Uma seleção atípica

Qualquer que seja a seleção, um dos requisitos que se tem para um trabalho na base é de que ele tenha começo, meio e fim. Por fim, entenda-se fazer chegar alguns jogadores ao time principal. É essa, afirma Mano Menezes, a principal tarefa de Ney Franco à frente da equipe sub-20. Quando firmou tal ponto em seu planejamento para 2014, o ex-corintiano tinha em quem se inspirar, nos vizinhos ao lado, na Argentina.
Não é segredo para ninguém, assistir um Sub-Sei-Lá-O-Quê albiceleste é antever o futuro em sua essência. Há um trabalho integrado entre todas as seleções do país. Um atleta que hoje atua pelos juniores, amanhã estará no profissional. É assim que funciona a coisa. Ainda que um pouco de talento ajude, claro, nesse trampolim. Esse “plus a mais” não tem estado, no entanto, tão presente nos últimos anos.
Em 2009, a Argentina não conseguiu sequer a classificação para o Mundial da categoria. Ficou atrás da anfitriã Venezuela. Dois anos antes, no Paraguai, um gol de Lautaro Acosta nos acréscimos do jogo final contra o Uruguai selou a ida do grupo para Pequim e a abertura das portas para o bi olímpico.
Faltava algo a esses dois times. Um diferencial, talvez. À medida que o trabalho de Pekerman, Tocalli parecia se desgastar, a fonte de jovens promessas também parecia secar. Poucos jogadores realmente chegaram para esses torneios com alguma badalação. Na última edição, Eduardo Salvio, que, ao contrário de seus contemporâneos, já havia mostrado algo mais aqui e ali pelo juvenil, e Franco Zuculini. Não ia muito além disso. Cenário diferente de anos anteriores. Em 2003, Fernando Cavenaghi, Gonzalo Rodríguez, Leonardo Pisculichi e Marcelo Carrusca; em 2005, Lionel Messi, Pablo Barrientos, Mauro Boselli, Pablo Zabaleta e Lucas Biglia; e em 2007 Acosta, Pablo Mouche, Maximiliano Moralez y Ángel Di María.
Algumas temporadas depois, alguns nomes podem já não dizer muita coisa. Mas todos eram, naquela época, jogadores com certo prestígio entre os profissionais, um espaço já cavado em seus times, no noticiário. Nesse sentido, o que Walter Perazzo leva para o Peru? Pouco, muito pouco. Leonel Galeano, zagueiro campeão da Sul-Americana com o Independiente, Michael Hoyos, meia que participou da campanha do Estudiantes na Libertadores, e Rogelio Funes Mori, artilheiro do River.
Havia ainda a esperança de que Erik Lamela se juntasse ao trio. Outro jogador revelado em Núñez, seria mais ou menos como a resposta argentina a Neymar. Alguém de talento já reconhecido – é seguido pelo Milan –, passada clássica e futebol de gente grande. Não teve jeito, porém. Daniel Passarella, presidente millonario, que em outros tempos tanto reclamava da falta de cooperação dos clubes, resolveu não cedê-lo. Ele, Roberto Pereyra e Manuel Lanzini, todos jogadores de meio-campo que trariam equilíbrio para o grupo.
É aí que Brasil e Argentina se diferenciam. Quando se decidiu por Ney Franco, Mano pensou também no poder de convencimento junto aos times, para que eles entrassem junto na parada, enxergassem ali um projeto sério, capaz de catapultar seu jogador. Do outro lado do Rio da Prata, não. Não há essa parceria entre seleção e clubes.
Será assim, com aquilo que tem se ousado chamar de seleção atípica, que os argentinos darão a largada no Sul-Americano Sub-20, neste domingo, contra o Uruguai. Partida pra lá de complicada. Os charrúas possuem hoje um dos melhores trabalhos na base, com garotos de rodagem internacional jogando pelos juniores, caso de Polenta (Genoa), Cabrera (Atlético de Madrid), Barreto (Lazio) e Gallegos (Atlético de Madrid). Peru, Chile e Venezuela completam a chave.
Não é um grupo dos mais difíceis. Mas a Argentina também não é a mesma de outros tempos. A sua principal aposta, e que deverá ficar no banco de reservas, veio praticamente escondida do Paraguai, sob o nome de Juan Iturbe e status de novo Messi, e possui apenas 17 anos. E ainda tem os 2.360 metros de Arequipa. Uma situação atípica.



