Libertadores

A final da Copa do Brasil de 1992 é desejo de vingança do Fluminense contra o Inter na Libertadores

Pênalti admitidamente inexistente deu título ao Inter, e Fluminense quer vingar decisão com classificação na Libertadores no mesmo Beira-Rio

Se agora decidem uma vaga na final da Libertadores, Fluminense e Internacional já se enfrentaram no mesmo Beira-Rio em uma final nacional. Em 1992, pela Copa do Brasil, um jogo recheado de polêmicas fez do estádio colorado palco de uma das grandes frustrações da história do Tricolor. Os erros de arbitragem mantiveram o Flu na fila de títulos e abriram uma ferida que pode ser fechada nesta quarta (4), às 21h30 (de Brasília).

O jogo marcado por polêmicas envolvendo o árbitro José Aparecido de Oliveira, morto em junho deste ano, ficou para a história. E o Fluminense terá a oportunidade de “vingar” aquele confronto em 2023. Após o 2 a 2 no jogo de ida, quem vencer no mesmo Beira-Rio irá à final da Libertadores.

— A arbitragem foi fundamental. A gente fez nossa parte. Ganhamos em casa, estávamos fazendo o jogo. Nos garfaram. Tiraram nosso título. Agora é torcer para que o Fluminense faça no Beira Rio o que não fizemos em 1992 para ganhar esse título da Libertadores no Maracanã — declarou o ex-lateral Lira, um dos grandes jogadores do time de 1992.

A Copa do Brasil podia não ser a mesma dos tempos atuais, mas valia bastante para Flu e Inter naquele momento. A vaga na Libertadores, na verdade, era o grande chamariz da competição.

— A gente pensava realmente, que além da taça, isso daria a oportunidade de jogar a Libertadores. Em 1986, no Bangu, eu era juvenil ainda. E foi tirada de nós essa oportunidade. Seria um título grande e que ainda nos daria isso. Uma Copa do Brasil pelo Fluminense seria um sonho, mas jogar a Libertadores, naquela época, era mais ainda. Quando o jogo ia rolando no Beira-Rio e o resultado era nosso, já pensávamos em Boca, River, Nacional e Peñarol — lembrou Julinho, “12º jogador” do Flu naquela campanha.

Copa do Brasil era valiosa… para o Fluminense

Criada em 1989, a Copa do Brasil ainda era encarada de uma forma diferente. Muitas equipes jogavam com reservas, outras priorizavam os campeonatos estaduais, que à época eram disputados no final do ano, bem como o mata-mata. O Brasileirão ainda era na primeira parte do ano, sem uma fórmula estabelecida.

Tanto que os jornais da época valorizavam mais a vaga na Libertadores do que o próprio título. Aliás, antes de uma remodelação e valorização financeira da competição pela CBF, muitas vezes o torneio era chamado de “caminho mais curto” para a competição internacional.

Fluminense do craque Bobô decidiria "vaga na Libertadores" na final da Copa do Brasil - Foto: Reprodução/Acervo O Globo
Fluminense do craque Bobô decidiria “vaga na Libertadores” na final da Copa do Brasil – Foto: Reprodução/Acervo O Globo

O Fluminense, magoado pelas decepções no Brasileirão de 1988 e 1991, quando parou nas semifinais, além do Campeonato Carioca de 1991, não era campeão desde 1985, quando conquistou o Estadual. Na fila, passou a encarar a competição como grande oportunidade de voltar a gritar “É campeão!”.

— Sempre fui Fluminense. Uma vez ouvi um depoimento do Deley, que aquele Fluminense de 83/84/85, antes daquele período vitorioso e marcante, aquela geração não era muito reconhecida, muito valorizada. Eram muitos jogadores que ainda não tinham projeção à nível nacional. Formaram um grande grupo, e o gol do Assis aos 45 do segundo tempo talvez tenha sido a chave e o grande diferencial para que as outras conquistas viessem. Faltou para nós aquele título — disse Wagner, atacante do time de 1992 e apelidado de “Tanque” pelos tricolores.

Campanha do Fluminense era invicta até o Beira-Rio

A equipe estreou eliminando o Picos, do Piauí, e depois enfrentou o Sergipe, no único jogo em que não venceu nas Laranjeiras. Mas foi quando eliminou o atual campeão Criciúma, nas quartas de final, com direito a 3 a 0 no Heriberto Hulse lotado, que o foco no clube mudou.

Atrás de Vasco, Flamengo e Botafogo no Carioca, fez da Copa do Brasil de 1992 seu principal objetivo. Nas semifinais, viria o Sport, e depois de vencer nas Laranjeiras, o Flu arrancou empate na Ilha do Retiro para chegar invicto à decisão.

Hoje chamado de Manoel Schwartz e sem receber jogos desde 2003, o Estádio das Laranjeiras foi o grande fator do Fluminense naquela competição. Com gramado reformado e sempre lotado, o campo por pouco não ficou de fora da final.

Uma decisão da CBF modificou a partida para São Januário — o Maracanã estava fechado por conta da queda de parte das arquibancadas em um Flamengo x Botafogo naquele ano —, o que desagradou o Tricolor. A diretoria ameaçou pedir uma liminar para não jogar no estádio do Vasco e foi ao STJD para garantir a partida em sua casa. Com uma vitória nos tribunais, garantiu o direito de jogar nas Laranjeiras (o que era permitido no regulamento à época), onde venceu o primeiro jogo da decisão por 2 a 1, com gols de Wagner e Ézio.

O Fluminense viajava a Porto Alegre e jogava pelo empate no Beira-Rio, o que aconteceu até os 43 minutos do segundo tempo, quando José Aparecido de Oliveira, que já havia expulsado Zé Teodoro com dois amarelos por cera, viu pênalti de Souza em Pinga. Na cobrança, Célio Silva bateu Jefferson e deu o título aos colorados.

Arbitragem erra e gera tristeza no Fluminense

A arbitragem confusa de José Aparecido de Oliveira, morto em junho de 2023, enfureceu os jogadores do Fluminense. A expulsão de Zé Teodoro, o pênalti inexistente e muitas decisões estranhas fizeram até o calmo Ézio se exasperar.

— Todo o Brasil viu o absurdo que foi o jogo. O Internacional poderia até vencer, mas não da maneira como aconteceu, que foi simplesmente lamentável — disse o jogador, que viu o capitão Vica, campeão em 1984 e 1985 pelo clube, resumir o sentimento à beira de campo — Foi um roubo! — contou, ao Jornal O Globo.

Reportagem de O Globo no dia seguinte ao jogo mostra técnico, dirigentes e jogadores do Fluminense revoltados com arbitragem - Reprodução/Acervo O Globo
Fluminense ficou revoltado com arbitragem da decisão da Copa do Brasil de 1992 – Reprodução/Acervo O Globo

Muita coisa foi relembrada por integrantes do time vice-campeão em 1993. Wagner reviu o jogo na semana passada e recordou que nem mesmo a cobrança de falta que originou o pênalti no fim do jogo deveria ter acontecido.

— Depois de assistir o jogo, tudo ficou ainda mais nítido, e isso se tornou mais incômodo. A falta que resultou na marcação do pênalti também não existiu. Na narração do Galvão Bueno, ele mesmo diz que inventaram a falta.

Na transmissão disponível no YouTube, a partir de 1h24min, é possível ouvir o narrador, então na Rede OM, dizendo: “Tive a impressão que não houve falta”.

Do banco de reservas, Julinho via coisas estranhas em campo, como a calma colorada e sorrisos excessivos do lado adversário.

— Eles estavam muito tranquilos no jogo, parecia que já estava tudo armado. Era nítido que o Inter sabia que aconteceria alguma coisa. Isso não era comum para quem estava atrás do placar — disse.

Já Lira é mais acintoso na reclamação. Para o ex-jogador, o Fluminense foi “garfado” no Beira-Rio.

— Teve má intenção da arbitragem. Não acredito que foi sem querer. Nos roubaram, na cara dura. Demos nosso melhor, mas a arbitragem nos irritou. Foi a pior coisa que poderia acontecer. Tirar um título de um clube como o Fluminense, uma Copa do Brasil, levaria para a Libertadores, ficamos loucos. Temos certeza que teve alguma sacanagem, alguma interferência nesse jogo — opinou.

Fato é que o próprio zagueiro Pinga admitiu que o lance não foi faltoso.

— O Luciano bateu a falta, e eu tentei dominar a bola. Ela acabou escapulindo, e eu estava perdendo o ângulo do chute. Aí percebi a marcação de um jogador do Flu. Houve um raspão, mas que não era o suficiente para me derrubar. Só que aí eu me atirei, e o árbitro acabou marcando —, admitiu Pinga em entrevista ao Lance, em 2005.

Juiz do jogo foi expulso do avião do Fluminense

O então lateral-esquerdo era um dos mais revoltados já em campo. Aparecido colocou na súmula que foi agredido por ele e o zagueiro Souza, que na lembrança de Julinho, entrou enfurecido no vestiário. “Ele socou todas as vidraças, cortou a mão, estava louco, muito triste, chorava muito”.

Lira negou as agressões e acusou a Polícia Militar de agredi-lo. No dia seguinte, ele reconheceu um dos policiais e abriu o processo, que depois, acabou arquivado.

Jogadores do Fluminense expulsaram José Aparecido de Oliveira do avião após final da Copa do Brasil de 1992 - Foto: Reprodução/Acervo O Globo
Jogadores do Fluminense expulsaram José Aparecido de Oliveira do avião após final da Copa do Brasil de 1992 – Foto: Reprodução/Acervo O Globo

No dia seguinte, José Aparecido de Oliveira embarcou no mesmo avião que a delegação do Fluminense. Mas não voou até seu destino.

— Eu e Lira estávamos bem atrás dele no avião. O Lira deu um chute na poltrona dele, a aeromoça veio, eu me levantei, e o comandante ordenou: “ou sai ele, ou sai a delegação do Fluminense”. Claro que quem saiu foi ele. Anos depois, ele pediu desculpas pelo erro e o Pinga admitiu que se jogou — disse Julinho, para ser complementado pelo amigo Lira:

— Foi uma sacanagem o que aconteceu, e nós deixamos de viver muita coisa por causa disso — afirmou o ex-lateral, que não se lembrava desta confusão, relatada no Jornal O Globo.

O título que faltou a Ézio no Fluminense

Depois de conquistar quatro estaduais dos primeiros seis na década de 1980 e o Campeonato Brasileiro de 1984, o Fluminense entrou em uma fase ruim. De 1986, quando deixou escapar o que seria o primeiro tetracampeonato estadual na “Era Maracanã” após um surto de dengue no elenco, passando pelas eliminações nas semifinais do Brasileirão em 1988 e 1991, o Tricolor entrou na fila. Nesse momento difícil, apenas um Super-Herói para dar jeito. E o Flu tinha um: Ézio.

Ezio foi um "super-herói" para o Fluminense nas vacas magras dos anos 1990 e ficou no quase na Copa do Brasil de 1992 - Foto: Reprodução/Twitter
Ezio foi um “super-herói” para o Fluminense nas vacas magras dos anos 1990 e ficou no quase na Copa do Brasil de 1992 – Foto: Reprodução/Twitter

Um dos grandes ídolos da história do clube, o centroavante viveu a época de vacas magras e conquistou apenas o Campeonato Carioca de 1995, já como reserva do ataque formado por Renato Gaúcho e Leonardo. Antes, entretanto, foi vice do Carioca em 1991 e 1993 e viu escapar, nos últimos minutos, o título da Copa do Brasil de 1992. Amigo de Ézio desde as divisões de base do Bangu, Julinho lamenta a “chance que lhe foi tirada”.

— Essa oportunidade foi tirada dele e de nós. Seria um título grande e que ainda nos daria uma classificação para a Libertadores. Uma Copa do Brasil pelo Fluminense seria um sonho. Só de pensar nisso, voltar no tempo, eu fico todo arrepiado. Seria a realização de um sonho. Foi muito frustrante, uma das maiores sacanagens que poderiam ter feito com um clube, fizeram com o Fluminense naquele dia — declarou Julinho.

Ézio comemora um de seus muitos gols sobre o Flamengo, de quem era Carrasco - Foto: Reprodução/Twitter
Ézio comemora um de seus muitos gols sobre o Flamengo, de quem era Carrasco – Foto: Reprodução/Twitter

Para muitos o melhor parceiro de ataque de Ézio no Fluminense, em time que ainda tinha Bobô como craque, o atacante Wagner relembra a tristeza do camisa 9.

— Eu prefiro acreditar que foi uma infelicidade do árbitro. Mas isso me marcou muito. Depois de assistir o jogo, isso acabou ficando ainda mais nítido, ainda mais incômodo. O Ézio foi o jogador com quem mais me identifiquei dentro de campo. Nossas características casavam bem. Seria uma conquista merecida para ele, por tudo o que ele representou para o clube e para a torcida nesse período. Todo mundo ficou muito triste, chorou, ele ficou arrasado — opinou.

Por um lance, Wagner acredita que a geração que ficou marcada pelo “quase” poderia ter embalado uma sequência de conquistas.

— Tenho que lamentar por mim, por ele e pelos outros jogadores. Talvez, ali, a gente tivesse tido um primeiro passo para consolidar um grupo assim como foi nos anos 1980. Uma vez vi o Deley falar sobre a formação do time multicampeão de 1984, e tudo começa num lance do Assis, no final do Fla-Flu em 1983. Nossa história poderia e deveria ter sido diferente.

Em 2012, com a classificação nas oitavas de final da Libertadores, o Tricolor já conseguiu saborear algo menos amargo. Depois, em 2016, não teve piedade do adversário na última rodada do Brasileirão e rebaixou o Inter. Agora, 31 anos depois, o Fluminense tem nova chance de se vingar do Internacional.

— Vou torcer que seja uma vitória no fim do jogo, com uma jogada duvidosa, para vingar 92 (risos). Vou me sentir com um sentimento de justiça. É o que dá para fazer — brincou Wagner, o “Tanque”, atacante do Fluminense em 1992 que é torcedor do clube e teve passagem pelo Inter.

Foto de Caio Blois

Caio Blois

Caio Blois nasceu no Rio de Janeiro (RJ) e se formou em Jornalismo na UFRJ em 2017. É pós-graduado em Comunicação e cursa mestrado em Gestão do Desporto na Universidade de Lisboa. Antes de escrever para Trivela, passou por O Globo, UOL, O Estado de S. Paulo, GE, ESPN Brasil e TNT Sports.
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