Sul-Americana

Depois de tantas mostras de talento, Artur se prova num nível ainda maior nesta Sul-Americana

Com sete gols e quatro assistências, Artur faz uma campanha brilhante especialmente nos mata-matas da Sul-Americana

Claudinho teve um papel transformador no Red Bull Bragantino, desde o princípio da parceria. O meia se incumbiu do posto de craque na conquista do acesso na Série B e explodiria na reestreia do Massa Bruta no Brasileirão, com os prêmios de melhor da competição. A saída do destaque para o Zenit abriria uma lacuna, mas seu sucessor estava ao seu lado e os dois compartilharam ótimos momentos juntos. Artur assumiu, então, a missão protagonista do Braga. E o impacto do ponta na Copa Sul-Americana é evidente, com gols e muitas atuações decisivas. É quem carrega as maiores esperanças, num grupo repleto de jovens talentos.

Não foi difícil detectar as qualidades de Artur. O Red Bull Bragantino, aliás, nem foi o primeiro a percebê-lo como um nome ao futuro. Criado no interior do Piauí, o adolescente primeiro rumou ao futsal do Uniclinic e às categorias de base do Ceará, antes que o Palmeiras também se interessasse e o levasse para seu time juvenil. Quem acompanhava as equipes menores dos alviverdes conhecia o potencial do ponta, presente nas seleções de base. Contudo, foi necessário prosperar longe do Allianz Parque para conseguir seu lugar ao sol, numa política da diretoria palmeirense que pouco concedia espaço aos pratas da casa na época.

Primeiro, Artur esteve no Novorizontino, com o qual disputou o Campeonato Paulista em 2017. Depois, arrumou as malas para disputar a Série B com o Londrina e seu desempenho foi excepcional, com muitos gols e assistências. De quebra, participou da conquista da Primeira Liga com os paranaenses. O destaque deveria ser suficiente para abrir os olhos do Palmeiras sobre seu futuro na primeira prateleira do futebol.

Tal chance para Artur não veio naquele momento, atrapalhado por uma delicada cirurgia no tornozelo e também por algumas contratações de gosto duvidoso da diretoria palmeirense que minaram o espaço, por mais que fizesse parte do elenco campeão nacional em 2018. O caminho seria um novo empréstimo, agora para o Bahia em 2019. Foi campeão baiano e apareceria entre os melhores de sua posição no Brasileirão. Parecia seu momento de decolar com a camisa alviverde. Porém, o Red Bull Bragantino atravessou esse caminho e fez uma oferta graúda que ninguém quis recusar. Os palmeirenses receberam €6 milhões pelo garoto que só disputou seis jogos pelo clube na Série A. Já o ponta viraria uma das faces do projeto na estreia pela primeira divisão.

“Infelizmente eu não tive sequência de jogos no Palmeiras como eu tive pelo Londrina e pelo Bahia, muito por conta das lesões graves. Mas eu tenho uma gratidão enorme pelo Palmeiras. Eu vi que o projeto do Bragantino era muito bom pra mim e não pensei duas vezes antes de vir para cá”, afirmou Artur, em entrevista ao SporTV em setembro.

O perfil de Artur parecia se encaixar bem nas ideias da Red Bull no futebol: talentoso, com pouca idade e ambição para buscar saltos maiores em sua carreira. A vitrine oferecida em Bragança Paulista também auxiliava, com garantia de que teria muitos minutos em campo e paciência inclusive quando não estivesse tão bem. Mas nem precisou de tanto. O Paulistão de 2020 já seria marcante para o camisa 7, que acabou eleito o melhor jogador da competição. Também foi titular absoluto no Brasileirão, mas não com a mesma badalação vista ao redor do companheiro Claudinho.

