Sul-Americana

Carrasco do Corinthians, Canário Álvarez é pupilo de antigos ídolos do Peñarol em sua trajetória até os profissionais

Autor de três gols contra o Corinthians, o atacante foi levado à base por Tito Gonçalvez e chegou aos profissionais por intermédio de Forlán

O Corinthians experimentou uma eliminação duríssima na Copa Sul-Americana. Tudo bem que o regulamento que classifica apenas o líder da fase de grupos aperta o funil, mas a despedida com apenas quatro jogos é amarga aos alvinegros. Com um time cheio de reservas, os corintianos perderam mais uma para o Peñarol. Pior, sofreram sua maior goleada na história das competições continentais: 4 a 0 no Estádio Campeón del Siglo. E o herói carbonero foi um atacante de 19 anos, tratado como uma das grandes promessas da base local. Agustín ‘Canário’ Álvarez já tinha anotado dois contra Cerro Largo e dois contra Sport Huancayo. Diante dos paulistas, com altas doses de oportunismo e aproveitando as falhas, assinalou a primeira tripleta de uma carreira que gera expectativas entre os aurinegros.

Álvarez possui em sua trajetória a ajuda de diversos ídolos do Peñarol. E o primeiro a passar por seu caminho foi Néstor ‘Tito’ Gonçalvez, uma das lendas aurinegras nos emblemáticos anos 1960, herdeiro de Obdulio Varela com a braçadeira de capitão e três vezes campeão da Libertadores. Nascido no departamento de Canelones, Canário entrou para uma escolinha de futebol quando tinha apenas quatro anos, influenciado pelo irmão mais velho. Jogava contra meninos dois ou três anos mais velhos e, logo na primeira partida, marcou um gol. Passou pelo futebol infantil do River Plate de Montevidéu, até ser aprovado pelo Peñarol quando tinha dez anos. Neste momento, Tito Gonçalvez seria importante, já que coordenava a captação carbonera e era o responsável pelas escolinhas do clube.

Álvarez não chegava sozinho ao Peñarol. Ainda no River Plate, fez amizade com um menino muito talentoso: Facundo Pellistri, outra grande revelação aurinegra, que estourou mais cedo nos profissionais e se transferiu ao Manchester United, embora atualmente esteja emprestado ao Alavés. Aliás, a história é que Pellistri colocou como condição para sua chegada que os carboneros também aceitassem o amigo Canário Álvarez. A dupla permaneceu nas escolinhas até os 13 anos, quando foram inscritos oficialmente e se juntaram à base aurinegra – também por intermédio de Tito Gonçalvez.

Nesta época, Canário Álvarez ainda não era um atacante goleador. Jogava como ponta, meia armador ou até volante. Ainda assim, exibia talento e um faro de gol que depois promoveram sua mudança de posição. “Desde pequeno era um jogador bastante completo. Com seu crescimento, bate muito bem as faltas, cabeceia bem, é bom tecnicamente e demonstra que tem condições. Jogava de armador com uma visão de gol muito grande e ótimas condições, um jogo habilidoso, de campinho, e se via que com trabalho ia melhorar”, contou Juan Gandolfo, então técnico de Álvarez e hoje coordenador da captação do Peñarol em Montevidéu, ao jornal El Observador.

Uma visão complementada por Martín García, que o treinou nas escolinhas e na base, à ESPN uruguaia: “Canário já estava na escolinha do Peñarol que havia formado naqueles anos Néstor Gonçalvez, nós íamos dando forma para quando chegasse à base, que já tivesse um certo conhecimento. Canário era um jogador bárbaro. Antes de mais nada, é um jogador muito inteligente: entende o jogo com perfeição, pode jogar em diferentes posições porque tem um ótimo tempo de bola, um bom jogo aéreo, cabeceia muito bem. Além do mais, tecnicamente é muito bom. Joga e faz jogar os companheiros, e tem gol”.

