Sul-Americana

Briga entre torcidas do Fortaleza vai além dos estádios e faz clube cortar relações com as organizadas

Rivalidade entre as duas principais torcidas organizadas do Fortaleza não é novidade, mas faz clube tomar medidas antes de semifinal da Sul-Americana

Na última terça-feira (26), Corinthians e Fortaleza se enfrentaram na Neo Química Arena pelo primeiro jogo da Semifinal da Copa Sul-Americana. Contudo, apesar da importância do jogo para ambas as equipes, o que mais chamou a atenção durante a partida foram os conflitos entre os torcedores do Fortaleza. Ao todo, trinta e seis torcedores foram encaminhados ao 65º Distrito Policial de São Paulo, em Artur Alvim.

Enquanto a partida ocorria em São Paulo, na capital cearense, Ozeni de Sousa Silva, conhecido como “Guabiru” e membro da Torcida Uniformizada do Fortaleza, foi tragicamente assassinado com golpes de barra de ferro em frente à sede da torcida no Bairro Jangurussu, localizado a cerca de seis quilômetros da Arena Castelão.

Os confrontos, seja em São Paulo ou em Fortaleza, podem ser explicados pela rivalidade entre as duas torcidas principais organizadas do Fortaleza. E os conflitos não são algo recente.

A TUF (Torcida Uniformizada do Fortaleza) e a JGT (Jovem Garra Tricolor) competem há bastante tempo pela supremacia e pela ocupação de espaços nos estádios. Essa rivalidade se tornou evidente antes mesmo do início da partida em Itaquera, quando os torcedores estavam organizando suas bandeiras e já havia ocorrido um princípio de tumulto.

Em nota, a Torcida Uniformizada do Fortaleza explicou e confirmou o motivo para o embate na Neo Química:

Para classificar o escalão de uma organizada é levado em consideração: tamanho da torcida, aspectos ideológicos e manutenção contínua de atividades. Sendo assim a torcida com maior tradição histórica, tamanho e espaço ocupado na arquibancada, posiciona-se primeiramente no local desejado e marca sua posição erguendo seus adereços de identificação, em seguida, sim, os outros grupos dividem as demais demarcações da arquibancada. Devido à recusa por parte da torcida de segundo escalão, iniciou-se um caloroso debate, que julgamos desnecessário diante a existência desde código de conduta citado acima, ocasionado uma quebra de hierarquia desrespeitosa e premeditada – diz a nota.

A TUF, que tradicionalmente organiza os mosaicos no Castelão devido à sua longa história, reivindica o direito de posicionar suas faixas nos melhores espaços das arenas. Enquanto isso, a JGT não aceita a imposição da “rival” e, para garantir seu espaço, chega mais cedo para colocar suas próprias faixas.

De acordo com informações apuradas pela reportagem da Trivela, os motivos para essa rivalidade vão além dos estádios e envolvem também questões territoriais. Os bairros onde as duas torcidas têm sede são áreas rivais, o que amplifica os conflitos e os espalha por diferentes pontos da cidade. Além disso, os membros das organizadas expulsam qualquer pessoa que cante músicas de incentivo da outra torcida nos locais em que estão presentes.

Diretoria rompeu relações com as torcidas depois da briga na frente da sede do clube

Às vésperas da decisão contra o Corinthians, que pode levar o Tricolor de Aço à sua primeira final de uma competição continental, os torcedores se confrontaram novamente. Na sexta-feira (29), a diretoria do Fortaleza se reuniu com os líderes das torcidas em uma tentativa de alcançar um acordo de paz e evitar episódios de violência, que, segundo relatos de torcedores, têm se intensificado desde o último ano.

No entanto, a iniciativa não obteve sucesso, já que membros das organizadas entraram em confronto nas proximidades da sede do clube, localizada no bairro do Picí. Ao todo, cinco pessoas foram presas, e armas e munições foram apreendidas durante a ação policial.

Este novo incidente levou o presidente Marcelo Paz a anunciar que o Fortaleza encerrou qualquer tipo de relação com as duas torcidas. Com essa decisão, o clube deixará de fornecer ingressos para que as duas torcidas possam comercializá-los. Além disso, os membros das organizadas não terão mais direito a cortesias de ingressos. O clube também não prestará mais apoio financeiro às caravanas quando o Fortaleza jogar em outros estados. Por fim, as duas torcidas estão proibidas de utilizar símbolos do clube, e qualquer tentativa nesse sentido resultará em processos judiciais.

Treinos abertos no Picí já tinham para de acontecer para evitar confrontos 

Conforme mencionado anteriormente, o problema persiste há algum tempo, e os confrontos chegaram a um ponto em que até mesmo os treinos abertos tiveram que ser cancelados devido à série de episódios violentos envolvendo os torcedores do Leão. Isso significa que os torcedores que não conseguem comparecer ao Castelão ficam ainda mais afastados do time do Fortaleza, que está atravessando um período de grande sucesso no futebol brasileiro, sob a liderança do técnico argentino Juan Pablo Vojvoda.

Em abril, o presidente do clube destacou a complexa situação que envolve as torcidas e explicou como esse conflito está impactando diretamente as iniciativas de apoio do clube ao elenco: 

— Infelizmente, existe dentro da nossa torcida uma briga entre duas torcidas organizadas que impede inclusive que a gente faça um treino aberto no Pici. Se fala de treino aberto, mas como vou fazer um treino aberto com o risco de ter uma briga aqui dentro do Pici? Eu não posso fazer isso, é loucura. Se no estádio, com policiamento, segurança, a gente não consegue garantir 100%, imagina no Pici, que não é um espaço tão adequado como é a Arena Castelão. 

Foto de Jade Gimenez

Jade Gimenez

Jornalista, fascinada por esporte desde a infância, paixão que se tornou profissão. Além do futebol me mantenho por dentro de outras modalidades desde Fórmula 1 até NFL. Trabalhei como repórter em TV e rádio cobrindo partidas de futebol, futsal e basquete.
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