De olho na Copa inchada, Caribe quer se separar da Concacaf e isso pode afetar a Conmebol
O inchaço da Copa do Mundo de 32 para 48 seleções pode causar uma rachadura na Concacaf. A Caribbean Football Union (CFA) é uma das associações mais atuantes na política da entidade que dirige o futebol na América do Norte e Central, mesmo sem ter grandes sucessos esportivos. Não por acaso, teve, recentemente, dois presidentes da Concacaf. Também não por acaso, os dois acabaram presos no Fifagate. Só que a CFA, de olho no aumento de vagas aprovado para a Copa do Mundo, quer se desligar da Concacaf. E mais do que as vagas na Copa, a associação sabe que pode ganhar muito politicamente.
LEIA TAMBÉM: Até que ponto o aumento da Copa também não banaliza a prometida “festa das nações”?
O poder do Caribe na Concacaf
Para entender a força política da Concacaf, é preciso primeiro entender como está dividida a Concacaf. São três associações dentro da entidade:
– North American Football Union (NAFU): inclui três países, com justamente os dois mais fortes, México e Estados Unidos, além do Canadá;
- Unión Centroamericana de Fútbol (UNCAF): tem sete membros, com alguns países que estão sempre beliscando vagas em Copas. Fazem parte desta associação Belize, Costa Rica, El Salvador, Guatemala, Honduras, Nicarágua e Panamá;
– Caribbean Football Union (CFU): com sede na Jamaica, tem 31 países membros. Com tantos países membros, a maioria, portanto, da Concacaf, não é difícil entender a sua força política. São muitos votos em uma confederação pequena.
LEIA TAMBÉM: Por política e por dinheiro, Copa do Mundo deve aumentar para 48 seleções
Poder político desproporcional á força esportiva
A Caribbean Football Union (CFA) é uma das mais organizadas associações de futebol do mundo, mesmo submetida à Concacaf. Não que seja um modelo de gestão, pelo contrário. A CFA é conhecida por ter dirigentes poderosos e o mais proeminente deles foi Jack Warner, de Trinidad e Tobago, conhecido por sua força política tanto quanto pelos escândalos de corrupção.
Em 2011, Warner abdicou da presidência da Concacaf para não ser investigado pela Fifa comandada por Joseph Blatter, no que pareceu um grande acordo para ninguém expor nada. Isso porque, na época, ficou provado que Mohamed Bin Hamman, então candidado a presidente da Fifa, subornou membros da CFU com a intermediação de Warner. O objetivo era compra de votos na eleição da Fifa. É importante lembrar aqui: na eleição da entidade máxima do futebol, cada país representa um voto. Portanto, o Caribe é maior, por exemplo, que a América do Sul inteira.
Warner pode ter escapado de uma investigação na época de Blatter, ainda em 2011, mas quando o Fifagate caiu nas mãos do Departamento de Justiça dos Estados Unidos, as autoridades não foram tão lenientes. O FBI prendeu o trinitino no escândalo Fifagate por fraude, extorsão e lavagem de dinheiro.
O seu substituto na Concacaf seria Lisle Austin, de Barbados, mas ele sequer chegou a assumir o cargo: foi suspenso pelo Comitê Executivo da própria Concacaf e banido pelo Comitê Disciplinar da Fifa. Isso porque no dia que assumiu, ele tentou tirar Chuck Blazer do cargo de secretário-geral. A Concacaf, pelo seu comitê executivo, impediu. Blazer acabaria sendo uma peça-chave do Fifagate como um dos principais denunciadores do esquema – o que aconteceu justamente por ele ter sido pego cometendo crimes relacionados ao caso.
Jeffrey Webb, das Ilhas Cayman, assumiu o comando da Concacaf em 2012 com o discurso de limpar a entidade da corrupção – porque este foi o motivo que derrubou Warner, seu antecessor. Só que o que o FBI descobriu é que ele manteve os esquemas de corrupção. Foi preso e se declarou culpado dos mesmos crimes de Warner: fraude, extorsão e lavagem de dinheiro. Foi, claro, banido pelo Comitê de Ética da Fifa. Foi o último presidente do Caribe na entidade até este momento.
Depois de Webb, quem assumiu foi Alfredo Hawit, de Honduras (que, obviamente, não faz parte do Caribe). Ele assumiu em maio de 2015, em meio ao escândalo do Fifagate, mas em dezembro do mesmo ano acabou preso em Zurique com alegações de corrupção, também pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos. Um ano depois, ele foi banido do futebol pelo Comitê de Ética da Fifa.
