Sul-Americana

Dez elementos para conhecer melhor Lanús e Defensa y Justicia antes da final da Copa Sul-Americana

A região sul da Grande Buenos Aires estará em festa neste sábado. Lanús ou Florencio Varela, uma das duas localidades, levará um título continental no começo da noite. A decisão da Copa Sul-Americana reúne Lanús e Defensa y Justicia, dois clubes “de bairro” que ganharam grandes proporções e passaram a fazer sucesso na elite do futebol argentino. Além dos bons desempenhos domésticos, também escrevem histórias marcantes além das fronteiras. Bem mais tradicional, o Granate tem final de Libertadores no currículo e tentará seu terceiro título internacional, em fama construída desde os anos 1990. Já o Falcão almeja o troféu inédito, numa ascensão bastante sólida a partir da última década. O grito de campeão ecoará, e talvez de uma cidade a outra, ambas separadas por apenas nove estações de trem.

Por sua história nas competições internacionais e por sua própria trajetória nesta Sul-Americana, o Lanús pode ser considerado favorito na decisão em Córdoba, no Estádio Mario Alberto Kempes. O Granate eliminou outras equipes tradicionais na campanha e vai para sua quarta final continental nos últimos oito anos – a primeira que não acontecerá contra brasileiros. Venceu a Ponte Preta na Sul-Americana de 2013, mas perdeu a Libertadores para o Grêmio e a Recopa para o Atlético Mineiro. Já o Defensa y Justicia é um novato nos torneios da Conmebol, mas que já constrói sua reputação. E, entre suas vítimas favoritas, também estão os clubes brasileiros, que logo reconheceram o bom trabalho desenvolvido em Florencio Varela.

A final da Copa Sul-Americana acontece neste sábado, às 17 horas (de Brasília), com transmissão da Conmebol TV. Pela ausência das grandes emissoras e também pelas campanhas mornas dos brasileiros, a competição mal foi noticiada na imprensa local durante os últimos meses. Entretanto, merece atenção, por consagrar um bom trabalho de clubes relativamente modestos. Abaixo, apresentamos elementos para apoiar um ou outro:

A história de fundação

O Lanús surgiu em 1915, como uma afirmação local. O povoado se sentia menosprezado e isolado em relação ao restante da metrópole, especialmente diante de restruturações urbanas na Grande Buenos Aires. Comerciantes, políticos e outras autoridades locais se reuniram para a formação de uma entidade que oferecesse a prática esportiva à população. O nome foi inspirado no fundador da cidade, Anacarsis Lanús.

Já o Defensa y Justicia surgiu com objetivos recreacionais em seu bairro, no ano de 1935. Nas décadas seguintes, os esforços se concentravam nas atividades sociais do clube, cujas equipes participavam de torneios entre bairros. A ideia de filiar um time de futebol à federação veio apenas em 1977. Ainda assim, o Falcão permanece muito ligado às atividades da comunidade. Mantém equipes em outras modalidades – como o basquete, o handebol e o hóquei.

A ascensão na Argentina

Após se associar à AFA, o Defensa y Justicia ganhou espaço rapidamente nas divisões de acesso, com duas promoções conquistadas em 1982 e 1985. O Falcão permaneceu 24 temporadas praticamente consecutivas na segunda divisão, exceção feita a uma rápida passagem pela terceirona nos anos 1990. O acesso inédito à elite aconteceu em 2014 e, desde então, registrou bons desempenhos. Reconhecidos por um estilo de jogo normalmente ofensivo, os auriverdes passaram a bater cartão nos torneios continentais e foram vice-campeões nacionais em 2019.

O Lanús possui uma trajetória bem mais antiga na primeira prateleira da Argentina. Participou da elite ainda nos tempos amadores, a partir da década de 1920. Já na era profissional, são 67 temporadas na primeira divisão. Até os anos 1970, os descensos foram logo acompanhados por acessos, com o vice de 1956 servindo de melhor resultado. O maior período distante da elite aconteceu entre 1977 e 1990. A partir de então, o Granate retornou para não mais fazer figuração e lá se vão 29 anos consecutivos entre os melhores do país. A década de 1990 reservou campanhas relevantes sob as ordens de Héctor Cúper, ainda sem a taça, mas quatro vezes entre os três primeiros colocados. O time sofreu uma queda de nível na virada do século, mas conseguiu o inédito troféu no Apertura de 2007. Já na última década, são dois vices e duas terceiras colocações no Argentinão, além da nova conquista em 2016.

O histórico nas competições continentais

O Lanús está em sua vigésima campanha continental. Nos anos 1990, era figurinha carimbada na Copa Conmebol e ergueu a taça em 1996, nos tempos de Héctor Cúper, além de ser vice diante do Atlético Mineiro em 1997. A partir de 2006, voltou a figurar com frequência no cenário continental, inclusive na Libertadores durante a virada da década. Nada comparado, porém, com a vitória na Copa Sul-Americana de 2013. Já na Libertadores, depois de um bom desempenho até as quartas de final em 2014, o Lanús se superou para chegar à decisão de 2017, eliminando o River Plate na semifinal. Só não teve forças para bater de frente com o Grêmio.

A participações do Defensa y Justicia nos torneios internacionais são mais recentes. Em compensação, o time sempre esteve nas copas da Conmebol desde 2017. No primeiro confronto do Falcão além das fronteiras, já eliminou o São Paulo, mas cairia para a Chapecoense na Sul-Americana de 2017. O melhor desempenho até então viria na temporada seguinte, alcançando as quartas de final da Sul-Americana de 2018, quando foi eliminado pelo Junior de Barranquilla. Em 2019, caiu logo na primeira fase, diante do Botafogo.

A campanha nesta Copa Sul-Americana

O Defensa y Justicia se valeu do atalho na Copa Libertadores. Estreante na fase de grupos, o time teve um desempenho abaixo do esperado na chave do Santos. A derrota para o Peixe na última rodada, contra um mistão na Vila Belmiro, permitiu que o Delfín passasse às oitavas. Na terceira posição, o Falcão pelo menos teve a Sul-Americana para ir mais longe. Começou despachando o Sportivo Luqueño, antes de se impor contra Vasco e Bahia. Já nas semifinais, veio o confronto com o surpreendente Coquimbo Unido, em que a vitória dos argentinos contou com uma ajuda da Conmebol nos bastidores.

O Lanús entrou na Copa Sul-Americana desde a primeira fase e começou despachando a Universidad Católica do Equador. A partir de então, apareceram as pedreiras. Superou o São Paulo em jogos emocionantes, com os 3 a 2 em La Fortaleza e a derrota por 4 a 3 no Morumbi. O Granate depois eliminou o Bolívar nas oitavas, goleando por 6 a 2 em casa. Depois, só confrontos domésticos. Enfiou 3 a 1 no Independiente em Avellaneda, após o 0 a 0 em Lanús. Por fim, na semifinal, o Granate bateu o Vélez por 1 a 0 no José Amalfitani e ganhou com autoridade em seus domínios, por 3 a 0.

O goleiro

Ainda assim, o mais forte candidato a melhor goleiro da Copa Sul-Americana é Lautaro Morales. O arqueiro do Lanús corresponde à tradição do clube em manter bons jogadores na posição, como Agustín Marchesín e Esteban Andrada. Formado pela base grená, é outro que chegou a jogar nas seleções menores da Argentina, a ponto de treinar com a seleção principal  às vésperas da Copa de 2018 – e servir de sparring para Lionel Messi nos treinos de faltas. Estreou contra o São Paulo e, aos 21 anos, tomou conta da posição. Chegou a pegar até pênalti contra o Vélez. O Granate, aliás, conta com vários pratas da casa na atual equipe.

Um dos melhores jogadores do Defensa y Justicia na atual campanha é o goleiro Luiz Ezequiel Unsain. Formado pelo Newell’s Old Boys, chegou a passar pelas seleções de base, mas nunca teve muitas chances com os leprosos. Em 2017, foi comprado pelo Falcão e ainda levou um tempo para ganhar a posição, mas virou uma das certezas da equipe. Mesmo sem ser muito alto, compensa com sua agilidade e com sua impulsão. Fez defesas decisivas ao longo de toda a Copa Sul-Americana e, aos 25 anos, pode se desenvolver mais.

O destaque

O grande protagonista do Defensa y Justicia é Braian Romero, atacante de 29 anos que vive seu ápice. O artilheiro demorou a firmar sua carreira, especialmente por um problema nas articulações que chegou a impedi-lo de andar, mas despontou bem no Argentinos Juniors que conquistou a segundona em 2017 e depois passou pelo Independiente. Também jogou no Athletico Paranaense, sem deixar muitas lembranças à torcida rubro-negra. A volta ao Defensa y Justicia fez bem e Romero aterroriza as defesas adversárias nesta Sul-Americana. É o goleador do certame, com nove tentos em nove aparições pela competição.

José Sand não é apenas a referência deste Lanús, mas também o maior artilheiro da história do clube. Pepe despontou no time campeão nacional em 2007 e rodou nos anos seguintes de sua carreira sem repetir o sucesso. Voltou em 2016, para liderar o novo título argentino e também o vice na Libertadores. Passou pelo Deportivo Cali brevemente em 2018, mas voltou para sua casa e vive um final de carreira excelente, mesmo já passando dos 40 anos. É um centroavante muito físico, mas inteligente e que sabe os atalhos. Forma uma boa parceria ao lado de Nicolás Orsini, outro destaque nesta Sul-Americana.

O símbolo

O Lanús mantém Pepe Sand como referência, mas não é o único jogador com uma respeitável história no Granate. O meio-campo ainda tem à disposição Lautaro Acosta, que segue importante aos 32 anos, mas está suspenso para a decisão. Laucha brilhou no Apertura de 2007 e passou um tempo na Espanha, jogando por Sevilla e Racing de Santander. Voltou para o país através do Boca Juniors, em 2012, mas no ano seguinte já assinaria mais uma vez com o Lanús. Seria essencial na conquista da Copa Sul-Americana, do Campeonato Argentino e no vice da Libertadores. Nos últimos anos, recusou várias propostas de outros países para seguir no Lanús, que ajudou sua família em momentos de dificuldades econômicas quando ainda estava na base. Em 2019, Acosta ganhou uma estátua no clube. É o jogador na ativa com mais partidas pelos grenás e o segundo com mais aparições neste século.

Importante nome no meio-campo, Nelson Acevedo serve de referência à ascensão do Defensa y Justicia nos últimos anos. Juntou-se às categorias de base do clube e fez sua estreia como profissional na segundona, em 2008. Participaria da caminhada até o acesso inédito em 2014, tornando-se um dos melhores jogadores da campanha. Levado ao Racing por Diego Cocca, onde também foi campeão, passou ainda pelo Unión de Santa Fe. Já seu retorno ao Falcão aconteceu em 2020. É um nome importante na faixa central e uma liderança clara aos 32 anos.

O técnico

O Defensa y Justicia tem uma lenda em seu banco de reservas, sob as ordens de Hernán Crespo. A carreira do antigo artilheiro dispensa apresentações, ídolo do River Plate e um dos maiores goleadores da Argentina, antes de construir uma trajetória sólida especialmente na Itália. Sua carreira como treinador também começou na Bota, na base do Parma e depois no Modena. Voltou à Argentina para dirigir o Banfield e seu grande trabalho acontece agora em Florencio Varela. Mantém o legado do Defensa y Justicia que vem desde Diego Cocca, Ariel Holán e Pablo Beccacece. Aos 45 anos, mira seu grande feito na casamata.

Já o Lanús é dirigido por Luis Zubeldía, um velho conhecido da torcida. Jogou no clube durante a virada do século e, como treinador, começou substituindo Ramón Cabrero na equipe que havia acabado de conquistar o Apertura 2007. Deixou La Fortaleza em 2010 e rodou por diferentes países, dirigindo do Racing ao Alavés. Seu retorno ao Lanús aconteceu em 2018, com uma continuidade que explica o alto nível atingido nesta Copa Sul-Americana.

Uma grande figura da história

O Lanús possui uma história bastante atrelada aos seus grandes técnicos. Nomes como Miguel Ángel Russo, Héctor Cúper, Ramón Cabrero, Guillermo Barros Schelotto e Miguel Almirón lideraram o crescimento desde os anos 1990. Porém, é uma agremiação de ídolos muito identificados com a camisa. Além de Pepe Sand e Lautaro Acosta, o recordista de jogos Maximiliano Velázquez foi outro que brilhou nas últimas décadas. Já a grande figura do passado é Juan Héctor Guidi. El Nene despontou na segundona e, em 1956, era o craque dos chamados “Globetrotters”, que foram vice-campeões nacionais com um jogo muito plástico. Chegou a passar rapidamente pelo Independiente, mas a história do meio-campista está fincada no Granate, onde é o terceiro com mais aparições. Disputou também 37 partidas pela seleção, conquistando o Campeonato Sul-Americano de 1957, reserva dos famosos “Caras Sucias”.

A história recente do Defensa y Justicia na elite da Argentina não possui nomes tão marcantes individualmente. O Falcão se notabiliza por montar times homogêneos, sem gastar fortunas, pagando salários parecidos aos jogadores. A diretoria se vale principalmente de empréstimos para manter a competitividade. Talvez o grande diferencial seja a aposta em treinadores jovens e modernos, algo que se repete nos últimos anos. Neste sentido, Sebastián Beccacece tem sua importância ao desenvolvimento dos auriverdes. O antigo assistente de Jorge Sampaoli passou duas vezes por Florencio Varela. Manteve um time ousado entre as cabeças do Campeonato Argentino na primeira passagem e, depois, voltou para ser vice-campeão nacional. Acaba sendo o nome mais identificado com esse sucesso da agremiação.

Uma curiosidade da vizinhança

Lanús é uma cidade na província de Buenos Aires, ao sul da capital. E o grande filho da localidade é Diego Armando Maradona. O eterno camisa 10 cresceu em Villa Fiorito, mas seu nascimento foi em Lanús, mais especificamente no Policlínico Evita Perón. Embora a ligação de Diego com a municipalidade não passasse muito disso, ele nunca deixou de demonstrar seu carinho por Lanús e pelo próprio clube. Em 2008, atuou em amistoso pelo Granate.

Florencio Varela também é uma cidade da Província de Buenos Aires. Seu nome homenageia Florencio Varela, um escritor importante nos primórdios da república. Escreveu diversas poesias, trabalhou como jornalista, assinou crônicas políticas e também é autor de uma obra dramática. Seria exilado por sua luta contra o governo de Juan Manuel de Rosas, falecendo em Montevidéu, no ano de 1848. A homenagem na localidade aconteceu em 1886.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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