América do SulCopa do Mundo

Os 80 anos de Vargas Llosa: As crônicas em que o Nobel de Literatura traduziu o futebol

Em junho de 1965, o Brasil disputou uma sequência de amistosos no Maracanã, preparando-se para a Copa do Mundo do ano seguinte. No dia 6, os bicampeões do mundo receberam a Alemanha Ocidental de Overath, Libuda e Tilkowski. E contaram com a presença de um torcedor especial nas arquibancadas: Mario Vargas Llosa. O escritor peruano estava em lua de mel no Rio de Janeiro. Convenceu sua esposa a passar o primeiro dia de núpcias no gigante de concreto, tão fã que era de Pelé. Acabou recompensado. O Rei definiu a vitória por 2 a 0 sobre os alemães, em duelo que teve o placar aberto por Flávio Minuano.

VEJA TAMBÉM: O adeus de Umberto Eco: Dez pensamentos do intelectual italiano sobre futebol

O episódio ajuda a dimensionar a paixão de Vargas Llosa pelo futebol. Uma relação que começou ainda na infância, em Lima. Influenciado por seu tio, o garoto passou a frequentar os jogos do Universitario. Tornou-se um torcedor crema fanático, a ponto até mesmo de tentar carreira nas categorias de base do clube. Contudo, a estadia do meio-campista nas canteras foi rápida. “Jogava na linha média, onde estão os estrategistas, mas nunca me destaquei. A vida me levou a outras direções”, disse, em 2007. Segundo o ensaísta, uma das melhores lembranças de sua juventude foi exatamente ter vestido a camisa de La U em uma partida no Estádio Nacional.

No fim das contas, o gosto pelo Universitario se moldou mesmo nos arredores do campo. A ponto de Vargas Llosa ser homenageado como sócio vitalício, em evento realizado dentro do Estádio Monumental há cinco anos. Visivelmente comovido, o Nobel de Literatura de 2010 falou como mais um aficionado: “Esta é a homenagem mais emocionante que eu poderia receber, depois de 60 anos como torcedor. A torcida sabe muito bem que La U é muito mais que um clube de futebol. É um mito, uma lenda, uma tradição, uma das mais belas histórias que o futebol peruano escreveu. É um mito que nos fez vibrar ao longo dos anos com suas vitórias, que nos fez sofrer com suas derrotas e que nos fez renascer de entusiasmo com sua garra, com um nome que uniu peruanos de todos os setores. Porque La U é uma das expressões mais fraternas que tem o Peru”.

Pois, ao longo de sua trajetória, Vargas Llosa também emprestou a sua sublime pena ao futebol. Tratou o jogo como parte de sua literatura e produziu alguns textos, em especial em 1982. Naquela ocasião, atuou como cronista esportivo durante a Copa do Mundo, nas páginas do jornal espanhol ABC – justamente o último Mundial disputado pela seleção peruana, vivendo o ocaso da geração de Cubillas. Abaixo, reproduzimos algumas linhas do maestro sobre o esporte, presentes em seis de suas crônicas. As palavras de quem soube tão bem traduzir o mundo em seus textos, e merece as devidas homenagens em seu aniversário de 80 anos.

vargasllosamonumental

A explicação deste prodigioso fenômeno contemporâneo, a paixão pelo futebol (um esporte elevado à categoria de religião laica), é na realidade bem menos complicada do que supõem os sociólogos e psicólogos que tratam de interpretá-la e consiste simplesmente no que o futebol oferece às pessoas: uma ocasião de se divertir, de se entreter, de se entusiasmar, de se exaltar, de viver umas emoções intensas que a rotina raras vezes oferece. Querer se entreter, se divertir, passar um tempo agradável, é a mais legítima das aspirações, um direito tão válido como o de querer comer e trabalhar. Por razões múltiplas e seguramente complexas, o futebol veio cumprir no mundo de hoje esta função com mais êxito e universalidade que qualquer outro esporte. A quem gosta de futebol e tem prazer com ele, não surpreende em absoluto a hierarquia que alcançou entre os entretenimentos coletivos, mas há muitos que não o entendem e o criticam.

O fenômeno lhes parece lamentável porque, dizem, o futebol aliena e empobrece intelectualmente a multidão, distraindo dos assuntos mais importantes. Quem pensa assim esquece que se divertir é um assunto importante. Esquecem também que a característica de uma diversão, por intensa e absorvente que seja, e uma boa partida é em alto grau, é ser efêmera, intranscendente, inócua, uma experiência na qual o efeito desaparece ao mesmo tempo em que a causa.

O esporte, para quem desfruta dele, é amor à forma, um espetáculo que não transcende o corporal, o sensorial e a emoção instantânea que, à diferença do que ocorre por exemplo com um livro e com um drama, apenas deixa marcas na memória e não afeta em nada o conhecimento, nem para enriquecê-lo e nem para deteriorá-lo. Nisso está o seu encanto: em ser emocionante e vazio. Por isso podem gozar do futebol, por igual, o inteligente e o tonto, o culto e o inculto. Agora basta, chegou o rei, saíram as equipes, declarou-se inaugurado o Mundial, a partida começa. Chega de escrever. Vamos nos divertir um pouco.

