Argentina

Tevez anuncia seu adeus do Boca Juniors: o ídolo que sentiu, viveu, encarnou e glorificou a camisa xeneize

Aos 37 anos, Tevez decidiu dar um passo para trás e encerrou sua história na Bombonera

Uma era se encerra na Bombonera. Carlos Tevez anunciou sua saída do Boca Juniors nesta sexta-feira, para nunca mais vestir a camisa xeneize como jogador. O atacante de 37 anos participou de uma coletiva de imprensa com dirigentes do clube, para confirmar que acionou uma cláusula unilateral para romper seu contrato. Não encerra a carreira ainda, deixando aberta a possibilidade de atuar no exterior, mas não se vê mais usando azul y oro. Carlitos, que perdeu o pai recentemente, afirmou que a estafa mental o levou a tomar a decisão. Despede-se com uma das histórias mais bonitas e mais carnais que já se viveram em La Boca – e no futebol mundial.

Tevez vestiu a camisa do Boca Juniors em três passagens distintas. Surgiu como fenômeno na base, promovido ao time bicampeão da Libertadores em 2001 e permanecendo até 2004. Voltou como um gigante entre 2015 e 2016, antes da terceira estadia a partir de 2018. Estes últimos três anos tiveram momentos em que o velho craque não correspondia e parecia acabado para o futebol. Porém, também guardaram a maior apoteose em 2020. Foi quando Tevez de fato voltou e liderou os xeneizes ao seu último título. Aquela conquista do Campeonato Argentino ficará para sempre, com a vitória que valeu a ultrapassagem sobre o River Plate na rodada final, na última vez que a Bombonera esteve cheia antes da pandemia. O fim perfeito, mesmo sem ser a cena derradeira.

Nestas três passagens, Tevez conquistou 11 títulos. Teve uma Libertadores para chamar de sua, craque do time em 2003. Mas o que fica de sua história vai muito além das taças. São os gols, são as provocações contra o River, são as infinitas gotas de suor que deu para os xeneizes. Carlitos foi mais um torcedor em campo, fácil de identificar, por sua enorme entrega e por sua devoção à camisa. Mas que somava a paixão pela instituição também à enorme qualidade para lidar com a bola.

Tevez confessou que muita gente ainda pedia para que ele se despedisse apenas com a Bombonera cheia. A situação da pandemia na Argentina tornava esse sonho mais distante, considerando que seu contrato ia apenas até o fim do ano. O atacante também não tinha a melhor relação interna, apesar do final amigável. E estava claro como seu melhor futebol tinha ficado para trás. Faltava também a motivação, depois do doloroso adeus a seu pai em fevereiro. Carlitos confessou que a vida familiar pesou muito em sua avaliação. Deseja passar mais tempo com sua mãe, com sua esposa, com seus filhos.

“Fisicamente estou pronto para seguir, mas não mentalmente. Creio que a pandemia nos deixou assim, afetou a todos. Hoje minha família é a que mais necessita de mim e eu estou à disposição deles. Se falo que me aposento, talvez em três meses tenho vontade de jogar. Mas sei que no Boca não, porque não estou para jogar aqui. Minha carreira no país está terminada. Sempre disse que aqui só jogo no Boca”, comentou Tevez, na coletiva. Uma possibilidade é que jogue na MLS, com portas abertas no Atlanta United, treinado pelo amigo Gabriel Heinze.

“Não é uma decisão fácil. É um dos dias mais tristes da minha vida, mas creio que é a melhor decisão. O Boca é minha vida. Não posso falhar e, se não estou 100% mentalmente, tenho que dar um passo para trás”, complementou. “É triste que não vou mais botar a camisa do Boca, mas sempre estarei para o torcedor. Miguel Ángel Russo sabe tudo o que sofri nos últimos meses. Não era o mesmo Carlitos. Custava muito treinar e focar no mental. Sou de falar muito com meu corpo sobre tudo o que me passava. Depois da eliminação contra o Racing, avisei minha família. Deixei passar uns dias, mas seguia com esse sentimento. Aí disse a Román, ao presidente e a Miguel minha decisão”. Após a entrevista, Tevez foi flagrado caminhando abraçado com o diretor Juan Román Riquelme a passos calmos, numa cena bastante simbólica neste adeus.

A última versão de Tevez, de fato, podia não ser “o mesmo Carlitos”. Porém, de agora em diante, haverá apenas um Carlitos na memória do torcedor do Boca. Único. Um craque que deu incontáveis alegrias e que encarnou a identidade do clube. Carlitos conseguiu ser mais que um ídolo, porque os ídolos parecem intocáveis. Ele foi um filho xeneize, um irmão, que surgiu no seio dos seus e concretizou sonhos. São raros aqueles que representam tal sentimento e que se tornam um símbolo vivo da agremiação. A passagem do jogador se encerra, mas as lendas são para sempre.

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Abaixo, a carta que Tevez publicou em suas redes sociais:

“Pensei que esse momento nunca ia chegar. Mas estou aqui para comunicar ao povo do Boca que não vou seguir no clube. Não é uma despedida, mas um até logo, porque sempre vou estar lá para o torcedor, para o povo xeneize, não como jogador e sim como o Carlitos do povo”

“Digo que estou cheio e pleno com essa decisão, porque não tenho mais nada para dar. Como jogador, dei tudo de mim. Por isso estou feliz! Neste momento o Boca precisava de mim 120% e eu não estou mentalmente. Para mim, o Boca é o melhor clube do mundo! Meu pai era do Boca. Meus irmãos, minha mãe, minha mulher e meus filhos são do Boca. Não posso mentir a eles nem aos torcedores, por isso a decisão é pura e exclusivamente minha!”

“Essa é a verdade da minha decisão. O Boca te leva a dar o máximo e muito mais, e mentalmente não estou em condições de dar. Não tive nem tempo de viver o luto por meu pai e já estava jogando de novo. Assim é a exigência do Boca. Quero agradecer à direção, a toda a comissão técnica, aos meus companheiros, a todas as pessoas que trabalham no clube. Muito obrigado!”

“Mas, para mim, a maior alegria e satisfação é ficar com a lembrança mais linda que posso ter, que foi a última vez que nos vimos. Quando as pessoas gritavam como doidas ‘dá-lhe campeão’. Quando filhos, pais e avós se abraçavam e gritavam que éramos campeões. Não há nada mais lindo que essa imagem. A última ovação a Maradona num estádio. A última vez que meu pai me viu jogar bola e sair campeão. A última vez que vi meu pai chorar de alegria – porque sempre, desde o dia em que nasci, sou do Boca e vamos morrer sendo do Boca. Como disse, não há nada mais lindo e não necessito de mais para ser feliz”.

“Povo xeneize, não tenho palavras para agradecer tanto carinho, não sei se mereço. O que sei é que meu sangue não é vermelho, meu sangue sempre vai ser azul e amarelo! Até logo”

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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