América do Sul

De entrada pela churrasqueira a rio onde caem bolas: te levamos para conhecer 10 estádios raiz do Uruguai

No Uruguai, dizem que "o futebol local é um milagre", e visitar esses 10 estádios em Montevidéu dão a noção completa do porquê de os uruguaios pensarem assim

Escolha um passeio por Montevidéu e lide com a inevitável – e maravilhosa – realidade de que você irá esbarrar em um estádio de futebol. As arquibancadas se erguem de todos os lados, cada uma com suas respectivas cores e bandeiras. Umas de madeiras, outras de concreto. Mas todas elas acanhadas, desgastadas pelo passar dos dias.

É como se Montevidéu, com seus 1,3 milhão de habitantes, fosse um museu a céu aberto do esporte mais popular do mundo. A capital uruguaia, muito provavelmente, é a grande cidade com mais clubes profissionais per capita no planeta.

Os estádios dão cor às ruas de Montevidéu. E eles servem tanto de registro histórico quanto de retrato fiel da atualidade de um futebol que parece ter parado no tempo, à exceção de seus dois gigantes. O Peñarol inaugurou em 2016 o Estádio Campeón del Siglo. O Nacional acaba de reformar o lendário Gran Parque Central, palco do primeiro jogo de Copa do Mundo de todos os tempos, em 1930.

Mas nas diversas arquibancadas das muitas equipes que habitam a capital uruguaia, a sensação é a mesma. O charme e a ruína do futebol de clubes do Uruguai estão interligados a esses estádios que pararam no tempo.

A reportagem da Trivela se propôs a percorrer Montevidéu para conhecer alguns dos palcos que abrigam a história do futebol celeste. Um roteiro por seus estádios que vai dos mais acanhados até o imponente Centenário. Se você quiser entender por que 3,5 milhões de uruguaios dizem que El fútbol uruguayo és un milagro, este passeio é uma boa pedida.

Estádio Olímpico – Rampla Juniors

A casa do Rampla Juniors se ergue quase que sobre o rio (Foto: Eduardo Deconto)

É preciso deixar a região central de Montevidéu e serpentear pelas ruelas do bairro de Cerro para chegar ao estádio com a arquitetura mais inusitada da cidade. Um retrato de como se formou e do que é o futebol charrua. A vista do portão de entrada já faz valer a viagem. Ainda da rua, é possível avistar todo o visual que faz do Estádio Olímpico único. É a “cara” do Campeonato Uruguaio.

O gramado fica à beira do Rio da Prata, na região portuária. À beira, mesmo. Uma das “tribunas” na lateral é apenas a água. Atrás de um dos gols, está um navio ancorado. O estádio fica pela metade mesmo. E quando a bola vai para a Baía de Montevidéu, o jeito é buscá-la a nado. Nas arquibancadas, a vegetação nasce pelas rachaduras do concreto liso. E até mesmo o setor de cadeiras é de cimento, nas cores do clube. De tudo isso, o destaque é para o mascote “Pulgoso”, cachorro que decora o muro de proteção.

  • Inauguração: 30/12/1923
  • Capacidade máxima: 9.500 pessoas

Estádio Luis Trócolli – Cerro

Estádio Trócolli, casa do Cerro-URU (Eduardo Deconto)

Do Rampla, para o rival do bairro, o Cerro. Esta é uma das rivalidades mais quentes de Montevidéu. Mas a recepção à nossa visita foi a mais calorosa de todas. Daniel, um dos guardiões do estádio, abriu as portas para conhecer cada corredor do Luis Trócolli. O acesso às arquibancadas, aliás, foi dos mais inusitados. O primeiro portão deu acesso à parrilla — a famosa churrasqueira — do estádio. De lá, uma porta escondida levou ao banheiro masculino, e só depois às tribunas.