“Jogador é visto quando está jogando, e comigo não é diferente. Eu queria minutos, queria jogos, então escolhi e acho que foi uma excelente decisão. Queria meu espaço, aí percebi que ia jogar e ter sequência de jogos. Estou muito feliz pelo momento que eu estou passando, pelo momento que o time está passando e desfrutando demais aqui”, complementou, ao SporTV. “O meu projeto é me dedicar bastante aqui pra fazer uma ótima temporada e, quem sabe, mais para frente, pensar em Europa”.

Artur comemora pelo Braga

E a eclosão de Artur num nível mais alto pelo Bragantino aconteceu em 2021. O jogo do ponta se tornou mais preponderante para garantir resultados e abrir caminhos ao Massa Bruta nesta temporada, mesmo demorando a engrenar durante o Paulistão. Seu rendimento no Campeonato Brasileiro, em compensação, é altíssimo e algumas atuações foram impressionantes – incluindo os reencontros contra os antigos clubes, Bahia e Palmeiras. Mas é na Sul-Americana que o jovem de 23 anos reivindica os holofotes como responsável pela primeira final continental do Braga.

Pela Copa Sul-Americana, Artur anotou sete gols e deu quatro assistências em 12 aparições. E olha que sua influência na fase de grupos foi pequena, com o único tento marcado contra o Emelec. Nos mata-matas, então, o camisa 7 desabrochou. Começou com uma assistência na vitória sobre o Independiente del Valle na ida das oitavas de final. Ainda pouco para a noite monstruosa nos 4 a 3 sobre o Rosario Central nas quartas, com uma tripleta e ainda o passe para o outro gol. Também seria dele o gol na vitória por 1 a 0 na Argentina, este com um chute surpreendente da linha do meio do campo.

Já na semifinal, contra o Libertad, Artur de novo roubou as manchetes para si. A vitória por 2 a 0 em Bragança Paulista contou com um gol de pênalti e uma assistência deslumbrante após fazer fila na zaga. Na visita ao Paraguai, ainda contribuiu com um gol e uma assistência para o placar de 3 a 1. Que outros jogadores se destaquem na campanha, como o goleiro Cleiton e o ponta Tomás Cuello, fica difícil de alcançar o nível de excelência apresentado pelo camisa 7. Não é só a capacidade criativa ou a agressividade nas arrancadas, virtudes conhecidas desde antes, mas também muita efetividade e oportunismo para cravar os lances decisivos.

Tamanha preponderância rendeu sua inédita convocação para a Seleção, ainda que num momento de muitos desfalques no elenco de Tite. “Defender a Seleção Brasileira sempre foi um sonho de criança. Sonho não só meu, mas de toda a minha família. Sonho que hoje foi concretizado. Quero aproveitar ao máximo essa oportunidade de vestir a camisa do Brasil e de representar o nosso país. Obrigado, Deus, família, equipe e todos os envolvidos”, comentou quando ganhou a convocação, embora não tenha entrado em campo.

Aos 23 anos, Artur é um jogador que deve abrir várias portas no futuro. O Red Bull Bragantino é uma etapa de sua carreira. E a Copa Sul-Americana claramente permite que ele se consolide como um destaque, inclusive se desejar uma transferência para o futebol europeu em breve. O Athletico Paranaense terá motivos para se preocupar no Estádio Centenário. Talento nunca faltou ao camisa 7 e a confiança o deixa bem à vontade para arrebentar com tamanha frequência no cenário continental.

“Estamos conseguindo nosso espaço no Brasil e no cenário internacional. Não precisamos jogar em um clube grande para aparecer, já estamos em um clube grande, em um projeto enorme e fantástico. Não sairia para outro clube do Brasil, só para a Europa. Estou muito feliz aqui, sou grato a todos, até à cidade, que é maravilhosa. Está tudo perfeito”, comentou Artur, ao UOL Esporte, em maio.  Palavras que soam proféticas antes de uma final de Copa Sul-Americana e que, a depender do desfecho, podem ser ainda mais significativas ao futuro de Artur.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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