América do Sul
Tendência

Bielsa: “Não tiveram que me convencer. O Uruguai tem com o que alimentar a fantasia”

O técnico argentino deu um tradicional show na sua entrevista de apresentação, falando sobre estilo de jogo, sonhos e ídolos

Marcelo Bielsa foi apresentado como o novo técnico do Uruguai e, normalmente bem específico sobre os projetos que abraça, afirmou que não precisou ser convencido a aceitar o cargo, o seu terceiro no futebol de seleções. Sem trabalhar desde que deixou o Leeds há pouco mais de um ano, passou esse tempo tentando incorporar novos métodos e disse que usará a próxima Data Fifa, com amistosos contra Nicarágua e Cuba, para conhecer jogadores dos quais ainda tem poucas informações.

Bielsa, o quarto treinador estrangeiro da seleção uruguaia, comandou Argentina e Chile e retorna ao futebol sul-americano após 12 anos na Europa, onde teve boas passagens por Athletic Bilbao, Olympique de Marseille e Leeds. A especulação de que assumiria os charruas começou quase imediatamente após a demissão de Diego Alonso.

Digamos que as negociações com El Loco nem sempre são muito simples, mas parece que dessa vez a Federação Uruguaia não teve tanto trabalho. “Não tiveram que me convencer. Eu quase diria que foi o contrário. Meu desejo de pertencer a este projeto tem dois extremos muito convincentes para mim: um são os jogadores que o Uruguai tem. Eu gosto do grupo de jogadores que representou o Uruguai nos últimos anos. E o outro é o destinatário do trabalho de uma seleção, que é o cidadão comum do país em questão”, disse Bielsa.

“Uma coisa é o sonho, outra é a consciência. Há países que se tomam consciência de sua força, de seu potencial, têm menos possibilidades de construir por meio da ilusão. Há outros países que a tomada de consciência os autoriza a pensar no máximo, e não é um sonho, mas uma realidade. Há países que combinam as duas coisas: que têm recursos, antecedentes, e isso potencializa a fantasia, a ilusão, a perspectiva. Acredito que o Uruguai é do grupo do meio: pode fantasiar e tem com o que alimentar essa fantasia”, acrescentou o grande frasista argentino.

O grande ponto de interrogação em torno da contratação de Bielsa são os possíveis atritos do casamento entre o estilo expansivo e complexo do argentino e a tradição uruguaia de um jogo mais bruto, o que nem sempre se manifestou tão claramente durante a era Tabárez. Mas é verdade que a seleção uruguaia apostava mais em individualidades, bola parada e ligação direta em seu sistema ofensivo, e Bielsa gosta de uma ideia mais coletiva e de troca de passes.

“Impor um estilo é a combinação das intenções do treinador, as possibilidades do jogador de concretizar a proposta e o tempo necessário de desenvolvimento para que a conjugação desses elementos se cristalize. Uma coisa que os técnicos não podem fazer é atuar ao contrário do que pensam e sentem porque, como precisam convencer, ser sincero é inerente à sedução de propor e de que o outro aceite. Quando o Uruguai jogar com o Chile, o time se reunirá na terça-feira e jogará na quinta-feira. Então, se eu disser que a obtenção do estilo se obtém em dois dias, nos quais ninguém pode gastar energia porque precisa conservá-la para o jogo, você teria condições de descobrir que eu o estou enganando”, afirmou.

“Os grandes jogadores não precisam de muito tempo para assimilar um estilo. Os grandes de verdade conseguem fazê-lo quase instantaneamente se o estilo os representa. A forma com que penso futebol, eu a considero muito assimilável pelos jogadores com os quais imagino a construção do time. Eu me permito acreditar que não será uma tarefa tão difícil”, completou.

O último trabalho de Bielsa foi com o Leeds. Conseguiu a promoção à Premier League e fez uma ótima primeira temporada na elite, mas o desgaste acabou levando à sua demissão, em fevereiro de 2022. Desde então, ele tem estudado, claro.

“Faz muitos anos que não comando seleções, mas o futebol mudou. Os jogadores mudaram e os recursos de treinamento mudaram. Dentro das minhas limitações, sempre tento incorporar o novo. Para isso, preciso me convencer de que o novo substitui o anterior com algo melhor. Fiquei mais de um ano sem trabalhar e usei esse tempo para entender esses recursos (novos). Além disso, sempre trabalho com pessoas que têm 20 ou 30 anos a menos que eu e que me impedem de impor ideias velhas”, disse.

A saída de Óscar Tabárez não foi o único sinal de fim de ciclo de uma seleção uruguaia extremamente bem sucedida na última década. Jogadores importantes, como Edinson Cavani, Luis Suárez, Fernando Muslera, Diego Godín e Martín Cáceres também estão se aproximando do fim das suas carreiras. Bielsa não quis entrar em detalhes sobre os seus planos para os veteranos.

“Eu não falei com eles, com cada um deles. Acredito que tenho que estabelecer um diálogo, um contato. Escutar, ser escutado, e depois a inevitável tarefa de decidir, se for necessário fazê-lo, por um lado ou por outro. Não tenho uma posição prévia estabelecida e, no caso desses jogadores, que estão claramente identificados pela idade, acredito que não seria prudente falar sem ter conversado com eles. Eu sou muito respeitoso com ídolos porque eles são patrimônios do povo. O ídolo é um metal precioso para os mais pobres. Jamais faria conscientemente algo que pudesse danificar um ídolo”, prometeu.

Durante as negociações, Bielsa já começou a trabalhar e compilou uma lista com três ou quatro jogadores por posição. Em um primeiro momento, tentará convocar os que menos conhece para acompanhá-los no dia a dia. “Para terminar de conhecer um jogador, você precisa de proximidade durante um ciclo de treinamentos. Usarei esses nove dias de junho para me familiarizar com os que conheço menos. Há jogadores que, embora não os tenha comandado, o aprofundamento da análise é natural de tanto vê-los jogar. Há outros que são menos visíveis. Será isso que mais determinará a construção da próxima convocação. Em setembro, será tudo ou nada, com as avaliações encerradas. É uma oportunidade de conviver durante nove ou dez dias com jogadores em um cenário que não permite isso com frequência, então para mim é valioso poder começar o trabalho com essa perspectiva”, encerrou o treinador.

As Eliminatórias Sul-Americanas para a Copa do Mundo de 2026 começarão no próximo mês de setembro. A tabela foi mantida com a mesma ordem da edição anterior. O Uruguai estreia em casa contra o Chile e depois enfrenta o Equador como visitante. Mesmo com a expansão do Mundial para 48 seleções, o formato de pontos corridos também continua, agora com seis classificados diretamente, em vez de quatro, e uma seleção na repescagem.

Foto de Bruno Bonsanti

Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo