Uma preleção potente serviu de combustível para o Centro Español, da quinta divisão, eliminar o Tigre na Copa Argentina
Apenas pela terceira vez na história, um time da quinta divisão conseguiu despachar um adversário da elite na Copa Argentina

A Copa Argentina é um torneio bastante aberto a surpresas. O regulamento facilita às zebras, com partida única em campo neutro. E entre tantos azarões que eliminaram times da elite nos últimos anos, um dos resultados mais inesperados da história da competição aconteceu nesta semana. O Centro Español figura apenas na quinta divisão do Campeonato Argentino e conseguiu bater o Tigre, da primeira. Depois do empate por 1 a 1, os nanicos avançaram com o triunfo por 5 a 4 nos pênaltis. E a preleção do capitão dos gallegos, Pablo Ocampos, ganhou muitos elogios no país pela força do discurso.
O Centro Español é um clube sediado na província de Buenos Aires, fundado em 1934 por imigrantes espanhóis que desejavam praticar diferentes esportes. Filiado à AFA desde os anos 1950, o time possui 61 temporadas disputadas na Primeira D do Campeonato Argentino, equivalente à quinta divisão. Nunca conquistou o acesso e se ausentou apenas em cinco edições do torneio, nas quais esteve desfiliado. Já na Copa Argentina, o costume dos gallegos era a eliminação nas fases iniciais.
A presença do Centro Español na atual Copa Argentina foi garantida graças à conquista de um torneio classificatório na Primeira D. Os gallegos foram campeões do Apertura, mas perderam a única vaga do acesso na decisão contra o Yupanqui – que, além do título e da promoção, se garantiu na Copa Argentina. A segunda vaga para a quinta divisão seria decidida no chamado Torneio Complemento. Foi aí que o Centro Español confirmou sua participação.
O duelo contra o Tigre era uma oportunidade e tanto. E isso ficou expresso na “arenga” do capitão Pablo Ocampos com os companheiros, na saída dos vestiários. “Não viemos para curtir, não viemos para participar, fizemos um sacrifício enorme. O futebol é por grana, por dinheiro, sabemos muito bem disso. Esse jogo é por um cheque, por um montão de dinheiro. Mas querem saber, rapazes? Há algo que não se pode comprar com nada, e é a glória. A glória não se pode comprar com nada, é o que leva por toda a vida gravada a fogo aqui dentro. Vão se passar os anos e você vai se lembrar por toda a vida”, afirmou.
“É por nossa família no estádio, é pela gente, é pelo esforço de cada dia, rapazes. Hoje vamos pensar em todos esses momentos. Quem te deu dinheiro para o ônibus, quem te deu as chuteiras, lembre-se quando era garoto. Estamos vivendo o maior momento futebolístico de todos! De todos! Vamos jogar contra um time da primeira divisão, pelo feijão na mesa, pela copa. Vamos deixá-los de fora. Nossos culhões são enormes. Confio em mim, confio em você, confio em você, confio em você…”, finalizou o capitão, enquanto batia no peito de cada companheiro, antes do grito final.
O Tigre abriu o placar logo no primeiro minuto, com Tomás Badaloni. O Centro Español resistiu, até empatar aos nove minutos do segundo tempo, com Felipe Senn. O goleiro Tabaré Benítez salvou as outras tentativas dos favoritos e garantiu a disputa por pênaltis. Na marca da cal, o Centro Español foi mais certeiro. Benítez terminou de se consagrar ao defender a batida de Mateo Retegui. E, mesmo depois de desperdiçar sua cobrança, o goleiro viu Lautaro Montoya salvá-lo ao chutar para fora nas alternadas e confirmar a surpresa, com o triunfo por 5 a 4 dos gallegos.
O Centro Español foi apenas o terceiro time da quinta divisão a eliminar um adversário da primeira na Copa Argentina. O primeiro a registrar tal feito foi o Lamadrid, em 2018, que passou pelo Banfield nos pênaltis. Já em 2019, o Real Pilar ganhou do Vélez nos 90 minutos, por 1 a 0. Também há dois antecedentes de classificados da quarta divisão: o Pacífico contra o Estudiantes em 2017 e o Dock Sud contra o Unión Santa Fe em 2020.
O Centro Español terá outra pedreira na segunda fase, o Defensa y Justicia. Porém, para um clube que ainda sonha em disputar pela primeira vez a quarta divisão, encarar outro adversário da elite representa demais. E as palavras de Ocampos demonstram como tal feito não é importante apenas para o clube que o conquista, mas também para os jogadores que talvez nunca mais vivam uma ocasião dessa importância, limitados ao futebol amador.



