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Everson deu importantes declarações contra o racismo, ao cobrar mais ação da Conmebol

"Esperamos que isso não fique mais uma vez só em nota de esclarecimento", declarou o goleiro Everson, após novo caso de racismo na Libertadores

O racismo se repete de uma maneira execrável nos estádios de futebol, em episódios que não se limitam apenas à Europa. De maneira crescente, são registrados ataques racistas a torcedores e a jogadores nas competições da América do Sul – tanto na Libertadores quanto na Sul-Americana. Infelizmente, virou lugar-comum as imagens de manifestações racistas de vizinhos sobretudo contra brasileiros. Mais um caso aconteceu nesta terça-feira, em Assunção: enquanto o goleiro Everson dava entrevista à beira do campo, após o Libertad 1×1 Atlético Mineiro no Defensores del Chacho, foi alvo de ofensas de cunho racial. Um grupo de torcedores imitou macacos em direção ao arqueiro, um dos destaques na classificação do Galo na noite.

Na saída do estádio, Everson abordou o assunto em entrevista à reportagem da ESPN. O goleiro do Atlético demonstrou muita lucidez, não apenas por evitar uma reação que impedisse o cinegrafista do clube de registrar as imagens do crime, como também por cobrar uma postura mais incisiva das entidades responsáveis. Impressiona a inação da Conmebol, quase sempre com ações não mais do que cosméticas. Falta mais cobrança e mais incisividade – também das demais federações, dos clubes e da própria imprensa. Não existe tolerância para o racismo, mas a impressão é de que isso se repete na Libertadores e na Sul-Americana.

Como se deu o episódio de racismo no Paraguai

“Mais uma vez, um caso de racismo no nosso continente. Isso não é só aqui no Paraguai: é na Argentina, no Chile… Todos os nossos países vizinhos ainda têm isso com nós, brasileiros. Infelizmente aconteceu mais uma vez comigo. Eu procurei me manter mais concentrado pra poder dar a entrevista, pra atender a todos, mas eu vi que nosso cinegrafista estava filmando. Eu procurei não fazer nenhum gesto, manter a calma, deixar que eles fizessem o que estavam fazendo e que o nosso cinegrafista filmasse pra termos imagens, mais uma vez comprovando o que estamos passando por conta do racismo”, relatou Everson.

“Não é a primeira vez no Paraguai, e infelizmente não vai ser a última. Hoje o caso é comigo. É ter paciência, saber que todos somos de carne e osso, cada um tem sua etnia, seu estilo, seu modo de se vestir, seu tipo de cabelo, seu tipo de barba. Precisamos de um pouco mais de compaixão do próximo para vivermos sem isso. Sabemos que é um assunto delicado, mas, no que depender de mim, eu vou buscar meus direitos para que, pelo menos comigo, isso não possa acontecer mais uma vez”, complementou o goleiro.

Punições mais severas e luta pelos direitos

“Esperamos que isso não fique mais uma vez só em nota de esclarecimento. A gente sabe que já aconteceu com outros jogadores, com outros clubes, e às vezes só vem uma nota de esclarecimento. Enquanto não houver medidas mais drásticas, como perda de mando, perda de pontos, perda até de uma disputa de Libertadores numa próxima ocasião, infelizmente não vai mudar. A gente espera uma medida um pouco mais severa pra que se diminua esses casos, porque infelizmente está só aumentando”, salientou Everson.

Perguntado sobre o que aconteceu mais recentemente com Vinícius Júnior, Everson enfatizou a importância de lutar pelos próprios direitos: “Infelizmente eu já passei por alguns casos, em rede social, até um caso entre linhas… Sempre vou lutar pelos meus direitos – como cidadão, como pessoa, como pai de família. Estou aqui representando um clube, sou pai de família, tenho meus filhos também que infelizmente podem estar vendo isso. Então a gente espera que tenha um pouco mais de medidas severas para que a gente possa ter um mundo melhor”.

Atlético entregou imagens à Conmebol

Em suas redes sociais, o Atlético Mineiro se posicionou contra o racismo e enfatizou que as imagens foram entregues à Conmebol: “Indignação é a palavra que define o sentimento do Galo diante das manifestações racistas de torcedores do Libertad, dirigidas ao goleiro Everson. Punições realmente severas precisam ser aplicadas para que essas cenas covardes e inadmissíveis, vistas no Defensores del Chaco, não aconteçam nos estádios da América do Sul. Ao nosso paredão e multicampeão Everson, o carinho e a admiração de toda a Massa Atleticana. O Atlético registrou imagens dos lamentáveis insultos racistas e o diretor de futebol do Clube, Rodrigo Caetano, as encaminhou de imediato ao delegado da partida, para dar conhecimento do ocorrido à Conmebol”.

O Galo também prestou uma homenagem a Everson, decisivo na classificação às oitavas de final da Libertadores por suas ótimas defesas no Defensores del Chaco: “Da família real, de negro, como eu sou, o príncipe guerreiro que defende o gol! Mais uma noite de grandes defesas do nosso goleiro, decisivo na classificação. Temos orgulho do seu talento, da sua origem e do que você representa dentro e fora de campo, Everson!”.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.
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