Sul-Americana

Em dia de Vélez x Peñarol, vale relembrar o drama profundo da semifinal da Libertadores de 2011

Dentro os confrontos válidos pelos 16-avos de final da Copa Sul-Americana, Vélez Sarsfield e Peñarol fazem o duelo de maior peso na competição. São dois campeões da Libertadores, distantes de seus momentos de maior glória e que podem encontrar na Sul-Americana um caminho de engrandecer sua história. Não faz muito tempo, porém, que ambas as torcidas sonhavam em recuperar a taça da Libertadores. Em 2011, uruguaios e argentinos protagonizaram um dos maiores jogos da história recente da competição continental. Por todo o drama, aquelas semifinais ficaram marcadas na memória, com a classificação dos aurinegros à decisão contra o Santos após o infame pênalti desperdiçado por El Tanque Silva.

O Vélez atravessava um momento mais badalado. Treinado por Ricardo Gareca, o Fortín começava a construir uma sequência vitoriosa no Campeonato Argentino e também emendava campanhas imponentes na Libertadores. Não era simples, contudo, provar a força vista na fase de grupos também nos mata-matas. Para tanto, a equipe contava com nomes como Marcelo Barovero, Emiliano Papa, Sebá Domínguez, Augusto Fernández, Maxi Moralez, Ricky Álvarez, Héctor Canteros e Burrito Martínez. A referência era o artilheiro Santiago Silva, bastante experimentado nos torneios continentais. Nas etapas anteriores, os portenhos haviam despachado LDU Quito e Libertad.

O Peñarol era o azarão da vez, mesmo com a camisa mais pesada ou com as classificações sobre Internacional e Universidad Católica. Os aurinegros não disputavam uma semifinal de Libertadores desde seu último título, em 1987, nos tempos dos triangulares. Seu técnico, aliás, era o herói de 24 anos antes – o ex-atacante Diego Aguirre. Dentro de campo, o clube contava com uma equipe menos referendada que o Vélez, sob a liderança do veterano Darío Rodríguez. Sebastián Sosa, Matías Corujo, Matías Mier e Juan Olivera eram alguns nomes mais conhecidos daqueles tempos carboneros, com o destaque na campanha reservado ao camisa 10 Alejandro Martinuccio.

O Peñarol construiu sua vantagem no primeiro jogo, dentro do Estádio Centenário. Os aurinegros venceram o Vélez por 1 a 0. O começo da partida viu os goleiros se agigantarem, com grandes defesas de Barovero e Sosa. O responsável pelo gol seria Darío Rodríguez, aos 44 do primeiro tempo, numa cabeçada após cobrança de escanteio. Já na segunda etapa, apesar da pressão do Fortín, os carboneros seguraram a diferença – com direito a um tento anulado de Burrito Martínez. A definição ficaria para a semana seguinte, no Estádio José Amalfitani.

Mesmo em Buenos Aires, diante de uma festa sensacional da torcida da casa, o Peñarol foi melhor no início da partida. O Vélez parecia sentir o peso da ocasião e tomou calor. Barovero salvava os anfitriões, diante de um visitante liderado por Martinuccio nos contragolpes. O primeiro tento veio aos 33 minutos, quando Martinuccio limpou dois marcadores e deu um passe preciso para Mier guardar. Para piorar, o Fortín ainda havia perdido o capitão Fabián Cubero logo aos 13, substituído por Fernando Tobio.

Só depois do gol é que o Vélez reagiu, precisando de três tentos para avançar. Os argentinos tiveram um gol mal anulado de Burrito Martínez, até que o próprio Tobio empatasse nos acréscimos. Depois de uma cobrança de falta mal rebatida por Sosa, o defensor balançou as redes e colocou o Fortín na partida. O time prometia um abafa ao segundo tempo, o que logo começou a acontecer. O Peñarol tentava resistir à pressão incessante, mas ao menos tinha os contra-ataques a seu favor. E lamentou muito quando, depois de uma jogadaça de Martinuccio, Olivera errou o alvo com apenas Barovero à sua frente.

O jogo do Vélez muitas vezes era limitado às bolas aéreas. E foi assim que a virada surgiu, aos 21. Depois de um cruzamento, Burrito Martínez aparou inteligentemente com o peito e Santiago Silva mandou uma pancada de perna esquerda. Neste momento, com os 2 a 1 no marcador, um gol bastava ao Fortín. Mas El Tanque Silva, candidatíssimo a herói, viraria o grande vilão daquela eliminação. Empurrado pela torcida, o Vélez seguia sufocando. A expulsão de Fernando Ortíz não atrapalhou a equipe de Gareca, que mantinha a sua postura agressiva com um homem a menos. Até que, aos 30 minutos, Burrito ganhasse um pênalti no limite da área.

Quem mais indicado do que El Tanque Silva para a cobrança? O artilheiro tinha um chute potente e também muita experiência para assumir a responsabilidade na marca da cal. Sosa era um bom goleiro, mas precisaria fazer milagre para evitar a classificação do Vélez. A grama do José Amalfitani, todavia, guardou a angústia de Santiago Silva. No momento em que pisou num tufo solto para desferir o chute, o pé de apoio do centroavante escorregou. O veterano mandou a bola e as esperanças de sua equipe por cima do travessão, enquanto caía no solo. O Peñarol respirava aliviado. E os argentinos não se reergueram mais do baque, com a própria torcida abatida. Os uruguaios adiantaram a marcação e cozinharam o jogo, contra um oponente afetadíssimo pelo erro cabal.

O Peñarol seria derrotado pelo Santos na decisão, e a equipe carbonera não daria tantos frutos. A classificação no José Amalfitani, de qualquer maneira, ficou gravada na história do clube e da própria Libertadores. Ao som de “Ilariê”, canção tradicional no estádio do Vélez, o pênalti de Santiago Silva é símbolo de um grande drama continental.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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