Sobre sentimento de pertença

Pouco se fala sobre elas. Quando resolvem falar, elas também pouco revelam. São discretas, não gostam de aparecer, vivem à sombra de seus filhos. Quase sempre, na verdade, para seus filhos, se subordinando muitas vezes ao caminho que eles impõem. Não reclamam, pelo contrário. Ainda que o sentimento de pertença que vem acompanhado a essas mudanças da vida nem sempre as acompanhe. É o caso da mãe de Lionel Messi, por exemplo.
Celia Cuccitini largou Rosario, na Argentina, para viver em Barcelona há algum tempo. Primeiro, por força do futebol e, segundo, pelos problemas de saúde de seu filho. Sempre gostou de Barcelona, mas prefere Rosario. Em entrevista para uma belíssima matéria recente feita pelo jornal catalão La Vanguardia, fez questão de pousar para foto no mesmo prédio, em Rosario, que sua família mantém a Fundação Leo Messi.
Esse sentimento de pertença encontra eco em outras situações da vida. Sejam elas forçadas ou não. É o que enfrenta o River nesse momento, rebaixado para a segundona argentina e que se vê obrigado a correr atrás do prejuízo para voltar à elite. A briga para refazer esse caminho começou nesta semana, com a vitória por 1 a 0 sobre o Chacarita Juniors, em seu primeiro jogo no campeonato. Todos estão na torcida pelo retorno dos Millonarios. Governo, TV, dirigentes, clubes, torcedores rivais. Mesmo aqueles do Boca Juniors.
Segundo alguns, o presidente da federação local, Julio Grondona, joga junto com o time. Uma afirmação que pode ser tratada como leviana, mas que tem o seu fundo de verdade. Em 1940 e pouco, antes mesmo do nosso conhecido e sempre relembrado Maracanazo, Grondona atuou nas categorias de base da equipe portenha. Em entrevista à revista “El Gráfico”, Carlos Peucelle, um dos mentores da “La Máquina”, descreveu o futebol do todo poderoso do futebol argentino. “Um camisa 10 algo talentoso e bastante vago, que não gostava de correr”.
Grondona parecia promissor, bom de bola e talvez tivesse vaga nesse River que irá fazer uma espécie de mochilão pelo país, desbravando lugares nunca antes pensados. Nem mesmo por seus adversários. Faz parte. Don Julio era um jogador da base, carregava o mesmo DNA, o mesmo sentimento de pertença que, parte dos torcedores defendia, deveria pautar a formação do grupo para a disputa da segunda divisão. Não foi bem isso que o River fez – mesmo que se possa contra-argumentar que alguns dos atletas buscados pelo clube, caso de Cavenaghi e Chori Dominguez, tenham raízes no Monumental de Núñez.
O River deixou as suas categorias de base um pouco de lado. Fez dinheiro com Lamela, conversa para repassar Rogelio Funes Mori e vê Lanzini brilhar em sua estreia com o Fluminense. Sabe talvez que, no submundo do futebol argentino, pouco visitado pela grande imprensa, mas cada vez mais valorizado com a sua queda, o estilo de jogo é outro. As exigências são outras.
A propagada reforma do futebol argentino foi colocada de lado. Ao menos por enquanto. Pode voltar, não duvidaria. No entanto, é melhor não apostar nisso e fazer o seu papel entre aqueles que encorpam o espírito “aguante” temporada após temporada. Alguns clubes já passaram por esse calvário, quase todos eles, na verdade – exceção feita a Boca e Independiente. Alguns ainda passam, o próprio River pode testemunhar ao seu lado, com o Rosario Central partindo para mais um ano por ali, ainda que tenha contando em suas filas com a presença do artilheiro nem mais tão artilheiro Lucho Figueroa na linha de frente.



