Libertadores

Romero se consagrou de novo como herói nos penais e o Boca despachou o Racing

Depois de um 0 a 0 fraco no Cilindro, Romero defendeu dois pênaltis e frustrou o Racing, seu time do coração

Sergio Romero possui uma mística ao seu redor. Não é o goleiro mais confiável, mas se agiganta nos pênaltis. O arqueiro se eternizou na Copa do Mundo de 2014, decisivo para a passagem da Argentina à final. E a especialidade de Romero como “tapa penales” se confirma também na Libertadores de 2023, herói do Boca Juniors na caminhada até a semifinal. O veterano tinha brilhado na fase anterior contra o Nacional de Montevidéu e, nas quartas de final, viveu um encontro particular contra o Racing, seu clube do coração, onde iniciou a carreira. O empate por 0 a 0 visto na Bombonera se repetiu nesta quarta, dentro do Cilindro de Avellaneda, numa fraca partida. A decisão seguiu para os pênaltis, onde Romero fez toda a diferença. Pegou dois tiros e facilitou o triunfo xeneize por 4 a 1. Agora o Boca cruza o caminho do Palmeiras.

Na saída de campo, Romero chegou a falar sem pudores sobre os sentimentos mistos pela classificação: “Vou com dor e tristeza. Não gosto que as pessoas me xinguem aqui. Todos sabem que sou torcedor desse clube, mas hoje faço meu trabalho pelo Boca. Vim mostrar que sou um goleiro comprometido. Não comemorei porque sou torcedor do Racing e me cabe defender a meta do Boca. Pude manter meu arco zerado. Terminei com câimbras porque são muitas coisas que passam pela cabeça e pelo corpo”.

A classificação do Boca Juniors inflige mais uma decepção ao Racing. Os xeneizes foram persistentemente algozes dos albicelestes nos últimos tempos. Desde 2020, o Boca eliminou a Academia nas quartas de final da Libertadores 2020 e na semifinal da Copa da Liga Argentina de 2021, enquanto levou o Campeonato Argentino de 2022 numa dramática disputa direta com os racinguistas. O time de Fernando Gago até venceu o recente Trofeo de Campeones, o que vale pouco diante da dimensão dos fracassos.

A primeira partida na Bombonera havia terminado sem gols, mas ofereceu certos recursos. O Boca Juniors foi melhor no primeiro tempo e só no segundo tempo o Racing equilibrou, mas com as melhores chances dos xeneizes. Esperava-se que a Academia fizesse mais dentro do Cilindro de Avellaneda nesta quarta. E o time começou bem, com um primeiro tempo dominante, acertando inclusive uma bola na trave. Contudo, os racinguistas caíram de ritmo e os xeneizes melhoraram na segunda etapa, inclusive levando mais perigo. Não foi uma partida vistosa nem de longe, mas a única finalização no alvo foi dos boquenses. E, com um goleiro especialista na marca da cal, o time de Jorge Almirón se aproveitou dessa força para avançar.

Racing melhor, mas sem o gol

A grande novidade do Racing na escalação era a presença de Juan Fernando Quintero, herói do River Plate na Libertadores de 2018. O colombiano compunha o ataque com Maximiliano Romero e Agustín Ojeda. O lateral Gastón Martirena e o meio-campista Juan Nardoni foram outros promovidos ao 11 inicial. Mais atrás, destaque ao goleiro Gabriel Arias, protegido pela zaga formada por Gonzalo Piovi e Leonardo Sigali. O Boca Juniors, por sua vez, tinha que se virar sem o garoto Valentín Barco, destaque na classificação contra o Nacional de Montevidéu. Edinson Cavani era acompanhado por Miguel Merentiel no ataque. A liderança cabia também a Sergio Romero no gol e Marcos Rojo na zaga. Luis Advíncula e Frank Fabra eram escapes importantes nas alas, enquanto os garotos Cristian Medina e Ezequiel Fernández pintavam no meio.

O Cilindro ofereceu um recebimento de arrepiar antes da partida. E o pontapé inicial até atrasou, por causa do papel picado no gramado. O Racing quase correspondeu à torcida logo de cara. Aos três minutos, Maxi Romero saiu de cara para o gol e tirou do alcance de Sergio Romero. Parou na trave. A Academia ditava o ritmo do jogo nos primeiros minutos, com seu meio-campo prevalecendo. O Boca Juniors só conseguiu avançar ao ataque por volta dos dez minutos, com bolas longas e alguns passes perigosos. Cavani buscava o jogo e auxiliava na melhora do time.

Os sustos acordaram novamente o Racing por volta dos 20 minutos. Ojeda dava trabalho nas arrancadas pela esquerda e Aníbal Moreno arriscava as finalizações. Quintero também garantia um toque diferente com sua visão de jogo pela direita e, aos 22, achou Moreno na área. Sergio Romero saiu nos pés do adversário para abafar. Era uma partida de algumas chegadas, mas muito perde e ganha na intermediária. Os times tinham dificuldades de criar oportunidades concretas. Os racinguistas seguiam mais presentes no campo de ataque, mas só voltaram a assustar de verdade aos 39. Num lance de Ojeda pela linha de fundo, o passe rasteiro chegou limpo para Quintero. O colombiano chutou de primeira e a bola passou muito perto da trave. Não era um clássico de tanta qualidade, mais brigado e pegado.

Boca equilibra, ainda sem o gol

O Boca Juniors voltou para o segundo tempo com Marcelo Weigandt na defesa e Lucas Janson no ataque, mas não que a partida tenha melhorado de nível. O Racing continuava com mais atitude num duelo travado. Uma rara chance pintou para os xeneizes aos nove minutos. Advíncula ajeitou uma bola de cabeça, para a infiltração de Cavani. O veterano bateu de primeira, mas não pegou em cheio na bola e carimbou o goleiro Arias. E se os racinguistas não conseguiam transformar posse em lances ofensivos, o time ainda perderia Aníbal Moreno. O meio-campista saiu lesionado, às lágrimas, substituído por Baltasar Rodríguez aos 17.

Num segundo tempo equilibrado, o Boca Juniors se mostrava mais capaz de punir a ineficiência do Racing. Quase o gol veio num lance fortuito aos 23, em cobrança de falta frontal que atravessou a área sem ninguém completar e saiu ao lado da trave. Os racinguistas prenderam a respiração. Ainda assim, a falta de qualidade no desfecho das jogadas atravancava o clássico. Os principais lances vinham em chutes travados ou cruzamentos sem destinatário. Gabriel Hauche e Agustín Almendra tentaram dar nova luz à Academia a partir dos 34. O Boca voltou a mexer aos 41, com Jonathan Campuzano, quando também entrou Roger Martínez, herói racinguista na fase anterior. Faltou tempo e também capacidade para algum impacto na arrastada reta final.

Romero se agiganta

A disputa por pênaltis começou com o Boca Juniors na marca da cal. O garoto Exequiel Zeballos entrou no fim só para bater o penal e mandou no canto para abrir o placar. Nem demorou para Romero brilhar. Saltou para espalmar a pancada de Piovi, no primeiro tiro do Racing. A vantagem xeneize aumentou na sequência, com Janson, enquanto Quintero descontou à Academia. Cavani bateu com segurança para fazer o terceiro do Boca, dando mais tranquilidade para Romero parar Sigali e realizar sua segunda defesa. Por fim, coube a Rojo fechar a série e classificar os xeneizes.

 

O Boca Juniors soma 18 semifinais de Libertadores, de volta a essa fase pela primeira vez desde 2020. Será um duelo cheio de história contra o Palmeiras, com favoritismo dos brasileiros, mas altas doses de experiência aos argentinos. Nos pênaltis, os xeneizes vão passando fases. Já o Racing amarga mais um insucesso nas quartas de final da Libertadores. A Academia não sabe o que é uma semifinal do torneio desde 1997. São três quedas nas quartas desde então, além de outras quatro nas oitavas.

Como ficou o chaveamento

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.
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