Pior que a atuação medonha da Seleção é acharem que o empate caótico vai enganar alguém
Qualquer história nunca tem apenas uma versão. Depende do viés, da visão, do fio condutor. Um exemplo disso vem diante de tudo o que aconteceu no Defensores del Chaco, nesta terça. Para quem quiser se apegar ao placar, o Brasil arrancou um heroico empate por 2 a 2 do Paraguai, graças ao agônico gol de Daniel Alves nos acréscimos. Uma maneira de se tapear diante de tudo o que aconteceu ao longo dos 90 minutos em Assunção. O resultado serve apenas para quem quiser se enganar sobre mais uma atuação caótica da Seleção. As deficiências foram inúmeras. Ainda que o desespero no final tenha garantido um ponto mentiroso – e até poderiam ser três, após o último lance no qual a bola quase entrou.
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A sexta colocação do Brasil é alarmante, ainda que a competição seja longa. Com nove pontos, a equipe deixou a zona de classificação das Eliminatórias da Copa, embora permaneça na cola dos concorrentes. Mas a posição poderia ser ainda mais impactante, se a derrota acontecesse. Sem o ponto conquistado, o time de Dunga estaria à frente apenas de Peru, Bolívia e Venezuela – o trio claramente fora do páreo principal. Um sofrimento que pode não condizer com a história da Seleção, mas representa muito sobre a atual fase.
O primeiro tempo no Defensores del Chaco é simbólico. Diante de um organizado time do Paraguai, o Brasil simplesmente não jogou. Tomou intensa pressão durante quase todo o tempo, com as brechas da defesa aparecendo e Alisson evitando o pior. Enquanto isso, a ligação no meio de campo simplesmente não acontecia. Não fosse o chute de Ricardo Oliveira no travessão, em um lance isolado (e iniciado pela direita, a única fonte criativa da equipe), a atuação ofensiva não seria digna de nota. O amontoado brasileiro se safava de uma derrota contundente para a Albirroja.
Por fim, o gol do Paraguai saiu aos 40 minutos. E de maneira significativa, diante dos erros que se sucederam. A perda de bola não contou com uma rápida recomposição. Daniel Alves foi extremamente passivo após a enfiada de Nestor Ortigoza. A zaga não acompanhou os adversários após o cruzamento. E, com o escorregão de Filipe Luís, Lezcano ficou livre para estufar as redes. Se Alisson, sem culpa no gol, era claramente o melhor do Brasil, ficava difícil apontar o pior.
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Na volta do intervalo, o caos terminou de se instaurar em outro gol do Paraguai, aos quatro minutos. Outro tento que teve enorme complacência da Seleção, seja ao permitir que Roque Santa Cruz se livrasse de três marcadores com enorme facilidade ou ao deixar Benítez abrir um rombo dentro da área para ampliar a vantagem. A noite brasileira parecia não ter muitas perspectivas, diante da falta de futebol.
O Paraguai, porém, cansou – especialmente por queimar duas substituições mais cedo do que o planejado, por contusões. E, ao recuar, permitiu que o Brasil partisse para cima. Podem até dizer que Dunga “ousou” em suas alterações, ao tirar Fernandinho e Luiz Gustavo por Hulk e Lucas Lima. Trocas que se sugeriram muito mais por desespero e evidenciaram a ineficiência na saída de bola da Seleção. Na base do abafa, os brasileiros iam criando suas chances. A falha do goleiro Villar permitiu que Ricardo Oliveira descontasse aos 34, em rebote de Hulk. Premiou o atacante, um dos raros que apresentavam lucidez. Já aos 47, em jogada individual, Daniel Alves arrancou o empate. Salvou a sua pele (depois de uma péssima atuação defensiva) e também a de Dunga.
Se a maioria dos membros da Seleção deixou o campo preferindo exaltar a luta nos minutos finais, não dá para ser cego o suficiente e menosprezar a falta de recursos. Coletivamente, o Brasil não existiu. Pesou mais a vontade de um bando de jogadores qualificados do que a capacidade organizacional do time. E assim vem acontecendo repetidamente nestas Eliminatórias, como o segundo tempo contra o Uruguai já tinha deixado tão claro. A sexta posição na tabela escancara a incapacidade de se impor contra os concorrentes, justamente porque as duas vitórias saíram contra as cartas fora do baralho. Que a geração brasileira seja inferior às anteriores, nem de longe é tão ruim para sofrer tanto. A incompetência em campo passa pelo comando, sobretudo. E o pior do resultado mentiroso é perceber que ele segue permitindo a arrogância e a cegueira, assim como a permanência de Dunga.



