Sul-Americana

Santos, Thiago Heleno, Nikão: a tríade que sustenta as ambições do Furacão e se engrandece ainda mais na Sul-Americana

Remanescentes do título de 2018, os três protagonistas foram preponderantes na caminhada até a nova decisão

A conquista da Copa Sul-Americana ainda está fresca na memória do torcedor do Athletico Paranaense. Há apenas três anos, o Furacão buscava o troféu nos pênaltis contra o Junior de Barranquilla e celebrava o primeiro título internacional de sua história. Ainda que as lembranças permaneçam recentes, restam poucos remanescentes daquela equipe treinada por Tiago Nunes. Três lideranças rubro-negras, entretanto, seguem intactas no grupo que disputará mais uma final continental. E se, olhando no papel, o time athleticano atual parece inferior ao antigo campeão, a preponderância do trio de ícones pode se dizer maior. Santos fechou o gol nesta Sul-Americana, Thiago Heleno manteve a segurança na zaga e Nikão resolveu no ataque.

Mesmo em 2019, quando o Athletico Paranaense chegou à decisão da Copa do Brasil e venceu o Internacional, o time utilizado por Tiago Nunes já era ligeiramente diferente. E a transformação se tornou contínua com a sequência de sucessos. Renan Lodi, Robson Bambu e Bruno Guimarães fizeram as malas para a Europa, Marcelo Cirino aceitou uma proposta da China. Raphael Veiga retornou ao Palmeiras, outros clubes brasileiros pagaram alto por Rony, Pablo e Léo Pereira. Até mesmo medalhões seguiram por outros caminhos, com a aposentadoria de Lucho González e a opção de não renovar com Jonathan.

Quem seguiu como esteio do Furacão foi o trio composto por Santos, Thiago Heleno e Nikão. Um mais tarimbado, outros dois no auge da forma, todos apostando em sua relação com o clube e com a torcida. Se a meta do zagueiro foi mesmo consolidar seu nome como uma figura histórica na Baixada, os outros dois tinham horizontes mais abertos. Com todos os méritos, o goleiro virou um nome frequente nas convocações da Seleção e fez a diferença na conquista do ouro olímpico em Tóquio. Já o ponta recebeu propostas, mas antes disso optou por finalizar seu legado no clube que respaldou seu crescimento e permitiu a transformação de sua carreira, de uma promessa frustrada a um enorme ídolo.

E esse ano de 2021 serve exatamente para que Santos, Thiago Heleno e Nikão subam alguns degraus na lista de maiores figuras da história do Athletico Paranaense. Ainda não se sabe se o clube conseguirá, de fato, repetir os títulos comemorados em 2018 e 2019. Ainda assim, o feito de chegar às finais da Copa do Brasil e da Copa Sul-Americana na mesma temporada, independentemente de passar por reformulações e por mudanças de técnicos, ressalta a força atual dos rubro-negros. E uma força bem mais centrada nos protagonistas que compõem essa espinha dorsal do Furacão.

Santos, do Athletico (Foto: CAP)

Se na fase de grupos da Copa Sul-Americana o Athletico Paranaense escapou de adversários tão tradicionais e sobrou na sua chave, os mata-matas ofereceram três camisas pesadíssimas. Três dos maiores clubes de seus países. Nas oitavas de final, o Furacão não tomou conhecimento do América de Cali. Venceu no Pascual Guerrero e goleou na Baixada. Santos era ausência por causa das Olimpíadas. Em compensação, Thiago Heleno foi uma rocha no jogo da Colômbia, onde Nikão marcou o gol de pênalti para o triunfo por 1 a 0. No vareio de Curitiba, mais um show do camisa 11, muito participativo na construção athleticana, com seu gol e também duas assistências para conduzir a goleada.

O nível de desafio aumentou nas quartas de final, contra uma LDU Quito dura não apenas por causa da altitude. O Furacão perdeu na visita ao Estádio Casa Blanca por 1 a 0, mas se classificou com uma emocionante virada por 4 a 2 na Baixada. Santos reapareceu no gol naquele compromisso no Paraná, Thiago Heleno teria uma atuação acima da crítica apesar dos gols tomados e Nikão se responsabilizou pela construção, mais ativo no início das jogadas decisivas. Seria, contudo, uma noite reservada ao estrelato de Bissoli e principalmente Christian – mostrando também a capacidade de outros se sobressaírem.

