Argentina

Tradicional figurante na elite argentina, o Platense encerrou o calvário de 22 anos longe da primeira divisão

O Campeonato Argentino celebrou, neste fim de semana, a volta de um clube tradicionalíssimo que há muito tempo estava distante da elite nacional: o Clube Atlético Platense. O Calamar não disputava a primeira divisão desde 1999 e, ainda assim, ocupa o 15° lugar na tabela histórica da liga profissional. Não que os marrons possuam grandes campanhas, com seu maior sucesso limitado a um vice-campeonato ainda nos tempos amadores, em 1916. No entanto, a equipe soma 74 participações na primeira prateleira do futebol argentino e revelou um bom número de talentos em suas categorias de base. O fim da espera de 22 anos, portanto, culminou numa grande comoção pelo renascimento de um time tão importante.

O Platense nasceu em 1905, no bairro de Recoleta, através de um grupo de estudantes. A garotada tinha botado dinheiro num páreo do Hipódromo Argentino e ganhou a aposta, aproveitando o prêmio para comprar um jogo de camisas e uma bola para jogar futebol. A cor marrom do uniforme, aliás, é uma referência ao cavalo Gay Simon. Naqueles primeiros anos também veio o apelido de Calamar: a equipe costumava mandar seus jogos num campo à beira do rio e suas melhores atuações aconteciam com o gramado enlameado. Assim, um jornalista afirmou que os jogadores se moviam como “lulas em sua tinta” – molusco que, em espanhol, se chama calamar. Em 1909, o time se filiou à federação argentina e começou a disputar as divisões de acesso.

O Platense fez sua estreia na elite do Campeonato Argentino em 1913. Três anos depois, a equipe acabou com o vice-campeonato, apenas quatro pontos atrás do Racing. O Calamar ainda sofreu divisões internas, mas seguiu participando da elite amadora da liga nacional. Já em 1931, os marrons contribuíram à adoção do profissionalismo no futebol argentino. Os desempenhos no campeonato a partir dos anos 1930 não eram tão brilhantes, apesar do surgimento de grandes ídolos. Nos anos 1940, despontariam Vicente Sayago (o maior artilheiro do clube na primeira divisão) e o goleiro Julio Cozzi (que foi titular da seleção na conquista da Copa América de 1947). Com eles, o time chegaria a ser terceiro colocado na liga em 1949, antes de fazer uma famosa turnê pela Europa.

O rebaixamento inédito do Platense aconteceu apenas em 1955. O clube esperaria nove anos até conquistar o acesso. No fim dos anos 1960, o Calamar ainda teve boas participações na elite, chegando às semifinais sob as ordens de Ángel Labruna. Porém, a instabilidade era maior, com novo descenso em 1971 e a promoção em 1976. A partir de então, seriam mais 23 anos na primeira divisão nacional. Um marco deste período foi a inauguração do novo estádio dos marrons, o Ciudad de Vicente López, em 1979.

A partir da década de 1980, o Platense quase sempre fez figuração no Campeonato Argentino, embora mais famosas fossem suas fugas espetaculares do rebaixamento – que valeram o apelido de “Fantasma do Descenso”. Um grande momento aconteceu em 1994, quando o Calamar liderou o Clausura por um período, mas perdeu fôlego e acabou em sexto. Ainda assim, o maior orgulho dos torcedores se concentrava nos jogadores que começaram nas categorias de base. David Trezeguet é o nome mais célebre de uma lista que inclui atletas com passagem pela seleção argentina – como Marcelo Espina e Darío Scotto. Até que, em 1997, o novo rebaixamento marcasse duas décadas adormecidas dos marrons.

