Sul-Americana

Com Faravelli e Díaz destrutivos na final, a legião argentina se destaca na consagração do Independiente del Valle

Treinado por um argentino e com cinco jogadores do país em campo, o Independiente del Valle busca experiência no país para se mesclar com sua prolífica categoria de base

O futebol argentino está na gênese do Independiente del Valle. O nome de “Independiente”, afinal, não é ao acaso. Durante a década de 1950, o sapateiro José Terán era um leitor voraz da revista El Gráfico e se apaixonou pelo Independiente de Avellaneda. O Rojo inspirou o batismo, as cores e até o escudo do então chamado Club Deportivo Independiente, um time local de Sangolquí, nos arredores de Quito, que envolvia os amigos de Terán. Símbolos mudariam com o tempo, enquanto o nome passaria a ser Independiente José Terán em 1977, até virar Independiente del Valle em 2014. Mais importante, as proporções dos negriazules se expandiram, rumo à primeira divisão equatoriana e às frequentes participações continentais desde 2013. Os laços com a Argentina, todavia, não se perderam. Em Córdoba, o IDV se sagrou bicampeão da Copa Sul-Americana, com atuações excepcionais dos argentinos Lautaro Díaz e Lorenzo Faravelli. Cinco jogadores albicelestes foram titulares na vitória sobre o São Paulo, entre eles o capitão Cristian Perellano. Já no banco, o técnico Martín Anselmi reforçava um pouco mais tal inspiração.

O primeiro impulso dos argentinos na ascensão profissional do Independiente del Valle aconteceu em 2010, ano da estreia na elite do Campeonato Equatoriano. Guillermo Duró e Julio Asad foram os primeiros treinadores dos negriazules na primeira divisão, ambos argentinos. Porém, tal relação se tornou mais tímida quando o IDV realmente se firmou no cenário continental. Os uruguaios estavam mais em voga, sobretudo o técnico Pablo Repetto, no cargo por quatro anos. Ainda assim, a caminhada até a decisão da Libertadores de 2016 certamente animou os velhos conhecidos em Avellaneda. Os equatorianos superaram River Plate e Boca Juniors nos mata-matas, no que rendeu o apelido de “Matador de Gigantes”, apesar da derrota para o Atlético Nacional na decisão.

Depois de Repetto, o Independiente del Valle estreitou mais os seus laços com argentinos, sobretudo em campo, ao apostar repetidamente em jogadores do país. Eles garantiam experiência à boa mescla realizada pelos negriazules, com a excelência interna nas categorias de base. Cristian Pellerano e Richard Schunke vieram nessa leva, ambos contratados em 2018. O meio-campista já tinha 36 anos e trazia um currículo extenso por clubes como Racing, Independiente, Colón, Tijuana e América do México. Foi visto como um jogador de perfil ideal para servir de exemplo aos mais jovens e ditar o ritmo em campo. Cumpriria à risca tal função. Schunke, por sua vez, já estava no Equador com a camisa do Deportivo Cuenca. Aos 26 anos, o zagueiro ganhava uma oportunidade de disputar com mais frequência as competições continentais. Ambos deram muito certo.

Quem auxiliou a abertura foi o técnico Gabriel Schürrer, argentino, que assumiu o Independiente del Valle em 2018, vindo exatamente do Deportivo Cuenca. O comandante se manteve à frente do time por apenas 21 partidas. Todavia, os seus pupilos prosperaram e influenciaram a vinda de outros compatriotas. Pellerano e Schunke foram pilares do IDV na conquista da Copa Sul-Americana de 2019, ambos titulares absolutos na campanha que rendeu o primeiro título continental aos negriazules. Tiveram a companhia do veterano Claudio Bieler, multicampeão com a Liga de Quito, mas que atuou pouco em Sangolquí.

O fortalecimento do Independiente del Valle após faturar a Copa Sul-Americana de 2019 se escorou em outros argentinos. Nem todos deram certo, mas o clube acertou em cheio com Lorenzo Faravelli, contratado logo em janeiro de 2020. O meia de 26 anos tinha uma carreira razoável por Newell’s, Gimnasia de La Plata e Huracán. No Equador, virou maestro e uma das principais peças ofensivas do IDV. E a reformulação da defesa ainda garantiu em 2021 a chegada de Mateo Carbajal, este mais jovem, aos 24 anos. Não tinha tanto espaço no Arsenal de Sarandí, mas saltou patamares quando se somou aos negriazules. Com Pellerano e Schunke ainda intocáveis, os dois foram campeões do Campeonato Equatoriano em 2021, ainda com os gols de Jonathan Bauman, atacante argentino que já estava no futebol local com o Mushuc Runa e fez a diferença na caminhada do título.

