Sul-Americana

O Coquimbo Unido é o inesperado representante que volta a colocar o futebol chileno em evidência além das fronteiras

Seja qual for o classificado no duelo entre Boca Juniors e Racing, a Libertadores terá quatro ex-campeões em suas semifinais. A Copa Sul-Americana também reúne uma semifinal com peso histórico, entre o Vélez que já dominou o continente e o Lanús com dois títulos nos torneios secundários da Conmebol. A chance de um finalista inédito se concentra do outro lado da chave, e nem dá para considerar o Defensa y Justicia uma surpresa tão grande assim, considerando a ascensão recente do clube no Campeonato Argentino. O conto de fadas deste final de temporada continental é maior ao Coquimbo Unido. Pouquíssimo cotado, o time chileno está a um passo de figurar em uma decisão sul-americana – ao mesmo tempo em que corre o risco de ser rebaixado em sua liga nacional.

Fundado em 1958, o Coquimbo Unido fica sediado em Coquimbo, cidade de 256 mil habitantes ao norte de Santiago. Os Piratas possuem sua tradição no Campeonato Chileno, chegando à elite já em 1963, embora as aparições no primeiro nível até o fim dos anos 1980 tenham sido esparsas. A maior estadia dos aurinegros na primeira divisão aconteceu a partir de 1991. E já naquele ano, recém-promovido, o time registrou seu maior feito com o vice-campeonato nacional – atrás apenas de um histórico Colo-Colo que também faturou a Libertadores. Com isso, a modesta agremiação conseguiu passagem ao torneio continental em 1992. Terminou na última posição de um grupo no qual também estavam Universidad Católica, San Lorenzo e Newell’s Old Boys – este, vice daquela edição.

Aquele foi um ponto fora da curva a um clube de meio de tabela. E o Coquimbo Unido, por mais que se mantivesse na primeira divisão, não voltaria ao cenário continental tão cedo. Em 2007, os Piratas caíram depois de 16 anos seguidos na elite. Seriam 11 anos na divisão de acesso, até que o clube voltasse a subir em 2018. A partir de então, foram meses de ascensão aos aurinegros, que lembraram o impacto causado no início da década de 1990. Em 2019, o Coquimbo não viu problemas em se readaptar à elite e logo alcançou a quinta colocação no Campeonato Chileno. Protagonizada por Mauricio Pinilla, a equipe ficou a quatro pontos da zona de classificação à Libertadores, mas já assegurou a participação na Sul-Americana – encerrando um hiato de 28 anos longe dos torneios da Conmebol.

Sem renome na Copa Sul-Americana, o Coquimbo Unido se beneficiou do chaveamento para avançar nas primeiras fases. Eliminou os venezuelanos do Aragua e do Estudiantes de Mérida de maneira relativamente tranquila, enquanto a vítima nas oitavas foi o Sport Huancayo. O grande desafio veio mesmo nas quartas de final, diante do Junior de Barranquilla – um adversário dominante na Colômbia e com aparições frequentes nos torneios continentais, ainda que os melhores desempenhos se concentrem mesmo na Sul-Americana. Quando o favoritismo pesava aos Tiburones, os Piratas se superaram.

A chave ao sucesso do Coquimbo Unido foi vencer em Barranquilla. A vitória no Estádio Metropolitano fez toda a diferença, com uma incrível virada por 2 a 1. Miguel Borja deixou o Junior em vantagem, mas o time com desfalques por COVID-19 perdeu força. Joe Abrigo empatou aos 29 do segundo tempo e Lautaro Palacios garantiu o triunfo aurinegro já aos 43, num lindo giro dentro da área. O empate ou a derrota pelo placar mínimo beneficiaria o Coquimbo na volta, em casa.

O Junior até abriu o placar no Chile logo aos sete minutos, em mais um pênalti convertido por Borja. Contudo, os Piratas não permitiram que os visitantes fossem além do 1 a 0 no placar e conseguiram avançar pelo gol qualificado na Colômbia. Nem foi uma grande partida do Coquimbo Unido, sem criar muito, mas os Tiburones conseguiram ser piores, nulos no ataque – e atrapalhados por ainda mais desfalques. O goleiro Matías Cano terminou como herói, salvando uma bola no mano a mano contra Borja no finalzinho.

“Às vezes é difícil de assimilar. Você continua trabalhando no dia a dia e talvez possamos dimensionar melhor mais adiante. Vamos continuar trabalhando nas duas frentes para cumprir os objetivos e, por que não, seguir sonhando em avançar na Copa. Eliminamos um gigante como o Junior e, sem dúvida, o apetite se abre. Temos que ir por mais”, declarou o técnico Juan José Ribera. Do lado de fora do estádio, contrariando as recomendações sanitárias, dezenas de torcedores aguardavam a saída do ônibus do time para festejar a classificação.

O Coquimbo Unido é o primeiro semifinalista chileno em uma competição continental desde 2012. Naquele ano, a Universidad de Chile caiu diante do Boca Juniors na Libertadores e a Universidad Católica perdeu para o São Paulo na Sul-Americana. Desde então, o país caiu de nível nos torneios da Conmebol e acumulou fracos papéis nos últimos anos. Os Piratas representam um ponto fora da curva, ainda que cheguem menos incensados diante do Defensa y Justicia. Os argentinos eliminaram adversários de mais peso e vêm da Libertadores.

A questão ao Coquimbo Unido é mesmo conciliar os dois momentos. Se a Copa Sul-Americana motiva, no Campeonato Chileno o time só venceu um de seus últimos sete compromissos – curiosamente, a líder Universidad Católica. O clube ocupa a penúltima colocação, a dois pontos de sair da zona de rebaixamento, mas com o Colo-Colo logo abaixo. Há tempo para a salvação, com mais 12 rodadas pela frente, mas os jogos se concentram apenas até o final de janeiro. Os Piratas precisam fazer um equilíbrio de forças, até pela maratona, num elenco que depende de alguns medalhões – Pinilla, por exemplo, desfalca o time atualmente por uma cirurgia no joelho. Mas, ainda que a permanência seja importante pelo longo prazo, é difícil evitar que os aurinegros não se deslumbrem com a chance de tocar os céus. A Copa Sul-Americana é o que ficará para sempre, especialmente se a vaga à final vier.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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