Tim Vickery: Eu tenho um motivo justo para torcer contra os brasileiros na Sul-Americana
Nada contra Bahia, Grêmio, Vasco ou Galo, mas domínio brasileiro reforça tendência perigosa no continente
Nada contra o Bahia, nem contra o Grêmio. Nada contra o Vasco da Gama — até porque já passei muitos momentos impactantes em São Januário. E nada contra o Atlético-MG. Mas nesta semana, e na próxima também, vou ter que torcer contra.
O quarteto fantástico está participando da rodada dos playoffs na Copa Sul-Americana, buscando uma vaga nas oitavas de final da competição. E todos têm adversários do norte do continente.
São dois confrontos com times da Colômbia: Bahia contra América de Cali e o Galo enfrentando o Bucaramanga. O Grêmio disputa vaga com o Alianza Lima do Peru, enquanto o Vasco enfrenta o Independiente del Valle do Equador.
Todos são potencialmente interessantes. Pode ser que o último seja o mais competitivo. Independiente del Valle lidera o seu campeonato e está bem acostumado a disputar torneios continentais. E o América já eliminou o Corinthians, o Bucaramanga empatou em casa e fora com o Fortaleza, e o Alianza Lima tirou o Boca Juniors da Copa Libertadores. Nenhuma baba, então.
Mesmo assim, os times do velho “merconorte” vão contar com a minha torcida, até porque eu quero que os fatos me provem equivocado.
O meu medo — bastante reforçado pelo Mundial de Clubes — é que o futebol brasileiro está se colocando num patamar tão superior em relação ao restante do continente que os outros países vão ser deixados para trás.
Mundial reforçou tendência perigosa para o futebol sul-americano
As evidências estavam todas lá nos Estados Unidos. Os quatro times brasileiros conseguiram sair dos seus grupos — e os dois argentinos não. Trata-se da mesma tendência que a gente está vendo ano atrás de ano na Copa Libertadores. Seis vitórias consecutivas brasileiras — quatro vezes contra um outro time brasileiro na final.
Nunca antes na história da Libertadores houve esse grau de domínio — e não dá para imaginar uma mudança. O abismo financeiro está só crescendo, uma situação que o futebol brasileiro está aproveitando para tirar muitos dos melhores jogadores e maiores promessas dos países vizinhos. Um total de 30 atletas das outras nações do continente defenderam o quarteto brasileiro no Mundial de Clubes.
Os jogos do Botafogo contra o Seattle Sounders e do Palmeiras contra o Inter Miami foram atraentes e bem disputados. Mesmo antes desse Mundial, dirigentes brasileiros já estavam olhando com fome para o norte, sonhando com oportunidades no futuro. Depois do torneio, esse deve ser um desejo bem fortalecido, nos dois lados do Rio Grande.

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Torneio pan-americano é viável?
Os problemas logísticos são enormes, mas o futuro parece pan-americano. E realmente tem um aspecto bem interessante — justamente a possibilidade de que um projeto unindo forças das Américas possa formar um polo rival para o domínio do futebol europeu.
Mas também tem um lado preocupante. O risco é de o futebol brasileiro virar as costas para o seu próprio continente e, na busca para competir e lucrar contra os norte-americanos, decidir que não tem valor suficiente em disputar torneios contra clubes de Paraguai, Bolívia, Equador, Peru e tal.
Com seis representantes nos últimos 16 times, mais uma vez o Brasil está muito bem posicionado para papar o título da Libertadores. De vez em quando a Sul-Americana fornece uma oportunidade para o resto do continente gritar a sua existência — e as partidas dos próximos dias se apresentam como mais uma chance.
Portanto, tenho que me colocar na torcida para os times do velho merconorte contra o quarteto brasileiro. Porque cada gol de Independiente del Valle, Alianza Lima, América e Bucaramanga serve também como uma mensagem: que um projeto pan-americano pode ser bem-vindo, desde que seja inclusivo, desde que não seja nenhum tipo de “superliga” em que times de vários países sul-americanos nascem já sem vaga.



