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Forlán se despede da Celeste com a gratidão de ter resgatado o orgulho dos uruguaios

A carreira de Diego Forlán é repleta de altos e baixos. Do estouro no Independiente, o prodígio naufragou no Manchester United. Recuperou espaço no Villarreal, conquistando a idolatria da torcida e até mesmo a Chuteira de Ouro, algo que repetiria no Atlético de Madrid. Mas, depois, decepcionaria na Internazionale e no Internacional, antes de ser rebaixado com o Cerezo Osaka. Nem mesmo na seleção uruguaia Forlán foi sempre idolatrado. No entanto, ele ajudou a resgatar um orgulho perdido pela Celeste durante muito tempo. Por isso mesmo, consegue se despedir da equipe nacional como unanimidade, mesmo sendo coadjuvante na última Copa. Como uma verdadeira lenda, por tudo o que construiu.

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A história de Forlán com a seleção do Uruguai começou em 2002, quando o atacante tinha apenas 22 anos. A boa fase no Independiente foi suficiente para credenciá-lo à Copa do Mundo, mesmo recebendo a primeira convocação apenas meses antes. E, ainda que a Celeste tenha caído na primeira fase, o garoto saiu do banco para deixar a sua marca no empate contra Senegal. O primeiro passo em uma história que se tornaria grandiosa.

O início do camisa 10 contou com vários percalços. Parou diante do Brasil nas semifinais de duas Copas Américas seguidas e acabou de fora do Mundial de 2006, mesmo anotando seis gols na campanha, ao sucumbir para a Austrália na repescagem. A redenção só começaria a se desenhar durante as Eliminatórias da Copa de 2010. Outra vez Forlán liderou o time, com sete gols, mas não passou da vaga na repescagem. O jogo decisivo aconteceria contra a Costa Rica. E o retorno da Celeste ao Mundial foi confirmado dentro do Centenario lotado.

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Forlán viveu o torneio de sua vida na África do Sul. Liderando o jovem ataque formado por Luis Suárez e Cavani, o camisa 10 pensava o jogo e brilhava nas finalizações. Anotou o gol do time no épico contra Gana, assim como quase liderou a reação no jogaço contra a Holanda na semifinal. Despediu-se do torneio com um golaço de voleio contra a Alemanha, apesar da derrota na decisão do terceiro lugar. Acabou como um dos artilheiros, premiado pelo gol mais bonito e também com a Bola de Ouro de melhor jogador – algo que só Nasazzi havia ganhado na história do futebol uruguaio, e posteriormente, pelo que fez na Copa de 1930.

Mais importante, contudo, foi a maneira como Forlán ajudou a reerguer a cabeça da Celeste, após décadas em segundo plano. A campanha até a semifinal da Copa não acontecia desde 1970. Nem mesmo a primorosa geração de Francescoli, Sosa e Aguilera conseguira no Mundial de 1990, em que era apontada como uma das favoritas. O elenco de 2010 era bem menos técnico, mas mais aguerrido. Vinte anos depois, o maestro Óscar Tabárez estava mais experiente para conduzir um grupo que incorporava a raça uruguaia e ainda tinha o talento visível de seus atacantes. Naquele momento, sobretudo do camisa 10. Criaram uma identificação enorme com a própria população, recebidos com festa na volta ao país.

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Pois Forlán ainda fez mais em 2011. Venceu a Copa América, encerrando um hiato de 16 anos da Celeste e ainda comemorando dentro da casa da rival Argentina, após eliminá-la nas quartas de final. O atacante recebeu críticas ao longo da campanha, mas guardou o seu futebol justamente para a decisão, anotando dois gols nos 3 a 0 sobre o Paraguai. Repetiu o gesto de seu pai e de seu avô materno, ao conquistar também a taça continental, e quebrou o recorde histórico de Héctor Scarone na artilharia da seleção, que durava desde 1932 – ainda que Luis Suárez o tenha ultrapassado meses depois. Por fim, ainda teria as Eliminatórias e a Copa de 2014, já à sombra de Suárez e Cavani. Seus últimos momentos na seleção, chegando a 112 partidas, mais do que qualquer outro.

Aos 35 anos, Forlán oficializou o seu adeus da Celeste, mesmo sem jogar desde a eliminação para a Colômbia na Copa – e, de fato, merece agora uma grande despedida no Centenario. Em talento, pode ter sido menor que Francescoli ou Recoba. Sua importância, todavia, supera a de alguns dos maiores craques uruguaios. Em Copas, somente os eternos bicampeões mundiais fizeram mais do que o atacante, o que já é um feito enorme para ele. De qualquer maneira, a sua maior conquista não se sentiu nos estádios sul-africanos, mas continua se repetindo nas ruas uruguaias. A gratidão do povo charrua por seus vencedores de 2010 não se encerrará tão cedo. Sorrisos que brilham bem mais do que a Bola de Ouro do camisa 10.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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