Desde o dia 12 de maio de 2016, o presidente da Concacaf é Victor Montagliani, do Canadá. É um dos vice-presidentes da Fifa atualmente, além de presidente da Associação de Futebol do Canadá. Na eleição que venceu, o canadense venceu Larry Mussunden, de Bermuda – outro país do Caribe.
LEIA MAIS: Como começou o Fifagate, maior escândalo da história da Fifa
O poder do Caribe no futebol é desproporcional diante da sua força esportiva. E tornar a CFU uma confederação faria com que o Caribe fosse, esportivamente, como a Oceania. Muitos países, mas nenhum deles com uma força em campo tão grande que possa competir em competições do mais alto nível internacional. Seleções como Jamaica e Trinidad e Tobago seriam evidentemente beneficiados, porque ganhariam ainda mais força e, possivelmente, um desses iria para a Copa. Com algum tempo e investimento, um país como Cuba e Haiti também têm potencial, mas ainda longe de seleções como Honduras e Panamá.
O Caribe independente seria politicamente mais forte que a Concacaf, pelo número de países, assim como também teria mais peso nesse sentido que a Conmebol. A confederação sul-americana, aliás, é uma das menores em termos de filiados do mundo, o que a torna pouco atraente para os olhos de quem comanda a Fifa. São apenas 10 votos, mesmo que reúna nove títulos mundiais com Brasil, Argentina e Uruguai.
Com a Copa do Mundo de 48 seleções e uma aprovação da separação, o Caribe estima que poderia ganhar, talvez até duas vagas – talvez uma vaga direta e outra em repescagem, por exemplo. De qualquer forma, é tentador para uma associação que concentra um poder tão grande, mesmo que em campo suas seleções sejam fracas.
LEIA MAIS: Entenda por que os Estados Unidos foram responsáveis pela prisão de dirigentes da Fifa
Impacto na Conmebol
Curiosamente, o que foi ventilado na Fifa é justamente a união da Conmebol com a Concacaf, em parte porque houve manifestação de preocupação de executivos sul-americanos que as Eliminatórias se tornariam pouco atraentes com seis países classificados diretamente e mais uma vaga na repescagem. Ainda há muita resistência a essa ideia, especialmente dos dirigentes sul-americanos. Só que o Caribe ganhando força e independência pode mudar isso.
Sem o Caribe, a Concacaf se enfraquece muito politicamente. Seu número de membros seria muito pequeno para ter uma votação expressiva na Fifa e a confederação não tem títulos. A Conmebol, por sua vez, tem a força política dos seus nove títulos mundiais, além a importância esportiva dos seus clubes. Em termos de quantidade de votos, a Conmebol apita pouco em termos de Fifa.
Sem o Caribe, a união com a Concacaf se torna mais atraente do ponto de vista esportivo. Não haverá mais as seleções e clubes de menor expressão. Ao mesmo tempo, a força política da Conmebol se uniria com a força financeira de Estados Unidos, México e Canadá, especialmente. As seleções da América Central, sem contar o Caribe, não estão muito distantes das seleções de menor nível da América do Sul. Em termos técnicos, o impacto seria menor sem o Caribe. E a força que a Concacaf e a Conmebol ganhariam seria enorme. Inclusive para ter Eliminatórias e uma Libertadores unificada, um produto extremamente atraente em termos de TV.
Além de tudo isso, vale lembrar que os Estados Unidos querem uma nova edição da Copa América unificada, conforme relatou Martín Fernandez no Globoesporte.com. Sunil Gulati, presidente da US Soccer, a federação de futebol dos Estados Unidos, quer uma mesma edição especial da Copa América em 2020.
Se o Caribe for adiante com a ideia de se separar da Concacaf, talvez união entre Conmebol e Concacaf, hoje rechaçada por dirigentes das duas confederações, se torne mais interessante. Alejandro Dominguez, presidente da Conmebol, e Victor Montagliani, da Concacaf, são reticentes à ideia de unir as duas confederações. Isso pode mudar com o movimento após a aprovação da Copa mais inchada e essa possível separação do Caribe. Mas é claro que a disputa por poder nos bastidores é a primeira prioridade, e não as consequências em campo.
LEIA MAIS: Como a Copa América Centenário pode unir Concacaf e Conmebol para além das seleções



