América do Sul

O Uruguai anuncia o fim da era Óscar Tabárez na seleção: um ciclo transformador, mesmo que desgastado

A sequência de derrotas nas Eliminatórias provocou o fim de uma trajetória que durou 15 anos

A história ficará gravada. Óscar Tabárez se marcou como um dos maiores treinadores do futebol de seleções, pela longevidade à frente do Uruguai e também pela maneira como recuperou o brio dos charruas em sua segunda passagem à frente da equipe nacional. Recolocou os uruguaios numa semifinal de Copa do Mundo após 40 anos, reconquistou a Copa América depois de 16 e liderou outras tantas campanhas. Tirou leite de pedra em alguns momentos, assim como impulsionou os maiores talentos da geração que tinha em mãos. “El Proceso” arquitetado pelo Maestro permitiu uma restruturação profunda e uma revolução nas seleções nacionais, que resultaram numa pertinente revitalização da Celeste. Porém, como em toda relação, os desgastes acontecem. E diante do momento muito ruim da seleção uruguaia nas Eliminatórias, era natural questionar a continuidade de Tabárez. Nesta sexta, a federação local anunciou o fim de uma mentoria que durou 15 anos.

“O comitê executivo da AUF informa que resolveu finalizar o contrato do Sr. Óscar Washington Tabárez e dos demais membros da comissão técnica da seleção principal. Expressamos enfaticamente que esta decisão não implica em desconhecer a importante contribuição de Tabárez ao futebol uruguaio. Saudamos e reconhecemos as fundamentais conquistas esportivas obtidas nestes 15 anos, que colocaram novamente o Uruguai nos primeiros lugares do futebol mundial”, escreveu a federação, em sua nota oficial.

“Expressamos nosso respeito e reconhecimento ao profissionalismo e dedicação durante todo o processo de trabalho e o incomensurável legado que essa frutífera etapa deixa na história da seleção. O comitê executivo da AUF tomou essa difícil decisão em virtude das circunstâncias presentes, comprometido com o futuro próximo e a obtenção dos resultados que todos esperamos”, finalizam os dirigentes.

O desgaste recente

Oscar Tabárez, da seleção do Uruguai (AP Photo/Matilde Campodonico)

Talvez o maior erro de Tabárez tenha sido não perceber o momento ideal de parar. E a deixa para sua despedida parecia bastante concreta após a Copa do Mundo de 2018, quando o Uruguai fez uma campanha digna até as quartas de final e a saúde debilitada por uma doença degenerativa comprometia os afazeres do Maestro. Ainda assim, o treinador optou por renovar o seu contrato e a federação não quis virar as costas para o homem que reconduziu a Celeste ao topo. Desde então, os últimos três anos acrescentaram pouco às perspectivas dos charruas no futebol de seleções.

As participações do Uruguai nas duas últimas edições da Copa América não renderam muitas lembranças. A equipe agradou um pouco mais na fase de grupos em 2019, mas nas duas campanhas a eliminação veio nos pênaltis durante as quartas de final, respectivamente para Peru e Colômbia. Para piorar, a Celeste deixou de ser competitiva nas Eliminatórias da Copa, como se manteve ao longo do ciclo de Tabárez, ainda com certos altos e baixos anteriores. O começo da atual campanha não foi de todo ruim, alternando vitórias e derrotas, mas a sequência recente é péssima.

O Uruguai conquistou suas duas últimas vitórias nas Eliminatórias em setembro, quando derrotou em casa Bolívia e Equador. Nas duas Datas Fifa mais recentes, a Celeste virou um mero saco de pancadas. Os charruas somaram apenas um ponto nos últimos cinco compromissos, no empate contra a Colômbia. Desde então, são quatro derrotas, numa série negativa inédita para os uruguaios no qualificatório. Em outubro, as pancadas dadas por Argentina e Brasil fizeram Tabárez balançar no cargo. Já neste mês de novembro, a equipe sucumbiu em casa para a Argentina, num duelo em que poderia até ter arranjado o empate. Muito pior foram os 3 a 0 sofridos para a Bolívia em La Paz, numa atuação desencontrada, em que a pressão pela vitória era grande pela situação na tabela.

Perguntado depois da derrota se colocaria o cargo à disposição, Tabárez garantiu que não: “Não sou um profissional de fazer isso, assinei um contrato e esse tipo de decisões são tomadas em outro nível. E, se tomam, serão respeitadas como sempre fiz, porque há maneiras de se fazer as coisas. Não sei quem pode exigir que eu coloque o cargo à disposição depois de todo o tempo de trabalho que tive aqui. Não quero ir jogando a toalha. Não quero falar mais, porque diria algo que não seria conveniente”.

As perspectivas atuais

Óscar Tabárez, do Uruguai (Foto: Matilde Campodonico-Pool/Getty Images/One Football)

O Uruguai fechou a Data Fifa na sétima colocação das Eliminatórias, com 16 pontos. Não é uma situação completamente ruim, considerando que a Celeste permanece a um ponto de alcançar a Colômbia na quarta colocação e de entrar na zona de classificação direta. A tabela também oferece alguns jogos acessíveis nesta reta final, pegando o Paraguai fora, antes de compromissos em casa com Venezuela e Peru, até encerrar a participação encarando o Chile em Santiago. O problema é a falta de confiança de um time que apresenta pouco em campo e parece mesmo perder a ligação forte que tanto preponderou com Tabárez ao longo da jornada.

Olhando para o papel, o Uruguai atual não é tão pior que as equipes que fizeram história nas mãos de Tabárez na virada da década passada. Os protagonistas não rendem o mesmo e os muitos desfalques pesaram nesta Data Fifa, mas alguns setores estão até bem mais servidos que em outros períodos. O meio-campo, sobretudo, oferece mais recursos com jogadores em ascensão. Parte dos garotos é fruto do próprio “Processo” do Maestro, mas o treinador não necessariamente vinha encontrando um caminho para aproveitar da melhor maneira alguns desses novatos.

A própria insistência de Tabárez em certos nomes é questionável há tempos. Fernando Muslera nunca foi um goleiro que transmitia segurança e sequer testes parecem ocorrer na posição. Mesmo a defesa sofre com o ocaso de Diego Godín e permanência em diferentes posições de Martín Cáceres. E sem que Luis Suárez ou Edinson Cavani consigam carregar o time, como até chegou a acontecer em alguns períodos mais bem sucedidos recentes, a Celeste virou uma equipe bastante previsível. A federação, então, resolveu mudar antes que se percam todas as chances de se classificar à Copa do Mundo.

Diego Aguirre é o nome mais cotado para assumir o Uruguai. Possui uma ideia de jogo bastante diferente do que se aplica com Tabárez, mas é um discípulo do Maestro nos tempos em que foi o herói do Peñarol na conquista da Libertadores de 1987. O mais importante, neste momento, parece ser a chegada de uma nova liderança que consiga mudar os mecanismos da equipe e injete um novo gás nos jogadores. Mas não que as condições sejam tão boas, com tempo mínimo para treinar nas Datas Fifa de janeiro e março, além da própria relação de confiança que precisará ser construída à distância durante os próximos dois meses. Mais difícil será suplantar a aura de Tabárez em toda a estrutura, com sua personalidade claramente inserida nos corredores da seleção e um prestígio que não dependeu das trocas na presidência em 15 anos.

A dimensão de Tabárez

Óscar Tabarez, da Seleção do Uruguai

Se as críticas sobre Tabárez vinham sendo grandes nos últimos meses, a saída e a passagem do tempo devem ser suficientes para recolocá-lo no lugar que merece na história. Não se menospreza um trabalho que, somando também a primeira estadia de 1988 até a Copa de 1990, rendeu 224 partidas à frente dos charruas – o recorde histórico de um comandante à frente de uma mesma seleção. O legado e as boas lembranças ficam, especialmente pela maneira como o Maestro ensinou o Uruguai a redescobrir seu orgulho pela seleção – num país cujo senso coletivo gira bastante sobre a equipe nacional. Tal identificação se escancarou sobretudo naquele biênio mágico de 2010 a 2011. Com as glórias, vinham os valores e um próprio fortalecimento da coletividade.

O lado humano tantas vezes diferenciou Tabárez como treinador. A maneira como tratava seus jogadores e conduzia o elenco recebia mais elogios do que os aspectos táticos ou a capacidade técnica aprimorada. O talento parecia florescer justamente por esse clima favorável que preponderou por tanto tempo nos vestiários, e promovia um senso de solidariedade em que cada um se esfolava em campo pela vitória. De um time marcado por motins internos e tantas vezes refém de empresários, ressurgiu uma relação genuína com a identidade charrua.

“Eu não treino estrelas, eu treino pessoas. Entendo que a atenção que recebem da mídia internacional significa que são jogadores mais propensos a serem idolatrados e a serem vistos em um pedestal de idealização, mas isso não muda o fato de que treino pessoas, com sentimentos, além de afazeres e obrigações em comum. O futebol é um esporte coletivo, não individual. Quando quero ver estrelas, eu olho para o céu. Se você está disposto a formar um grupo sólido, deve começar dando o mesmo respeito ao famoso e àquele que não é. Felizmente, na seleção uruguaia provamos que isso é possível. Quando esses jogadores badalados têm senso de grupo e liderança positiva, as coisas acontecem de maneira mais fácil”, diria Tabárez, em 2013, à revista Blizzard.

“Eu acho que sigo aprendendo. Todos os dias, eu aprendo algo, especialmente quando se trata de futebol. Não sou eu que sento e dou lições aos meus jogadores. Dito isso, no futebol, eu acredito que ser um treinador é também ser um educador, porque antes de mais nada você está lidando com um grupo de pessoas. Eu penso muito ao vê-los encarando novos desafios e superando as expectativas. Penso por que isso acontece e quais as qualidades especiais que eles têm para produzir tal efeito. Neste processo de análise, eu aprendo. Alguns dizem que é se tornar mais experiente. Experiência, se você me pergunta, não é apenas esperar o tempo passar. Algumas vezes você associa experiência com idade, mas não há uma relação inequívoca entre os dois. Pessoas jovens que capitalizam rapidamente os eventos que acontecem podem ser experientes. Tudo é relativo. Mas há sempre uma chance para aprender, isso é certo”, filosofaria, na mesma entrevista.

Em 15 anos, Tabárez permitiu que 99 jogadores estreassem com a camisa celeste – muitos prontos a se tornarem lendas, como Suárez e Cavani. O chamado “Processo” desenhado pelo treinador permitiu extrair o máximo de talento possível de uma população diminuta, mas que vive pelo futebol. “A questão a se perguntar era clara: como podemos entender as reais chances do Uruguai como país no futebol? A análise foi bem clara: em um país de terceiro mundo, uma terra que exporta jogadores, temos que determinar um perfil de equipe. Não poderíamos apenas viver com base na glória do passado. Foi suficiente para olharmos para aos melhores times, ver como jogavam e o que faziam. É simples assim. Não basta olhar para eles, mas entendê-los e, depois, definir o perfil de jogador que se encaixe neste estilo”, apontaria também Tabárez, à Blizzard.

Desde o sub-15, o comandante já mantinha contato com os jogadores nas seleções de base e conduzia conversas no seio da federação. Também nessas equipes menores o desempenho teve um salto. E, tanto quanto os resultados nas grandes competições que referendam a grandeza de Tabárez, tal maneira de reinventar o próprio futebol uruguaio é a maior vitória de seu trabalho. Como ele mesmo diria na recepção em Montevidéu após a campanha em 2010: “O êxito não são só os resultados, mas as dificuldades que se passam para obtê-los, a luta permanente, o espírito de encarar os desafios e a valentia para superá-los. O caminho é a recompensa”.

No fim, o Uruguai redescobriu uma seleção que voltou a unir garra e qualidade, sem necessariamente precisar da violência, como tão comum em outros períodos. Que contava com uma defesa forte e um ataque baseado nas individualidades. Que parecia fazer jus às histórias contadas sobre 1930 e 1950. De um time que emendava Copas do Mundo diante da televisão, a Celeste reencontrou um caminho para se manter sempre presente na elite do futebol e com aplausos pela incrível forma como driblava as limitações populacionais geradas pelo próprio tamanho do Paisito, com seus 3,5 milhões de habitantes. Tal estabilidade, entretanto, acaba em xeque com o desgaste recente gerado pela falta de resultados e pelos riscos nas Eliminatórias – nada de tão novo numa seleção acostumada à repescagem, mas nunca com tantas derrotas seguidas. E com a confiança rompida, a saída de cena parece mesmo a melhor solução.

Aos 74 anos, Tabárez ganhará um merecido descanso. Poderá se dedicar à saúde e à família, embora pareça improvável que deseje se distanciar totalmente do futebol. Seu conhecimento e sua experiência ainda podem render outros trabalhos, especialmente honrando seu talento para lecionar. Que os resultados recentes virem as costas ao veterano, seus feitos sempre abrirão as portas quando quiser transmitir sua história. E história é algo que nunca faltará a Tabárez, depois de tudo o que ofereceu à Celeste.

“Não se termina nada, por sorte o futebol continua. Em um país que sonha sempre, é disso que se trata. Nenhuma atividade humana em paz convoca tanta gente como a Copa do Mundo. É uma festa. O mundo reconheceu certas coisas, sabem o que somos como país, que todas as coisas nos custam mais”, afirmou Tabárez, ainda em 2018 após a eliminação contra a França, num certo tom de profecia que também cabe às circunstâncias atuais. Por sorte, Maestro, o futebol continua e os grandes sempre serão reconhecidos. O sentimento não se apaga, e os sentimentos que o treinador ajudou a suscitar foram muitos. Seu “Uruguay Nomá”, gritado em diferentes circunstâncias e com mais força mesmo com todas as limitações físicas no banco de reservas na Rússia, ecoará por muito tempo.

“Quando era menino, jamais pensei que poderia ficar por tanto tempo na seleção do meu país. Além do mais, também não imaginava seguir um projeto com as ideias que trago faz tempo, que nos deu não só resultados, mas também permitiu coordenar as seleções de base com a principal”, declarou Tabárez, quando completou 200 jogos à frente da seleção em 2019. “Pessoalmente, eu desfruto com a minha família. Na idade que eu tenho, não acontece tão frequentemente que se siga no futebol e se trate de fazer coisas por seu país, então isso eu reconheço e agradeço. E também agradeço a todos que, nestes 200 jogos, foram os protagonistas. No futebol, mais importante do que qualquer treinador são os futebolistas”. Palavras que ganham ainda mais força nesta sexta de despedida.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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