O que conquistou a Copa Sul-Americana não é uma equipe de medalhões. O elenco se vale de jogadores sem tanto renome no continente, muitos deles com sua história na própria ascensão recente do clube, com a equipe também se valendo de recorrentes empréstimos para se remontar a cada temporada. A continuidade nos auriverdes, tantas vezes, está no seu banco de reservas. Os nomes podem até mudar, mas o perfil dos treinadores é quase sempre parecido: jovens, adeptos de um futebol intenso e que coloquem o time como protagonista em campo. Jorge Almirón, Diego Cocca, Ariel Holán e Sebastián Beccacece despontaram em Florencio Varela. Nenhum deles, porém, com a história e a representatividade da principal face deste título: , uma gigante dentro de campo, que leva o primeiro título como técnico. E um título continental como aqueles que marcaram seus tempos de goleador.

Falar de Crespo como jogador dispensa apresentações. “Valdanito” foi um dos maiores centroavantes da história do futebol argentino. Dentro de casa, honrou a camisa do River Plate e conquistou a Libertadores. Mas foi na Europa que o matador viveu suas maiores histórias. Liderou momentos inesquecíveis de Parma e Lazio, fez parte de esquadrões na Internazionale e Chelsea – mesmo sem emplacar na Inglaterra. Até no Milan, onde a grande conquista escapou em Istambul, o artilheiro deixou sua marca em pouco tempo. Já pela seleção, apesar da seca de títulos, pôde disputar três Copas do Mundo, além de uma edição dos Jogos Olímpicos.

Dentro da área, Crespo tinha inúmeras virtudes para definir as jogadas. Contudo, também era um jogador bastante inteligente, que sabia aproveitar os espaços e se posicionar muito bem. Pôde aprender bastante com grandes mestres – treinado por Carlo Ancelotti, José Mourinho, Ramón Díaz, Marcelo Bielsa, José Pekerman, Claudio Ranieri e outros treinadores vitoriosos. Soube moldar a sua mentalidade e não teve dúvidas que também gostaria de seguir tal carreira. Em 2012, no mesmo ano em que pendurou as chuteiras pelo Parma, Crespo já concluía seu curso de técnico em Coverciano e assumia as equipes de base dos gialloblù.

“Minhas equipes têm a ver com minha filosofia de vida. Eu sou um tipo que não gosta de ficar quieto, de esperar sentado pra ver o que acontece. Eu gosto de propor, de construir. Quero ser dono do meu próprio destino. Cometo erros e tenho acertos, mas sempre com lealdade e respeito. Isso trato de incutir em meus times. Nenhum treinador pode garantir um resultado. O futebol é uma constante tomada de decisões. Nossa identidade tem a ver com jogar no campo rival e ser protagonista, mas isso não impede que você corra riscos e precise se defender. Trata-se de respeitar o que nos levou a sermos apaixonados por futebol quando crianças, trocar passes, gerar situações de gol. É disso que se trata”, declararia meses atrás, ao Clarín.

Na mesma entrevista, Crespo falaria sobre suas influências como treinador: “Bielsa me gerou o primeiro impacto porque começou a fazer algo distinto em seu momento. O mesmo fez Mourinho, com sua metodologia de trabalho. Como aplicava o aspecto lúdico e a sucessão de coisas. A didática. Vai te levando. É como te ensinam o abecedário para logo formar palavras. Com José, entendi que o técnico não somente se ocupava dos 11 jogadores, mas era muito mais amplo. Com Ancelotti aprendi que você pode ter uma relação humana próxima com o jogador sem perder o respeito de líder”.

O começo da carreira de Crespo foi promissor, mas desafiante. Chegou a fazer boas campanhas na equipe primavera do Parma, mesmo com o clube à beira da falência. Devia ser uma honra para aquela garotada ver o antigo artilheiro os orientando a cada treino. A primeira experiência como profissional não seria tão positiva. Crespo dirigiria o Modena na Serie B e, diante da ameaça de rebaixamento, acabou demitido antes do fim da temporada. Trabalharia ainda como dirigente do Parma na sequência, antes de aceitar uma proposta para voltar à Argentina. Deixou sua família na Itália para retornar ao seu país e perseguir seu sonho.

O Banfield foi o primeiro a abrir as portas para Crespo, mas os resultados não saíram como o esperado, apesar do futebol ofensivo. O treinador não conseguiu melhorar o final ruim no Campeonato Argentino de 2018/19 e também começaria mal a liga em 2019/20, em resultados que custaram o emprego independentemente da forma de jogo. Ainda assim, o Defensa y Justicia resolveu dar créditos ao ex-centroavante e acertou sua contratação para 2020. O desafio era enorme, com a estreia de um clube de bairro na Copa Libertadores. Para ajudar, Crespo já assumia uma base aprimorada por Sebastián Beccacece no ano anterior, com uma filosofia de jogo incutida desde antes. Mais importante, poderia contribuir com sua vasta vivência em grandes competições.