O Platense ainda revelou jogadores relevantes a partir da virada do século, como Gonzalo Bergessio e Juan Mercier. Entretanto, o Calamar sequer teria estabilidade na Segundona. Foi rebaixado à terceira divisão em 2002, voltando à segunda em 2006, mas de novo caindo em 2010. Os marrons passariam outros oito anos na terceira divisão, com problemas econômicos e episódios de violência da barra. Isso até a ascensão atual começar em 2018, com o primeiro acesso da sequência. Depois da volta à segunda divisão, seriam mais três tentativas rumo ao fim do martírio neste janeiro de 2021.

Vice-líder na fase de classificação da Primeira B Nacional de 2020, o Platense precisou encarar os mata-matas para selar o acesso. A equipe primeiro ganhou do Deportivo Riestra nos pênaltis, antes de eliminar o Atlético de Rafaela (do artilheiro Claudio Bieler) na semifinal. A decisão ocorreu contra o Estudiantes de Río Cuarto – que já tinha disputado outra partida pelo acesso, por ter sido líder de sua chave na fase de classificação, mas perdeu a chance de subir nos pênaltis diante do Sarmiento de Junín.

A decisão para apontar o segundo clube a ascender aconteceu no Estádio Marcelo Bielsa, casa do Newell’s Old Boys. O Platense até abriu o placar em Rosario, com Matías Tissera, mas o Estudiantes melhorou na sequência do jogo e arrancou o empate por 1 a 1. No fim, a definição do acesso acabou nos pênaltis. O Estudiantes de Río Cuarto tinha Néstor Ortigoza, herói da Libertadores de 2014 no San Lorenzo, para abrir a série. No entanto, o Calamar foi mais competente na marca da cal e determinou a vitória por 4 a 2, que encerrou os 22 anos de descaminho. O goleiro Jorge de Oliveira, de 38 anos, acabou como salvador. Já tinha sido essencial na Terceirona de 2018 e, agora, pegou o penal que valeu o retorno à elite.

O Platense apostou em um treinador experiente para o acesso: Juan Manuel Llop, que jogou no famoso Newell’s da virada dos anos 1980 para os 1990. Em sua carreira como técnico, chegou a dirigir clubes como Racing e Huracán, além de trabalhar em diversos clubes sul-americanos, como Libertad e Barcelona de Guayaquil. Chegou em meio à pandemia e conseguiu construir um senso de grupo. Já dentro de campo, a aposta se deu em nomes experientes e pouco cotados na elite local – como Facundo Curuchet, Hernán Lamberti e Mauro Bogado. Outra figura importante é o atacante Daniel Vega, grande símbolo do Calamar neste calvário pelas divisões de acesso e que ocupa o posto de maior artilheiro do clube. Presente nos acessos de 2006 e 2018, viveria o ápice de sua história às vésperas de completar 40 anos.

“Estou chorando de alegria. Era a meta que me faltava como jogador. Durante a quarentena, pensei que minha carreira tinha acabado. ‘Para que vou seguir?’, eu me perguntei mais de mil vezes. Sonhava, sonhava e sonhava com esse dia. Tinha guardado no coração que precisava levar o Platense à primeira. Ser parte disso é a glória total. Depois de tantos anos de luta e sacrifício, eu renunciei à festa de aniversário da minha filha nesta semana para buscar esse objetivo. Tenho uma promessa feita, quero jogar uma partida na primeira divisão e nada mais. Só peço para que minha esteja presente”, comentou o emocionado Trapito Vega.

Apesar da pandemia e da necessidade de distanciamento, a conquista do Platense seria acompanhada por uma erupção nas ruas de Saavedra. Muita gente saiu para comemorar o momento que tanto ansiavam desde 1999. O Calamar atravessa uma fase mais bem gerida, inclusive já disputando a elite da liga nacional de basquete. De qualquer maneira, o futebol é a grande tradição e o grande orgulho dos marrons. A volta ao Campeonato Argentino traz muitas histórias à memória. E o Platense parece disposto a contar outras mais, quem sabe para ser novamente o “Fantasma do Rebaixamento” na primeira divisão.

 

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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