América do SulLibertadores

O futebol foi o de menos em Oruro – exceto para a Conmebol

Mais uma noite festiva do futebol se transformou em tragédia. A estreia do Corinthians na Libertadores ficou em segundo plano após a morte de um torcedor do San José dentro do Estádio Jesús Bermúdez. Ou ao menos deveria ter ficado. Apesar do desastre nas arquibancadas, não houve esboço de que a partida pudesse ser interrompida. Um desrespeito não só à vítima, como também aos outros torcedores e aos atletas.

Aparentemente, o incidente não afetou o jogo, mas abalou quem estava ao redor do campo. As cenas de intervenção da polícia no local foram claras durante o intervalo. Após a partida, o diretor Edu Gaspar afirmou que estava próximo do local onde ocorreu a explosão. Tite chorou durante a entrevista coletiva, lamentando a fatalidade.

Enquanto isso, a Conmebol lavou suas mãos. Não paralisou o jogo para que as atenções se concentrassem sobre o caso. Bem pior, fez de conta como se nada tivesse acontecido. Sequer se manifestou ou ofereceu apoio à família – ainda não havia uma nota oficial duas horas após o jogo. As primeiras condolências vieram dos patrocinadores, e não da entidade responsável pelo torneio.

Parece demais exigir uma atitude de uma confederação que custa a cumprir seu próprio regulamento. As punições brandas e a falta de fiscalização facilitam a violência na Libertadores. Diante de um incidente de tamanha proporção, o mínimo que se imagina é uma mudança de postura.

Já sobre os torcedores envolvidos no caso, é leviano bradar qualquer clubismo diante de tamanha tristeza. A atrocidade seria a mesma se cometida por fãs do Corinthians, do San José ou de qualquer outro clube, bem como os lamentos permaneceriam do outro lado independente das cores da camisa.

A polícia apresentará as devidas conclusões sobre o incidente, através das investigações que estão sendo iniciadas. Resta esperar por elas, pelas punições aos responsáveis e, sobretudo, por uma atitude mais combativa da Conmebol contra a violência – o que, por mais óbvio que pareça, dá para se duvidar que realmente aconteça.

O jogo

Dentro de campo, o Corinthians ficou muito abaixo das expectativas durante o empate por 1 a 1. O atual campeão da Libertadores se resguardou do cansaço provocado pela altitude e, quando o tropeço começou a se materializar, não teve forças para retomar a vantagem no placar.

O gol de Paolo Guerrero, logo aos cinco minutos, foi a deixa para a postura relaxada dos corintianos. Foram dez minutos de pressão até que os visitantes se acomodassem no campo de defesa, fechando os espaços do San José. E, quando recuperava a posse de bola, os brasileiros preferiam diminuir o ritmo e pouco ameaçavam no ataque.

O San José, por sua vez, tentava explorar os efeitos da altitude e abusava dos chutes de fora da área – 15 das 19 finalizações do time. Porém, os bolivianos só conseguiram ameaçar o gol corintiano quando trabalharam as jogadas. Primeiro, em sequência de escanteio que Cássio salvou. Já aos 15 minutos do segundo tempo, Ignacio García avançou com liberdade pela esquerda, logo após a substituição de Jorge Henrique, e cruzou para Carlos Saucedo marcar.

Somente depois do susto é que o Corinthians voltou a buscar o ataque, tentando se recuperar do prejuízo. Porém, a equipe falhava demais nas tentativas de conectar seus homens de frente. As únicas duas oportunidades vieram com Emerson, que desperdiçou ambas – na principal, carimbou a trave mesmo com o gol escancarado. O empate deixa os corintianos com um ponto, abaixo do Tijuana, que lidera o Grupo 5 após vencer o Millonarios.

Mostrar mais

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

Artigos relacionados

Botão Voltar ao topo