Crespo comemora com seu elenco (NICOLAS AGUILERA/AFP via Getty Images/One Football)

“Quero agradecer ao clube por ter me escolhido para seguir uma linha de jogo e de conduta que me identifico. É uma responsabilidade por tudo o que vem fazendo a instituição nos últimos anos. É bonito que tenham me elegido para continuar este legado”, diria Crespo, empolgado em sua chegada. “Creio muito na ideia ofensiva de jogo e o Defensa tem essa ideia. Trataremos de mantê-la e melhorá-la, apesar de todas as mudanças que aconteceram. Chegamos a uma equipe com urgências, mas onde sempre aparecem bons jogadores. O modo vai ser o mesmo que sempre preguei, enfocando no bom jogo, no bom funcionamento coletivo”.

O Defensa y Justicia de Crespo está longe de ser uma equipe perfeita, cabe ponderar. A própria eliminação precoce na Libertadores aponta isso. Porém, consegue desempenhar um futebol propositivo e agressivo. O antigo artilheiro pôde trabalhar alguns conceitos que certamente experimentou em campo. Também pesa o trabalho de Alejandro Kohan, seu braço direito e um dos melhores preparados físicos da Argentina. Ambos conseguiram fazer o time, eliminado em um torneio continental, crescer no outro. O Falcão ascendeu a cada fase da Copa Sul-Americana, indo das dificuldades contra o à classificação mais folgada diante do Bahia. Na semifinal, ante o Coquimbo Unido, conquistou um resultado amplo – mesmo que beneficiado pela Conmebol com a mudança do local na partida de ida. Já na decisão em Córdoba, uma vitória irrefutável.

O Lanús entrou em campo no Estádio Mario Alberto Kempes neste sábado como o favorito, por sua experiência nas competições continentais e pelo próprio peso de sua campanha. O que se viu, entretanto, foi o domínio total do Defensa y Justicia. Os auriverdes já foram melhores no primeiro tempo. Não criaram tanto, mas controlaram o jogo e saíram em vantagem. No segundo tempo, a equipe manteve os adversários inoperantes e puniu dois erros na saída de bola para construir a vitória por 3 a 0. Ficou bem claro que o Falcão desejou bem mais o resultado, mesmo sem dar necessariamente um baile de bola. Mas foi superior, para coroar seu treinador.

Talvez o grande mérito de Crespo neste Defensa y Justicia campeão seja a maneira como lapidou seu centroavante. O especialista do ofício foi vital à afirmação de Braian Romero. O jogador que brilhou com Gabriel Heinze no Argentinos Juniors campeão da segundona em 2017 não conseguiu ter o mesmo sucesso no Independiente ou no Athletico Paranaense. Crespo conseguiu transformá-lo, deslocando o reforço da ponta para o centro do ataque e dando sequência na nova posição. Romero não só foi o artilheiro da Sul-Americana, com 10 gols, como acabou eleito o melhor jogador da competição. Com mobilidade e faro de gol, arrebentou defesas em diferentes momentos da campanha. Honrou o mestre.

Na saída de campo em Córdoba, Crespo ainda protagonizou a cena mais emocionante desta final. O treinador campeão logo se transformou no pai amoroso, que não via suas filhas há meses, por morarem na Itália. Trocaram um longo abraço, ele e as três meninas, regado por lágrimas. “O pior de tudo é não saber quando vou voltar a ver minhas filhas. Cada um precisa conviver com as próprias cicatrizes que escolheu. Para mim é duríssimo, tenho minhas filhas e minha esposa longe, em Parma. Falo todos os dias com elas”, contou o veterano, em sua coletiva de imprensa.

Crespo também fez questão de exaltar seus jogadores, especialmente pela maneira como abraçaram sua proposta de jogo e a cumpriram da melhor maneira na final. “Foi uma loucura. Ordem, valentia, coragem, crença em uma forma de jogar. Coloco na mesa uma ideia e eles bancam. Sem os jogadores, nós treinadores não somos nada. Somos um acúmulo de ideias. Eles jogaram uma partida excepcional, uma partida que dificilmente se vê em uma final. Agradecerei eternamente pelo que fizeram no caminho, que foi duríssimo. Se eu não encontrasse um grupo tão forte e unido, isso não seria possível”, comentou.

Por fim, o artilheiro que virou treinador campeão também relembrou seu esforço pelo caminho: “Meu trabalho começou em 2012, vem de vários anos. É preciso ter disciplina, não baixar os braços, ter educação também. É preciso respeitar todos. Demos uma mensagem à sociedade, esportiva e social, de que é preciso crer em você mesmo”. Aos 45 anos, Crespo parece ter uma carreira longa pela frente. É difícil dizer o patamar que pode atingir, ainda mais quando este é apenas o primeiro título. No entanto, por suas palavras e por suas posturas, é mais fácil admirá-lo e torcer por seu sucesso. A simpatia gerada pela memória afetiva, que resgata aquele centroavante implacável, se une à boa impressão do técnico dedicado.