Argentina

Vale (muito) ouvir o que diz Aimar sobre o futebol e seus conceitos – e, assim, sobre a vida

Pablo Aimar começa uma nova etapa de sua carreira. Vai treinar a seleção argentina sub-17. Vai tentar transmitir a muitos garotos aquilo que viveu ao longo de seus tempos como jogador – o peso da responsabilidade em ser uma promessa e se cumprir. Talvez pela imagem que deixou em campo, como um meia arisco e técnico, o veterano gere certas desconfianças sobre a nova empreitada. Puro preconceito. Basta abrir os ouvidos (ou, neste caso, os olhos) para o que pensa Aimar. Suas palavras transmitem uma lucidez imensa. Mais do que um técnico, passa a impressão de um filósofo da bola. Uma postura importante para quem vai viver de ensinar muitos pupilos na Albiceleste.

Abaixo, reproduzimos trechos da entrevista que Aimar concedeu a Sebastián Varela del Río e Ezequiel Scher, publicada na Página 12. Uma conversa de 70 minutos, em que o ex-meia abriu sua mente. E, como diz a abertura da matéria, o veterano fala em duas velocidades: uma mais ligeira e dinâmica; a outra, conceitualizando, aparecendo no esplendor de quando ia dar um passe genial. Alguém para se ouvir. Em tempos tão superficiais, visões profundas.

– O coletivismo do futebol

A equipe de futebol que consegue evitar o pensamento individual, prevalece. Há uma bola e 22 jogadores, e cada um fica com ela por três minutos em 90. Ou seja, cada um joga 87 minutos sem a bola. Então, se você consegue se mover para que um companheiro faça um gol, você é um gênio. Se você consegue dar a solução para que um companheiro saia na capa do jornal e você nem apareça, bárbaro, jogas para a equipe. Ao final, os melhores jogadores de futebol são os que fazem o outro jogar bem. E eu conheci caras assim, que não dizem nada, mas te fazem melhor. Você pode ter o melhor lateral direito do mundo, rápido como Usain Bolt e com técnica. Mas quando se tira a bola, se torna o pior do mundo. Assim, o que faz jogar bem, esse é um grande, ainda que não saia na capa do jornal.

Para aprender essa ideia de jogo coletivo, você precisa gostar do jogo. Você pode ter o melhor professor de guitarra, mas se não gosta de tocar… Quanto menor você pega o jogador, se tem essa paixão, melhor pode ter seu comprometimento. Eu gosto muito dessa parte do esporte. Porque teve gente que me ensinou e agora devo seguir esse caminho com as gerações mais jovens. Eu vivi com José Pékerman e é no dia de hoje que me lembro de seus ensinamentos. Parava o treino e me dizia: ‘Onde está a solução?’.

Pablo Aimar em comemoração de gol pelo River Plate em 1999 (AP Photo/Santiago Rios)

– A fama e o dinheiro

Digo aos garotos que isso não é mau. Querer melhorar como jogador não se contrapõe a tudo isso. Eu me arrependo de não ter desfrutado mais do lugar que ocupava. Imaginava que ia ficar sem dinheiro aos 60 anos e não me dava conta que estava com 20, que ali importava, porque depois a vida passa. O treino te leva três ou quatro horas, o dia tem 24. Depois, se apenas te importa o dinheiro, você está com problemas. Mas isso pode acontecer também com um advogado. Se apenas quer mudar de carro, não vai ser muito melhor no que faz. […] Não gosto desses que dizem ‘porque os garotos de agora..’. Talvez os garotos de agora vivam melhor que a gente. Vai saber. Não gosto do dogmatismo. Quantas vezes vão viver? Uma, igual a você. Depois, para trabalhar, me dá os que sentem a dor da derrota. Isso sim, jamais diria a alguém: ‘Cara, você está vivendo mal’.

– A paixão

Eu creio que só há uma maneira de conseguir a melhora de um jogador, e é a paixão. Sem isso, não há possibilidade de aproveitar. Sem paixão, no futebol não há nada. Precisamos desse espírito amador. Não se pode ir a um treino cumprir expediente. Por isso me custa acreditar nos bons jogadores que dizem que não gostam de futebol.  […] Conservar o amadorismo não significa não ter estratégias. Significa treinar com um sorriso. É filosófico, não de sistema.

– O tempo cada vez mais fugaz para acompanhar futebol

Há algumas partidas lindas para ver, mas cada vez menos. Somos a última geração que vê partidas inteiras. Porque estão mais acostumados ao efêmero. O jogo no PlayStation dura cinco ou sete minutos, apenas. Estão acostumados aos melhores momentos. A ver no celular os gols de todo o mundo. São vítimas desse estímulo. E nós seguimos vendo as coisas do jogo. Seguimos esperando uma jogadinha. Quando acontecem jogos divertidos, aí sim, aí se faz mais fácil.

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– Sobre imprensa e o tratamento ao outro

É preciso falar do jogo. Tudo o que se possa. Mas, para falar do jogo, é preciso amá-lo. É preciso jogá-lo. E não creio que isso implique em uma preparação acadêmica, porque realmente existem tantos lugares para entrar, que podemos estar todo o dia. Quem é que sabe de futebol? O que ganha? Eu creio que não. Eu creio que é o que sabe é aquele que mais ensinamentos deixa. Aí, começa a mãe de todas as conversas. Mas se fala de outras coisas. Menores, se você quiser. Mas que vendem mais.  As pessoas nunca mudam de canal ou fecham o jornal se aparece um escândalo. Talvez leiam primeiro isso. Não só no esporte.

Para sair disso, você precisa tratar de entender, mas é difícil. Como você pede a uma pessoa que trabalhou por dez horas que trate de entender a lógica disso? Se, ao final, ele quer sentar-se um pouco para descansar e que o entretenham. E, olha, eu também consumo alguma besteira. Acontece com todo mundo. Não há consciência do dano da mídia, porque as pessoas não incorporam o outro. Vivemos desconhecendo que existe o outro. Morrem de rir do outro. São poucos os que dizem: ‘Vou deixar atravessar a rua aquele cara, porque está parado há duas horas e vem passando 200 carros’. E quando deixa atravessar, há outro que tira sarro. Mas isso não ocorre só na imprensa ou só no futebol. O mundo é assim. O ser humano é um bicho complicado.

– Messi, seu fã declarado

É provável que o último Messi seja sempre o melhor. Você via uma partida dele aos 20 anos e não podia se distrair um segundo, porque driblava quatro de repente. Agora, mais velho, talvez não passe por um montão de rivais dez vezes por jogo. Faz duas vezes. Ou uma. Mas faz no momento que tem que fazer, no lugar em que tem que fazer. Toca quando tem que tocar. Recebe quando tem que receber. Você pode me perguntar qual era o melhor para ver. Eu vou te dizer que é o de 20. Mas o que joga melhor é o de agora. Depois, para dizer quem foi o melhor da história, há coisas que não posso medir, como as arbitragens, a grama, os rivais. Mas o Messi de agora, o que provoca a falta no lugar que quer para cobrar o tiro livre, esse é espetacular.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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