Sul-Americana

As arquibancadas vazias na final da Sul-Americana não são apenas uma antítese ao futebol, são uma burrice até ao “business” da Conmebol

O que aconteceu no Centenário desvaloriza a grande virtude que o futebol sul-americano tem para transmitir: a paixão de suas torcidas

A Conmebol gosta de tratar o futebol como um “produto”. É parte da tal “visão empresarial” promovida por Alejandro Domínguez, o dirigente que promete mundos e fundos, mas só tem distanciado as competições continentais de sua realidade e piorado o trabalho de uma confederação que já era repleta de corruptos. E não houve boicote maior ao próprio “produto” do que a final da Copa Sul-Americana deste sábado. Não por responsabilidade das torcidas de Athletico Paranaense ou Red Bull Bragantino, tampouco dos anfitriões uruguaios. Mas, numa realidade econômica delicada afrontada por preços abusivos, o vazio imenso nas arquibancadas do Estádio Centenário nada mais é que uma consequência previsível. E que, além de ignorar a própria essência de um evento que deveria ser feito ao público, não ao enriquecimento da confederação, isso prejudica exatamente o “soccer business” previsto por Domínguez.

A pandemia fez muitos dirigentes acharem que o futebol sem público é a mesma coisa. A roda da fortuna continuou girando para muitos deles, especialmente para quem lidava com o conforto das federações e não com as dificuldades dos clubes. Porém, a quem sente o jogo, foi gritante a diferença que a volta do público fez nos últimos meses – seja a quem tem o gosto de acompanhar nas arquibancadas e possui dependência da vibração do estádio, seja mesmo a quem se limita a ver apenas pela TV. Mas qual a atratividade de um produto que sequer mobiliza os torcedores locais, que perde essa atmosfera? Que perde justamente a maior virtude do futebol sul-americano, a paixão das torcidas, quando a qualidade e os astros saem aos montes para a Europa?

O que aconteceu em Montevidéu custa à imagem da Copa Sul-Americana, à própria percepção do futebol no continente e ao apelo para outros cantos – numa internacionalização que deveria ser objetivo ao tal negócio. Foi a antítese do espetáculo que pode ser oferecido por essas bandas, especialmente quando o jogo em si não correspondeu, embora o ingresso caro pago à Conmebol tenha servido de consolo a Domínguez.

A Conmebol precisa agradecer aos céus pela sorte que deu nas finais continentais em 2019. Na Copa Sul-Americana, a classificação do Colón proporcionou uma peregrinação como raras vezes vistas, de Santa Fé a Assunção, duas cidades relativamente próximas para que as caravanas tomassem as estradas. A Olla Azulgrana, então, virou a terra prometida a um clube de torcida apaixonada e ávida por um título – mesmo que não tenha acontecido. Pouco importou que o vencedor, o Independiente del Valle, mandou não mais que umas dezenas de seguidores ao Paraguai. Da mesma forma, a classificação do Flamengo para a final da Libertadores deu à maior torcida do continente a chance de reviver a glória distante quase quatro décadas depois. Mesmo com a mudança de sede e os preços abusivos, muita gente pegou o avião até Lima, onde a torcida do River Plate, também uma das maiores do continente, marcou presença com o ciclo de bonanças sob as ordens de Marcelo Gallardo. Para melhorar mais, os 90 minutos se encerraram com um épico.

Ainda assim, dava para perceber que a primeira experiência das finais continentais era mais empolgante do que a média oferecerá. As críticas estavam postas desde o anúncio da ideia pela Conmebol e, ainda que certos pontos positivos tenham surgido realmente, não era isso que justificava ao todo os custos envolvidos ao torcedor. A pandemia talvez tenha evitado a confederação de um vexame em 2020 – não pela Libertadores, com as torcidas de Palmeiras e Santos provavelmente entupindo o Rio de Janeiro, até pela proximidade. Na Sul-Americana, ainda assim, parece difícil de imaginar que as torcidas diminutas de Defensa y Justicia e Lanús realmente encheriam um estádio relativamente próximo em Rosário.

Mas, muito pior, a pandemia tornou a Conmebol ainda mais alheia à realidade. E isso se notou claramente desde a preparação para a escolha da sede.

Ao longo do processo, a Conmebol ignorou protocolos sanitários e até se incumbiu de mais poderes do que se imaginaria a uma entidade esportiva. A escolha de Montevidéu surgiu em meio à interferência do governo uruguaio na oferta de vacinas para a confederação, garantindo doses a atletas e funcionários para viabilizar principalmente a Copa América. E, por mais que a situação sanitária tenha evoluído no continente durante os últimos meses, com a adesão à imunização, a Conmebol simplesmente ignorou que as consequências da crise não se restringem às bilheterias fechadas de um estádio.

Não são todas as pessoas que se sentem à vontade para o deslocamento, mesmo com a vacinação. Muito mais significativo, não são todas as pessoas que estão em condições financeiras estáveis para enfrentar uma viagem que, mesmo sem luxos, custaria alguns milhares de reais. Para piorar, o cumprimento dos protocolos, com exames e seguros, torna tudo ainda mais burocrático e caro. Isso não impediu, contudo, que a Conmebol praticasse preços abusivos nos ingressos e tornasse a viagem para Montevidéu mais difícil.

A realidade da final única sempre vai impor gastos extras que dificilmente serão contornados: as viagens na América do Sul já costumam ser caras, pelas distâncias e pelas limitações nos transportes, enquanto a alta demanda para um curto período joga os preços nas alturas; a procura alta também aumenta exorbitantemente os gastos com acomodação e alimentação; o câmbio também nem sempre costuma ser o mais simples, elevando outros custos. E isso se adiciona à mencionada burocracia gerada pelos necessários protocolos, bem como a própria crise econômica que inflacionou preços nos últimos dois anos, em praticamente todos os setores.

Basicamente, era necessário ser rico ou cometer alguma loucura para estar em Montevidéu nos próximos dias. E isso tendo certeza de que seu dinheiro sequer poderia ser revertido para o próprio clube como forma de receita, como acontece nas finais em ida e volta, mas serviria majoritariamente para alimentar os cofres da Conmebol. Por que eu deveria vender um carro ou botar um risco um emprego, quando, mais do que expressar a paixão pelo meu clube, eu iria alimentar a ganância da cartolagem continental? E isso quando meus custos se revertem em cadeiras gratuitas para um monte de papagaios de pirata, com lugares garantidos graças às relações comerciais e políticas. Na final da Libertadores, por exemplo, a parcela das torcidas de verdade vai ser drasticamente reduzida pelo monte de aspones presentes no Centenário possivelmente lotado.

Apesar de tudo, a final da Libertadores de 2021 ainda tem mais demanda pelo tamanho das torcidas envolvidas, mas ainda é uma realidade restrita à minoria da minoria, num recorte ainda mais drástico que o da recente arenização dos estádios. Já na Copa Sul-Americana, com o apelo menor, viu o que se viu no Centenário. E, cabe reafirmar, a responsabilidade disso é muito maior da Conmebol do que das torcidas.

O Athletico Paranaense, mesmo contando com uma torcida significativa no Paraná e em distâncias até acessíveis para pegar a estrada, não conseguiu mobilizar tanta gente assim. A conquista recente da própria Sul-Americana deve ter feito muitas pessoas nem se empolgarem com a viagem, ainda mais quando há outra final grande pronta a ser disputada na Arena da Baixada, com a Copa do Brasil no horizonte. Mas, certamente se os preços fossem mais acessíveis, mais gente se disponibilizaria a estar presente. Já o Red Bull Bragantino sequer possui uma massa de torcedores tão significativa. Na melhor das hipóteses, como ocorreu em 2019, seria um Independiente del Valle contra o Colón.

O ponto é que, excetuando-se condições excepcionais como as de 2019, a Sul-Americana nunca será tão atrativa para a final única. Torcidas de clubes de massa tendem a escantear o torneio, a não ser que vivam secas, valorizando geralmente a Libertadores. Torcidas de clubes com proporções regionais dificilmente lotarão as arquibancadas se as proximidades geográficas e os preços não forem realmente convidativos. O risco de ver um estádio parcialmente vazio sempre existirá, e isso talvez nem exima a própria Libertadores. Uma decisão como a de 2016, entre Atlético Nacional e Independiente del Valle, poderia lidar com o mesmo entrave – mesmo com a massa apaixonada ao redor dos verdolagas.

Uma das soluções possíveis para a Conmebol seria criar um grande evento que pudesse incentivar o turismo boleiro, o que até acontece com esta final da Sul-Americana perto da Libertadores. Porém, já está claro que os preços abusivos dentro da crise dificilmente serão convidativos ao grosso da população. Outro caminho seria tentar envolver mais a população local e fazer com que as torcidas de outros clubes uruguaios também tenham vontade de assistir a uma final continental. Nem isso a Conmebol conseguiu fazer em Montevidéu. O jogo foi um fracasso mesmo numa cidade amplamente envolvida com o esporte. Qual a vontade de ver uma partida que cobrará uma fatia gorda do meu salário pela mera presença?

E ainda dá para se discutir a própria higienização do clima promovida pela Conmebol, com as limitações na festa da torcida, que sequer produz um ambiente favorável para que mais gente queira fazer parte disso. O resultado é o que se viu neste sábado em Montevidéu, numa situação que parece afastar mais as pessoas, mesmo que à distância. Difícil imaginar como, comercialmente, seria melhor do que uma final em dois jogos – e, assim, com muita gente de outras torcidas podendo abraçar o Bragantino, como aconteceu com a Ponte Preta ou o São Caetano em outras ocasiões em finais continentais.

Nem deveria surpreender, porém, quando a própria Conmebol afastou a Copa Sul-Americana dos espectadores na televisão. Se os canais pagos já costumam restringir o acesso, a decisão de criar um pay-per-view para transmitir a competição reduziu ainda mais o envolvimento dos consumidores médios de futebol. Muita gente mais vidrada no esporte não deve ter visto um jogo sequer do Athletico e talvez nem os melhores momentos dos jogos, numa decisão que visou mais o dinheiro pingando direto no bolso do que necessariamente o produto mais atrativo. Mas enquanto o “business” estiver funcionando para Alejandro Domínguez, parece tudo certo.

A final da Copa Sul-Americana mostra como a Conmebol não pensa diferente de muitos dirigentes brasileiros: mais vale vender 500 ingressos por U$1000 do que 50.000 por US$10, mesmo que o consumo fosse maior com mais gente no estádio e a própria imagem do jogo se tornaria outra. Não são os preços exorbitantes que atrapalham a politicagem de Alejandro Domínguez e nem essa mentalidade asséptica de quem quer se colocar como um “modernizador dos bárbaros”. Enquanto seus asseclas estiverem se fartando e os patrocinadores não faltarem, tudo bem na confederação com sua imagem engomadinha.

O que a Conmebol parece não perceber é que também existe um preço que o futebol paga com o tempo: a maneira como se torna mais e mais distante do público. Estar numa final única pode até ser um sonho, mas um sonho para poucos e que contemplará apenas quatro torcidas por ano, provavelmente algumas de forma repetida, outras sem condições de mobilização total. O estádio vazio oferece um anticlímax, exatamente o oposto do que se esperaria numa final, ainda mais numa final sul-americana de recebimentos e pulsação. Uma realidade longínqua é exatamente o que o futebol não deveria ser. A essência do esporte é sua universalidade, a proximidade que promove, a capacidade de mobilização das massas. Tudo isso se perde com um deserto como o visto no Centenário.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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