Mas antes da visita, vale muito falar do lado de fora. Um vasto mural com mosaico e algumas esculturas decora a fachada. Por dentro, o estádio é dos típicos palcos uruguaios. O gramado mal pode ser chamado de tal, de tantos buracos e terra à vista. As arquibancadas em azul e branco são toda de concreto, até mesmo os assentos. Um fosso, um alambrado e uma pista de atletismo – a única em um estádio de Montevidéu, segundo nosso anfitrião – separam torcida do campo.

  • Inauguração: 1964
  • Capacidade máxima: 25.000 pessoas

Estádio Belvedere – Liverpool

Belvedere é o berço da Celeste do Uruguai (Eduardo Deconto)

O portão de ferro entreaberto era um convite para entrar no berço daquele que é o principal símbolo do futebol uruguaio: a sua camisa Celeste. Foi no Belvedere em 15 de agosto de 1910 que o Uruguai vestiu pela primeira vez o uniforme tão histórico. O Liverpool faz questão de ostentar orgulhoso o feito, com o letreiro “Aqui Nació el Fútbol Uruguayo”.

O bem conservado Belvedere tem os bancos de sua arquibancada pintados em azul e preto. O gramado mais parecia um tapete moderno, enquanto o alambrado com arames farpados era um bom lembrete de onde estávamos botando os pés. O destaque fica para a parrilla que fica ao lado da entrada do estádio e para uma casa que divide terreno com o acesso às arquibancadas, sem muita privacidade.

  • Inauguração: 04/07/1909
  • Capacidade máxima: aprox. 8.500 pessoas

Estádio Parque Viera – Montevideo Wanderers

No Estádio do Montevideo Wanderers, não deu para entrar, mas a foto saiu (Eduardo Deconto)

O belíssimo Parque Prado, em Montevidéu, abriga três estádios por seus 102 hectares de área verde em um dos bairros mais charmosos da capital uruguaia. Um cenário inspirador… Para dar de cara com a porta do Parque Viera, casa do Montevideo Wanderers. Em uma segunda-feira (15) de feriado no Uruguai, o funcionário sequer abriu o portão para a reportagem. Apenas disse que “iria ver com os superiores” e não mais retornou.

Mesmo assim, foi possível ver de relance, por cima do muro, um estádio que parece fazer jus a sua vizinhança, com seus não menos charmosos bancos de madeira pintados em branco e preto. As instalações no entorno para receber os jogadores parecem modernas, com lanchonetes e quiosques que operam em dias de jogo.

  • Inauguração: 15/10/1933
  • Capacidade máxima: 10.000 pessoas

Estádio Saroldi – River Plate

 

Por entre as árvores, o estádio do River Plate (URU(

A alguns poucos metros do Parque Viera, está o Estádio Saroldi, casa do River Plate. A entrada é pela Avenida 19 de abril, que de tão arborizada, é praticamente coberta por um túnel de imponentes árvores. Um belo cenário, mas novamente deparamos com o portão fechado.Dessa vez, porém, era impossível que o único funcionário presente pudesse abrir portas para a visita. Ele estava a metros de distância, sob o barulho ensurdecedor de um cortador de grama.

Ainda assim, foi avistar da rua as arquibancadas vermelho e brancas do estádio. Com destaque para a tribuna atrás de um dos gols, erguida sob as árvores e aproveitando o declive de um barranco. A agenda da seleção brasileira em Montevidéu impediu uma visita ao Parque Nasazzi, casa do Bella Vista, também em Prado.

  • Inauguração: 1926
  • Capacidade Máxima: 5.165 pessoas

Estádio Gran Parque Central – Nacional

Foi possível ver apenas o lado de fora do Gran Parque Central (Eduardo Deconto)

O Parque Central dispensa apresentações. É “apenas” o estádio mais antigo da América do Sul, inaugurado em 1900, e palco do primeiro jogo de Copas do Mundo da história. A casa histórica do Nacional sobreviveu a incêndios e acaba de passar por uma reforma. Teve capacidade ampliada par 32 mil pessoas e ganhou modernos camarotes.

O repórter que vos escreve já trabalhou em um jogo no Parque Central em 2019. Desta vez, porém, a visita sem aviso prévio se resumiu a um grosseiro “não” de um dos seguranças do estádio. Apesar de histórico, não há tour, ou qualquer possibilidade de visita para os turistas.

  • Inauguração: 25/05/1900
  • Capacidade Máxima: 32.000 pessoas

Estádio Campeón del Siglo – Peñarol

O Estádio Campeón del Siglo durante o treino da Seleção (Eduardo Deconto)

 

O Peñarol escondeu a Rota 102, a bons 40 minutos do centro de Montevidéu, para erguer o seu Campeón del Siglo, com capacidade para 40.700 pessoas. O caçula da cidade é um bom exemplo do que é investir para modernizar e dar conforto aos torcedores sem perder a essência. O estádio tem uma fachada com visual inovador e instalações internas adequadas às exigências da Fifa. O gramado é impecável. E não à a seleção brasileira fez seus treinos no Uruguai por ali.

Mas o que chama atenção é que as arquibancadas mantêm um estilo mais clássico e diferente das novas arenas. A maioria dos setores é para torcer em pé, sem a presença de cadeiras, relegadas apenas às tribunas perto dos camarotes. Além disso, são intimidadores arames farpados que separam torcedores locais de visitantes.

  • Inauguração: 28/03/2016
  • Capacidade Máxima: 40.700

Estádio Luis Franzini – Defensor

O roxo dá a cor ao Estádio Luiz Franzini, do Defensor (Eduardo Deconto)

Deu tempo apenas de entrar para tirar uma foto sorrateira antes do treino iniciar no Estádio Luis Franzini, e o segurança pedir gentilmente que saísse das arquibancadas. Os tons em roxo chamam atenção no estádio e do clube que revelou De Arrascaeta. Mas é o seu entorno que mais salta aos olhos. Bem ao lado, há um parque de diversões, e era possível ouvir os gritos dos uruguaios que lá utilizavam os vertiginosos brinquedos. E não muito longe, estão as ramblas, a beira da praia, de Montevidéu.

  • Inauguração: 1963
  • Capacidade Máxima: 16.000 pessoas

Estádio Parque Palermo – Central Española

Estádio Parque Palermo fica a alguns passos do Centenário (Eduardo Deconto)

O Parque Palermo se ergue à sombra do imponente Estádio Centenário. E ele ainda é ligado ao Luis Méndez Piana, estádio do Miramar Misiones. Tudo isso, num espaço de pouco mais de 300 metros no Parque Battle. A grama artificial destoa dos demais gramados castigados espalhados pela cidade.

Mas o restante da estrutura é tão antiga quanto. E as cadeiras com a tinta descascada não deixa de ter um certo charme, ao menos para as fotografias.

  • Inauguração: 31/10/1937
  • Capacidade Máxima: 6.5000 pessoas

Estádio Centenário

Estádio Centenário resiste como templo do futebol (Eduardo Deconto)

O tour acaba no estádio mais histórico do continente, palco da primeira final de Copa do Mundo. Pisar no Centenário é botar pés na história, especialmente na tribuna América, onde os concreto que dá forma aos assentos testemunhou o primeiro título mundial do Uruguai, em 1930. O maior palco do futebol uruguaio conserva sua arquitetura intacta, com degraus em azul celeste que se espalham pelas arquibancadas.

O Centenário de 2023 foi modernizado, com boa estrutura para receber a imprensa – ainda que o vento frio cortante seja sempre um desafio. Mas o estádio assim do jeito que conhecemos está com dias contados. Em breve, ele passará por uma reforma para receber o jogo de abertura da Copa do Mundo de 2030.

  • Inauguração: 18/07/1930
  • Capacidade Máxima: 60.000 pessoas
Foto de Eduardo Deconto

Eduardo Deconto

Jornalista pela PUCRS, é setorista de Seleção e do São Paulo na Trivela desde 2023. Antes disso, trabalhou por uma década no Grupo RBS. Foi repórter do ge.globo por seis anos e do Esporte da RBS TV, por dois. Não acredite no hype.
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