Em “O prazer vazio”, de 14 de junho de 1982

Sem temor de exagerar, se pode dizer que é regra quase geral que as páginas esportivas sejam as mais vitais e imaginativas dos diários e revistas, aquelas nas quais o jornalista mostra uma liberdade e uma audácia estilística maiores. O mesmo se pode dizer do comentarista de rádio, que, se é bom, vai enriquecendo com suas palavras aquilo que transmite, como um trovador medieval transformava em seus versos os amores ou as batalhas que cantava. O comentarista de televisão, por sua vez, está fechado pela presença da imagem, que o ata à realidade. Estes jornalistas esportivos, quando são talentosos, jamais escrevem uma partida ou radiografam o desempenho de um jogador: o mitificam. Quer dizer, o tiram de sua efemeridade, de sua passageira realidade concreta e os instalam na realidade permanente, atemporal e incorpórea da ficção. […] Graças ao futebol, a literatura de ficção contemporânea se enriqueceu com um aporte tão simpático como inesperado: as seções esportivas da imprensa. Jovens estudantes de literatura: para comprovar praticamente como a boa literatura transforma a experiência real em mito, leiam as crônicas de futebol!

Em “Elogio da crítica de futebol”, de 16 de junho de 1982.

Um gol é um orgasmo, através do qual um jogador, uma equipe, um estádio, um país, a humanidade inteira, descarregam subitamente sua energia vital. Cada país joga futebol de acordo com a sua idiossincrasia sexual. As táticas e técnicas dos jogadores no campo são, sem mais nem menos, que a tradução futebolística dos costumes e fantasias eróticas nacionais. O futebolista brasileiro, por exemplo, é moroso e carinhoso, acaricia ternamente a bola antes de chutar, custa se desprender dela, e ao invés de mandar a bola no gol prefere se mandar para o gol com ela.

Em “Em plena orgia”, de 18 de junho de 1982.

12 DE ENERO DEL 2010 LLEGADA A LIMA  DE ESCRITOR PERUANO MARIO VARGAS LLOSA PROCEDENTE DE CHILE. FOTO: DANTE PIAGGIO / EL COMERCIO

Os povos necessitam de heróis contemporâneos, seres a quem endossar. Não há país que escape desta regra. Culta ou inculta, rica ou pobre, capitalista ou socialista, toda sociedade sente essa urgência irracional de empossar ídolos de carne e osso, ante os quais queimam incenso. Políticos, militares, estrelas do cinema, esportistas, cozinheiros, playboys, grandes santos ou bandidos ferozes foram elevados aos altares da popularidade e convertidos pelo culto coletivo nisso que os franceses chamam de ‘boa imagem dos monstros sagrados’. Pois bem, os futebolistas são as pessoas mais inofensivas a quem se pode conferir esta função idolátrica.

Eles são, claro está, infinitamente mais inócuos que os políticos ou os guerreiros, em cujas mãos a idolatria de massas pode se converter em um instrumento temível; e o culto do futebolista não tem as manchas frívolas que atrapalham sempre a deificação do artista de cinema ou da megera da sociedade. O culto aos do futebol dura tanto quanto o seu talento futebolístico, se desvanece como este. É efêmero, pois as estrelas do futebol se queimam rápido no fogo verde dos estádios e os cultores desta religião são implacáveis: nas tribunas, nada está mais próximo da ovação que as vaias.

É também o menos exigente dos cultos, porque admirar um futebolista é admirar algo muito parecido à poesia pura ou a uma pintura abstrata. É admirar a forma pela forma, sem nenhum conteúdo racionalmente identificável. As virtudes futebolísticas – a destreza, a agilidade, a velocidade, o virtuosismo, a potência – dificilmente podem ser associadas a posturas socialmente perniciosas, a condutas inumanas. Por isso, sim, é preciso haver heróis.

Em “Maradona e os Heróis”, de 21 de junho de 1982

No futebol, se expressa de maneira privilegiada a aptidão criadora de suas pessoas, a alegria, a picardia, o ritmo, a sensualidade e a graça, essas virtudes que estão também tão vivas e atuantes em sua música. Eu sempre fui um admirador fervoroso do futebol brasileiro, porque é um futebol que tem tanto de espetáculo e rito, de festa e de dança, como tem de esporte. E, ainda que os discípulos de Telê Santana não tenham jogado contra a Argentina sua melhor partida no Mundial, o público teve uma ocasião de ver a formidável plasticidade com que este time se move pelo campo, a um ritmo que parece programado por uma partitura e essa combinação tão equilibrada de ação coletiva e jogadas de inspiração individual que permite ao futebol brasileiro ser eficaz e preciosista ao mesmo tempo.

Em “O futebol como fantasia”, de 4 de Julho de 1982.

Será uma partida que recordaremos, da qual falaremos mesmo quando se passarem muitos anos e seus protagonistas forem apenas nomes vinculados à mitologia do futebol. Uma partida que vimos como o coração acelerado, como algo eletrizante e dramático, e cujos espectadores, tanto os tristes com a derrota do Brasil como os exaltados com o triunfo da Itália, tenderão sempre pelo mais emocionante de maior excelência futebolística que se viu neste Mundial.

Estes são os contrastes e paradoxos do futebol: nada está escrito e a lógica se trinca como um cristal. A melhor equipe da Copa, a que jogo a jogo vinha exibindo o futebol de qualidade mais elevada e consistente, cai derrotada, em um encontro inesquecível, por uma esquadra que, logo de um começo medíocre e decepcionante na primeira fase, vinha melhorando progressivamente até crescer e demonstrar que poderia medir-se com os maiores de igual a igual, vencê-los.

Em “Uma partida para a memória”, em 7 de julho de 1982.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo