O Uruguai embarca na loucura: Marcelo Bielsa é oficializado como novo técnico da Celeste
Bielsa era um nome dado como certo à frente do Uruguai, em acerto anunciado pela federação local nesta segunda-feira

O nome de Marcelo Bielsa esteve nas manchetes dos principais jornais uruguaios durante semanas. O acerto da federação local com o treinador se alinhou há muito tempo, mas com uma letárgica oficialização. Nem sempre os acordos com El Loco se concretizam, afinal. Porém, desta vez, Bielsa assinou os papéis e passará a vestir celeste. Nesta segunda-feira, a Associação Uruguaia de Futebol anunciou a contratação do argentino como novo comandante da equipe nacional. O veterano de 67 anos já esteve presente no centro de treinamentos dos charruas e iniciará o projeto local rumo à Copa do Mundo de 2026. Seus primeiros compromissos acontecerão em junho, com amistosos diante de Cuba e Nicarágua no Estádio Centenário.
Em suas redes sociais, a seleção uruguaia até brincou com a contratação. A Celeste publicou um vídeo em que compilava rumores sobre a chegada de Bielsa em programas de televisão e outros veículos de imprensa. Depois, passou a publicar uma série de imagens relacionadas ao argentino – como a caixa térmica em que costuma ficar sentado, uma área técnica cheia de passos e um quadro com orientações táticas. Isso até dar as boas vindas a Bielsa, também com frases célebres do veterano. Na próxima quarta-feira, acontecerá a primeira coletiva de imprensa de El Loco em Montevidéu.
Bielsa volta a trabalhar na América do Sul após 12 anos na Europa. O argentino teve momentos marcantes à frente de Athletic Bilbao, Olympique de Marseille e Leeds United, apesar dos fracassos com Lille e Lazio – onde não passou mais do que um par de dias. O retorno ao futebol de seleções reata o elo com as realizações do veterano à frente do Chile, onde foi bastante querido de 2007 a 2011. Além disso, também oferece uma nova chance após os seis anos em que esteve à frente da Argentina, de 1998 a 2004. Foi uma época lembrada pelo excelente futebol apresentado nas Eliminatórias e também pela conquista do ouro olímpico, mas bem mais manchada pelo fracasso na Copa do Mundo de 2002 e pela derrota na final da Copa América de 2004.
Já o Uruguai busca um treinador nascido fora do país apenas pela quarta vez em sua história. Marcelino Pérez, o pioneiro, era apenas nascido na Argentina e se mudou ainda na infância para o Uruguai. Juan Eduardo Hohberg nasceu em Córdoba e iniciou carreira como jogador no país vizinho, mas, antes de virar comandante da Celeste, fez história pelo Peñarol e pela própria seleção uruguaia. Por fim, a experiência mais marcante foi a mais recente – e também a mais decepcionante. Daniel Passarella não deixou saudades.
Passarella assumiu a Celeste em 1999, depois de ter dirigido a Argentina na Copa do Mundo de 1998 – e ser substituído pelo próprio Bielsa na Albiceleste. O ex-defensor ficou pouco mais de dois anos no cargo, mas longe de emplacar no Uruguai. A campanha instável nas Eliminatórias não gerava grande comoção ao seu redor, assim como havia resistência de imprensa e torcedores uruguaios. O pedido de demissão de Passarella aconteceu em fevereiro de 2001, diante da dificuldades para ter os jogadores liberados em suas convocações. Na época, o Kaiser era especulado na Internazionale e no Parma, o qual acabou assumindo por um breve período.
Aparentemente, Bielsa vai enfrentar uma resistência bem menor dos uruguaios neste momento. Há um entusiasmo inicial. Apesar do currículo com menos títulos do que fama, o argentino possui uma história comumente respeitada e aclamada dentro do futebol. É um personagem com sua dose de carisma, sua filosofia e também seu apreço pelo jogo ofensivo. Pode inclusive auxiliar no desenvolvimento de uma geração bem servida da Celeste, sobretudo em relação aos jogadores do meio-campo. Seria um acréscimo ao futebol pobre apresentado pela equipe nacional durante a última Copa do Mundo.
Por outro lado, Bielsa representa uma quebra. Sua ideia de futebol se distancia demais da tradição de “raça uruguaia”. Tudo bem que o projeto liderado por Óscar Tabárez neste século mostrou como os charruas não precisam ignorar sua garra para apresentar mais recursos dentro de campo e podem se dissociar da violência, mas ainda assim era uma equipe que florescia mais na base das individualidades do que de uma busca coletiva pelo ataque. Bielsa não costuma abrir mão de seus conceitos e, dentro disso, precisará lidar também com as limitações do elenco uruguaio. Precisará promover um trabalho de renovação, sobretudo diante do fim da carreira de Luis Suárez, Diego Godín e Edinson Cavani, os grandes símbolos da seleção na última década.
Até pela idade de Bielsa, é de se imaginar que a federação do Uruguai aposte num processo de transição. Nem de longe o argentino poderá conduzir a construção de uma linha de trabalho como a feita por Tabárez. Contudo, talvez El Loco ofereça bases para que seu sucessor siga uma direção mais próxima do que começará a fazer. Neste momento, a Celeste parece priorizar uma ideia de futebol, mas também com um investimento alto por toda a “grife” que Bielsa representa. De certa maneira, os uruguaios trazem outro foco diante do adeus de seus astros e também da participação decepcionante da equipe de Diego Alonso no Mundial do Catar.
Pensando em nomes do futebol uruguaio, pouca gente parecia qualificada neste momento para assumir a Celeste. Diego Alonso já foi uma aposta no novo, depois da longa caminhada com Tabárez. Outros de ascensão mais recente, como Guillermo Almada e Paulo Pezzolano, talvez precisem esperar um pouco mais. Bielsa ocupa uma lacuna onde não havia um candidato tão forte e também pode dar mais tempo para que os charruas consigam recalcular sua rota. Quem sabe, com uma direção a seguir, por mais que os trabalhos de El Loco também convivam com suas turbulências.
Fora do dia a dia e da pressão dos clubes, Bielsa pode aproveitar uma tranquilidade maior como a que teve no Chile. E não se nega a maneira como o argentino impactou positivamente na Roja, deixando as bases para o que viria a ser um bicampeonato de Copa América sob as ordens de Jorge Sampaoli e Juan Antonio Pizzi. Pode ser que o orgulho nacional dos charruas crie alguns ruídos em relação ao argentino. De qualquer forma, possui tarimba para aproveitar o legado de Tabárez e também visão para deixar suas próprias marcas. Seja lá o que acontecer, Bielsa garantirá manchetes em Montevidéu.
O objetivo do Uruguai é confirmar presença na Copa do Mundo de 2026 e beliscar uma boa campanha na Copa América de 2024. São objetivos próximos, até pelo aumento de vagas no Mundial. E as condições são razoáveis, diante do que pode fazer o grupo encabeçado por Federico Valverde e Ronald Araujo. O ponto é que, pelo bem ou pelo mal, Bielsa sempre provoca um terremoto. A seleção uruguaia se abre a essas sensações, num acerto que pôde ser bastante pensado pelos dirigentes e também pelos torcedores. El Loco é um personagem que quase todo mundo gosta de acompanhar à beira do campo, mas nem sempre é o mais querido em seu time. Caberá aos charruas sentirem isso na pele e torcerem pelo sucesso do veterano.
— Selección Uruguaya (@Uruguay) May 15, 2023