Já nas duas vitórias sobre o Peñarol, o conjunto do Athletico também pesou bastante. David Terans causou pesadelos contra o ex-clube, inclusive anotando seu golaço. Pedro Rocha saiu muito bem do banco e selou o triunfo em Montevidéu. Mas não se conta a história das semifinais sem passar pelos velhos líderes. Foram noites que serviram para os torcedores rubro-negros terem certeza da dimensão que os três ídolos representarão para a história do clube.

Em Montevidéu, o trio se conteve um pouco mais. Santos realizou uma série de boas defesas nos momentos de pressão, Thiago Heleno manteve a segurança no coração da área e Nikão ajudou a criar o primeiro gol, com a assistência para a pintura de Terans. Já em Curitiba, noites inesquecíveis. Santos pegaria um pênalti num momento crucial do jogo, que impediu a reação do Peñarol. Thiago Heleno travou o ataque carbonero e teria uma exibição excepcional inclusive na saída de bola. E o prêmio de melhor em campo coube a Nikão, sem temer o peso da responsabilidade – com gol, assistência e a maior fonte de inspiração dos rubro-negros. A capacidade competitiva do Furacão passa por eles.

Thiago Heleno, do Athletico (Foto: CAP)

Se a final da Sul-Americana tinha ficado distante no calendário, com um intervalo de um mês e meio até a o duelo com o Red Bull Bragantino, a Copa do Brasil mostrou como o Athletico permaneceu afiado. A vitória sobre o Flamengo na semifinal do Maracanã entra para o rol de maiores atuações do Furacão em todos os tempos. E a imposição só se tornou possível pela noite intransponível de Santos, testado repetidas vezes, mas que não dava o mínimo sinal de que alguém conseguiria vazá-lo. Pela solidez de Thiago Heleno, numa noite em que o espírito de luta dos athleticanos fez toda a diferença para o resultado. Pelo brilhantismo de Nikão, o nome do jogo pelos lances em que puxou o ataque paranaense, bem como pela própria forma como auxilia na organização do time e na maneira de moldar o jogo.

Dimensionar a real posição de Nikão, Santos e Thiago Heleno na história do Athletico Paranaense é um pouco difícil neste momento de obra inacabada. O passado riquíssimo do Furacão reúne uma porção de nomes lendários – Caju, Djalma Santos, Bellini, Sicupira, Nilson Borges, Washington, Assis, Paulo Rink, Oséas, Alex Mineiro, Kléber Pereira, Washington Coração Valente. Nem todos eles precisaram necessariamente de títulos nacionais ou internacionais para se tornarem eternos no coração da torcida rubro-negra. Mas não se nega que o elevado grau de reconhecimento dos feitos recentes pesam bastante nessa conta. A era de maior projeção dos athleticanos além das fronteiras passa por essa tríade atual.

Nikão, aliás, deve viver uma situação especial. Com contrato até 31 de dezembro, o atacante indica que a final no Centenário deve ser um de seus últimos compromissos nesta passagem pelo Furacão. Terá uma motivação extra. “Eu penso diariamente nesse jogo. Não só me emociona, mas também meus filhos, minha esposa, é algo que diariamente tenho falado, conversado com pessoas próximas, porque realmente mexe comigo, com meus sentimentos. São sete anos construindo uma história aqui dentro, e o que eu puder fazer para dar esse título para essa instituição, para essa torcida, pode ter certeza que vou fazer”, afirmou o camisa 11, em entrevista à Conmebol.

Nikão, inclusive, vê o embate com o Red Bull Bragantino como um possível grand finale à sua trajetória na Baixada: “Com certeza. Não só pelo jogo em si, mas por tudo o que construí. Não cheguei aqui ontem. Além de ser atleta, costumo falar que também sou um torcedor, claro que separando as coisas. Mas consigo sentir, mesmo que não 100%, grande parte desse sentimento da torcida. Porque sei o que foi construído, sei o quanto essa torcida merece, o quanto essa instituição luta diariamente pelo bem de todos, pelo bem de nós, atletas. O mínimo que a gente pode fazer é chegar no dia e deixar tudo dentro do campo”.

E se um possível insucesso nas finais não deve reduzir a consideração pelo trio, fica claro como a ampliação da galeria de troféus entra na conta deles. A contribuição que todos deram à caminhada até as decisões é evidente e fica difícil imaginar esse time rendendo tanto nos mata-matas se não fossem os três protagonistas. Além do mais, as chances de reerguer a Sul-Americana se centram necessariamente nas atuações que o goleiro, o zagueiro e o ponta terão. É em Santos, Thiago Heleno e Nikão que os torcedores depositam suas maiores esperanças de um bicampeonato inédito aos clubes brasileiros no torneio secundário da Conmebol.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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