Em certo momento, Canário Álvarez tinha pouco espaço na base do Peñarol. O menino gostava do clube, mas o River Plate ofereceu uma nova oportunidade e o pai titubeou. Quem convenceu o prodígio a ficar com os carboneros foi Tito Gonçalvez, garantindo mais chances a Canário. “Tínhamos tomado a decisão de irmos. Com 13 anos, Agustín já tinha sua personalidade e comentou que ia demonstrar que estavam errados. Era um menino torcedor do Peñarol e não entendia muito por que precisava sair. Para ficar, foi muito importante Néstor Gonçalvez. Ele conversou comigo e me disse para esperarmos, que ele solucionaria o tema”, explicou Juan Carlos, pai do jogador, ao El Observador.

Na base do Peñarol, Canário Álvarez superava os 100 gols e era tratado como futuro pelo clube. Todavia, também precisou lidar com as responsabilidades de se tornar pai aos 16 anos. “O momento foi complicado para assimilar, mas levou muito bem. Outro dia ele me escreveu que sente muita falta da filha, já que não pôde vê-la por causa da Sul-Americana e das recomendações sanitárias. Assumiu o papel de pai com todas as responsabilidades, algo que não é fácil com essa idade. Absorveu bem os valores”, comentou seu pai.

Com 16 anos, Álvarez também ganhou a primeira convocação à seleção uruguaia juvenil. E, na etapa final de sua formação, começou a erguer taças com o Peñarol. Deslocado como centroavante, virou goleador e capitão, nas mãos de José Perdomo – outra figura histórica dos carboneros, parte do time campeão da Libertadores em 1987. Canário é descrito como um jogador muito dedicado, ficando inclusive depois dos treinos para praticar cobranças de falta e finalizações. Assim, melhorou ainda mais para chegar pronto à equipe principal dos aurinegros, em transição realizada em 2020.

Diego Forlán não ficou por muito tempo como treinador do Peñarol, mas um de seus méritos foi dar espaço a vários jogadores da base, como o próprio Facundo Pellistri. Pois o craque recém-aposentado também pinçou Álvarez e sua promoção à equipe principal foi um pedido direto do treinador. “Quando Diego me ascendeu foi algo maravilhoso, muito lindo. Quando me deram a notícia, estava treinando com a base e queria que a atividade terminasse o quanto antes, para contar à minha família, porque não podia mais de alegria. De início, minha família pensou que eu estava brincando, porque sou de fazer muitas piadas. Mas quando viram que eu falava sério, ficaram muito felizes e não podiam acreditar”, comentou Álvarez, ao jornal El Observador.

Álvarez não chegou a disputar partidas oficiais sob as ordens de Forlán, que logo sairia, mas sua estreia seria questão de tempo. Aconteceu na reta final do Torneio Apertura, já em setembro por conta da paralisação causada pela pandemia. Em sua segunda aparição, Canário marcou gol e deu assistência numa vitória sobre o Plaza Colonia. A partir de então, sua utilização se tornou frequente sob as ordens de Mario Saralegui, que substituía Forlán no comando técnico àquela altura. Também esteve presente na fase de grupos da Libertadores.

Álvarez marcou dois gols no Torneio Intermédio, muitas vezes saindo do banco. Já no Clausura (que, anedoticamente, levava o nome do falecido Tito Gonçalvez no troféu), tomou a posição como titular e viveu grande fase. A chegada do técnico Mauricio Larriera ajudou ainda mais. Foram sete gols em 14 aparições, quase sempre deixando sua marca. O desempenho não foi suficiente para colocar o Peñarol na Libertadores, mas a Copa Sul-Americana dá mais visibilidade ao jovem. Os dois gols contra o Cerro Largo colocaram o time na fase de grupos. Depois, na estreia, marcou mais dois diante do Sport Huancayo. Até que o Corinthians experimentasse o melhor da promessa, com uma inédita tripleta. Precisa de 140 minutos em campo para balançar as redes, uma boa marca a quem dá seus primeiros passos. Ao lado de Facundo Torres, ponta que também brilha na Sul-Americana, representa uma geração de muito impacto no Campeón del Siglo.

A renovação de Álvarez aconteceu no final de abril. O atacante firmou contrato até 2024 com o Peñarol, com multa na casa dos US$20 milhões. É bem provável que o garoto não permaneça em Montevidéu por tanto tempo, mas, pelo desempenho apresentado até o momento, fica difícil duvidar que não renderá tamanha bolada. Canário possui a benção de diversos ídolos carboneros, o que valoriza ainda mais sua trajetória. Parece saber muito bem o que a camisa representa.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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