Argentina

Sobre hierarquias e referências

Atacante de hierarquia. Termo bonito que apetece a muita gente, enche de brio. Não sabem muito por que, mas imaginam ser algo bom. No futebol, costuma estar ligado a jogadores que atuam lá na frente, como homens de referências, os tais centroavantes. Não carregam todos esses complementos – hierarquia, referência – por acaso. De certa forma, são os caras que ditam as regras no saldão da bola, os mais caros, procurados, de maior prestígio e, para alguns, supervalorizados.

Os franceses, sempre eles, querendo vir de encontro à corrente, vão por outro caminho. Mais notadamente, os lioneses. Sim, essa mesma turma que, até outro dia, chamava a atenção apenas por sua gastronomia e que hoje já se julga suficientemente importante para querer ensinar como se deve ou não comportar na janela, a de transferências.

São daqueles que aprendem com os erros. Anunciaram a sua chegada ao futebol de elite pagando 18 milhões de dólares ao ex-monegasco e catalão Sonny Anderson. Negócio da China? O presidente do OL, Jean-Michel Aulas, há de concordar. Tem muito pouco de lionês. Desde ali, o clube não se deixou mais enganar. Centroavante caro nem pensar. Gerard Houllier, hoje no Aston Villa, está aí para comprovar. Deixou o time em 2007 revoltado. Não entendia como uma equipe que negociara dois jogadores – Abidal e Malouda – por um total de 45 milhões não se incomodava em ir atrás de um desses caras qualquer de hierarquia.

Há gente que acredita que dá pra sobreviver na ausência deles. Aulas incluso. Alguns argentinos de La Plata já poderiam ter tarimbado a sua entrada no grupo a essa altura. Passaram todo um campeonato sem um 9. Tinham lá no ataque como referência para não sei o que Gata Fernández, um baixinho de pouca força física que chegara a ser rebaixado para os reservas. Não bastasse isso, ainda improvisado. Mesmo assim, deu jeito.

Fim de torneio, Estudiantes encerra sua campanha com um dos melhores ataques – e também uma das defesas menos vazadas da história. Um time completo, por assim dizer. A consagração de um projeto, da insistência numa ideia. Algo que viria, segundo o técnico Alejandro Sabella, mesmo sem o título. Dias antes da grande final – ou última rodada, como queira – já dizia aos jornalistas: “meus jogadores são campeões”. Por todas as dificuldades que superaram? Não quis entrar em detalhe.

Certo é que só chegaram lá, à oficialização daquilo tudo, por obra de um centroavante de 123 minutos jogados ao longo do campeonato e média de um gol marcado a cada meia hora. Foram pouco mais de 30 minutos contra o Arsenal de Sarandí. Suficiente para balançar as redes duas vezes – ainda que um dos gols tenha sido creditado a Fernández – e excluir a possibilidade de um jogo-extra para a decisão do Apertura.

O uruguaio Hernán Rodrigo López se consagrava como um dos heróis da conquista dos Pinchas. Apenas um dos. Mas alguém que incorporava bem o que fora essa equipe quando falamos em lesões – além dele, Orion, Braña, Verón, Desábato, Enzo Pérez perderam vários jogos –, superação – mesmo inexperientes Rojo, Michael Hoyos e Fede Fernández deram conta do recado –, perseverança – Angeleri, Cellay, Clemente Rodríguez, Sosa e Boselli foram embora –, regularidade – a equipe chegou a 85 pontos ao longo da temporada, 15 a mais que o Vélez, segundo colocado –, e confiança numa proposta – os rivais de Liniers apresentavam um futebol mais vistoso, mais ao gosto da imprensa, ainda assim, o Estudiantes seguia com a sua linha, se reinventava a cada dificuldade.

Mais ou menos como aconteceu ao longo desta década. Das ameaças de rebaixamento em seu início, passando pela promoção de gente como Angeleri, Sosa, