América do Sul

Fluminense exorciza fantasma de 2008 e lava a alma também dos que não estão mais aqui

Jogadores homenageiam torcedores — e jogadores — do Fluminense que sofreram com a LDU no passado. Alguns não estão mais aqui, mas viram o Tricolor lavar a alma com o título da Recopa

O Fluminense unificou a América. Campeão da Libertadores em 2023, o Tricolor conquistou a Recopa Sul-Americana em 2024 e reina absoluto no continente. Após anos de tristezas, o clube se tornou o recordista de taças internacionais no Maracanã, e depois da obsessão, deu fim também ao seu maior pesadelo: a LDU. A vitória lavou a alma também daqueles que não estão mais aqui.

A Trivelacontou histórias de torcedores do Fluminense que comemoraram o título da Libertadores de 2023 por seus entes queridos que já não mais estavam neste plano. Depois da tristeza de 2008, quando perdeu a mesma competição em casa, o Tricolor já exorcizara muitos fantasmas.

Mas faltava um. Três letras, uma sigla. LDU. Agora não falta mais.

O ídolo Germán Cano dedicou o título da Recopa aos jogadores de 2008 e 2009, e também aos tricolores que não puderam, em vida, tirar esse espinho da garganta.

— A gente sabe que o Fluminense tem uma história diferente com a LDU por tudo o que aconteceu. Acho que ficou marcado agora nosso presente para a torcida, para que as coisas aconteçam. Campeões da Libertadores no Maracanã, Recopa agora. Quero dedicar essa Recopa aos jogadores que não conseguiram levantar a taça naquele momento, e também quem não está mais entre nós. Sofreram como todos sofrem. Essa vitória é para eles.

Fluminense e LDU protagonizam mais uma final épica na América do Sul

Com o roteiro cinematográfico que se espera do encontro entre as duas equipes, o Fluminense venceu o jogo de volta da Recopa por 2 a 0, com dois gols de Jhon Arias. O Tricolor faturou o título literalmente aos 45 do segundo tempo, minuto em que o colombiano balançou as redes do setor sul do Maracanã e o fez explodir.

O grito entalado na garganta não era de agora. Fazia 15 anos da última vez. Por Libertadores, em 2008, e Copa Sul-Americana, em 2009, deu LDU. As vitórias por goleada na altitude de Quito fizeram os equatorianos prevalecerem. Em 2024, o resultado foi magro no Casablanca: 1 a 0 para os donos da casa. Gol chorado por centímetros no fim do jogo de uma atuação ruim dos mandantes.

 

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Altitude lá, cêra aqui. Os melhores jogadores da LDU no confronto não vestiam o bonito uniforme branco do clube da capital do Equador. Eram a natureza e o antijogo. A Conmebol, claro, permitiu. Até que Jhon Arias decidiu dar fim ao pesadelo.

Arias comemora o gol do título da Recopa Sul-Americana do Fluminense que lavou a alma dos tricolores - até dos que não estão mais aqui (Foto: Icon Sport)
Arias comemora gol do título do Fluminense na Recopa que lavou a alma dos tricolores – até os que não estão mais aqui (Foto: Iconsport)

Um pênalti para lavar a alma do Fluminense e fazer justiça

O primeiro gol de Arias foi de cabeça, aos 30, completando cruzamento de Samuel Xavier. O que parecia uma reação virou drama nos minutos seguintes, quando John Kennedy foi expulso e deixou o Fluminense com 10.

Mas o Tricolor não se abalou. A torcida cantava mais alto no Maracanã. E o segundo gol saiu. No bico da grande área, aos 42, Renato Augusto recebeu e foi derrubado. Pênalti.

Na mesma marca de cal, para ressignificar de vez tudo aquilo que o Fluminense vivera. Lá estava Arias. E o colombiano fez o gol que lavou a alma do clube — merecido por tudo o que vivenciou desde sua chegada ao Rio de Janeiro.

— Quando cheguei aqui, Arias era um talento imenso que só precisava de ajuda para dar conta de todo esse talento que tinha. Aos poucos ele foi reconhecendo a capacidade e tendo mais confiança naquilo que já tinha de talento. Além do talento, também é uma pessoa excepcional. É um menino muito sensível, culto, inteligente e das pessoas que melhor me leem. Não foi uma conexão fácil. Fomos indo, indo, indo e o negócio pegou. Ele ajuda o time a empurrar para frente e para cima. Ele está numa curva ascendente e sem parada. É um jogador muito diferente, que joga com alegria, confiança, com felicidade e convive com isso. E isso exemplifica muito quem muda a vida por causa do futebol. É uma pessoa que tem a autoestima totalmente em dia. É muito gratificante ver isso — afirmou Fernando Diniz, em coletiva.

Felipe Melo prometeu título por tricolores que não estavam mais ali

O Fluminense divulgou imagens da preleção para o jogo no vestiário. Em discurso inflamado, o capitão Felipe Melo citara os tricolores que sofreram em 2008 e 2009 como motivação para mais uma conquista. O Flu venceu a Recopa, e o zagueiro de 40 anos se emocionou após o jogo.

— Falei no vestiário que hoje a gente não jogava só pela nossa família ou pelo torcedor. Mas jogamos pela memória de muitos que estavam em 2008 e 2009, e que hoje estavam sendo representados por pai, marido, mulher. É um time de guerreiros — disse, à ESPN.

Coube a ele levantar a merecida taça. Depois de muita história no futebol, Felipe encerrará sua carreira como um gigante em seu clube do coração. Um sonho muito melhor que os antigos pesadelos do Fluminense. Em suas palavras, “sonhar é um ato de fé”, e o Flu sonha sorrindo, pois é tempo de sorrir em Laranjeiras.

Foto de Caio Blois

Caio Blois

Caio Blois nasceu no Rio de Janeiro (RJ) e se formou em Jornalismo na UFRJ em 2017. É pós-graduado em Comunicação e cursa mestrado em Gestão do Desporto na Universidade de Lisboa. Antes de escrever para Trivela, passou por O Globo, UOL, O Estado de S. Paulo, GE, ESPN Brasil e TNT Sports.
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