 convocações, ao lado do zagueiro Zohib Islam, 25, que atua no futebol indiano.

– O grande craque do atual time é o atacante Balal Arezou, 24. Refugiado na Noruega, o atleta começou lá a carreira e fez sucesso no Asker, da segunda divisão, conseguindo contrato no Churchill Brothers (Índia). Ele é um dos dois autores de gols nas eliminatórias, além da vice-artilharia do Campeonato Sul Asiático, com seis gols, um a menos que o indiano Sunil Chhetri.

– Em 2012, o futebol do Afeganistão adentrou no profissionalismo. O país lançou a primeira liga nacional, com oito clubes, jogadores de todo o território escolhidos por meio de um reality show, além de transmissão das partidas e prêmio de U$S 15 mil para o Toofaan Harirod, o primeiro vencedor. É provável que no médio prazo o país possa enviar um time para a AFC Presidents Cup, espécie de terceira divisão asiática em termos de clubes.

– Na história, a seleção afegã comemorou 11 vitórias, 11 empates e sofreu 42 derrotas, com 59 gols marcados e 139 sofridos. O recente bom momento do país resultou num recorde no Ranking da Fifa. O Afeganistão é o atual 141º colocado, seu melhor desempenho na história, subida de 48 posições. A pior colocação foi o 204º lugar, em janeiro de 2003.

Mostrar mais

Artigos relacionados

Botão Voltar ao topo