Faravelli e Lautaro Díaz (JUAN MABROMATA/AFP via Getty Images/One Football)

Para 2022, a lista de achados do Independiente del Valle na Argentina incluiu Lautaro Díaz. O atacante, então com 23 anos, nunca tinha jogado na primeira divisão do Campeonato Argentino. Mostrava serviço na segundona, com Estudiantes de Buenos Aires e Villa Dálmine. Veio por empréstimo e, embora tenha levado um tempo a engrenar, estourou com gols fundamentais nos mata-matas da Copa Sul-Americana. Contribuía a chegada de um treinador de seu país, aliás. Martín Anselmi era velho conhecido do IDV, assistente de Miguel Ángel Ramírez durante toda a passagem do espanhol. Depois de seguir ao lado do parceiro no Internacional e não agradar na primeira experiência como treinador principal na Unión La Calera, o comandante retornou para Sangolquí diante da saída do português Renato Paiva. É quem dá o impulso ao atual trabalho, com grande aproveitamento e todo o sucesso na Sul-Americana.

Martín Anselmi escalou cinco argentinos entre cinco equatorianos e um chileno na final da Copa Sul-Americana. A tal mescla entre experiência e juventude da base. Schunke e Carbajal compuseram a zaga, enquanto Pellerano iniciava o meio-campo. O ponto de desequilíbrio ficou mesmo para as aproximações de Faravelli no meio com Lautaro Díaz no ataque. Foram fatais, assim como já tinham sido em outros momentos da campanha continental – sobretudo nos duelos das quartas de final contra o Deportivo Táchira e das semifinais contra o Melgar.

Obviamente, o Independiente del Valle não se resume ao seu quinteto argentino. Outros tiveram grandes atuações em Córdoba, com as boas intervenções de Moisés Ramírez e as aproximações de Junior Sornoza. Entretanto, o protagonismo ficou com aqueles que estavam em seu próprio país. Lautaro Díaz foi quem causou pesadelos ao São Paulo nos primeiros minutos, inclusive para inaugurar o placar, depois de uma metida de bola cirúrgica de Faravelli. Os tricolores não conseguiram reagir, com Pellerano trancando a cabeça de área e também Schunke sendo um dos mais seguros da defesa.

O período de maior temor do Independiente del Valle aconteceu no início do segundo tempo. Isso até que os negriazules recuperassem a bola e encontrassem o caminho para o segundo gol. Tudo começa num lançamento excelente de Schunke a partir da defesa. Sornoza faz participação especial, mas os toques finais ficaram mesmo com os heróis da tarde. Lautaro Díaz retribuiu o presente com uma ajeitada por cima e Faravelli estava dentro da área para fechar o placar em 2 a 0. O prêmio de melhor em campo ficou com Díaz, provavelmente também o melhor jogador desta Sul-Americana. Mas estaria em boas mãos se acabasse com Faravelli.

E a taça da Sul-Americana seria recebida por Pellerano, aos 40 anos. O meio-campista se aproxima dos 200 jogos pelo clube e serve de emblema ao que dá certo desde 2018, principalmente na filosofia de jogo. Entretanto, não seria nada egoísta ao destinar o ato de erguer o troféu a Junior Sornoza, cria da casa e igualmente simbólico na ascensão que rendeu a final da Libertadores em 2016, mesmo que depois disso tenha rodado por outros times. A impressão é que, com dois títulos continentais em quatro anos, o Independiente del Valle continuará fazendo campanhas relevantes nas próximas temporadas, mesmo que não repita as glórias. Possui excelentes estruturas, lapida uma base prolífica, faz repetidas escolhas acertadas no seu comando e ainda sabe mesclar experiência em campo. Neste último quesito, os argentinos seguem à disposição, sobretudo depois do que se viveu em Córdoba.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

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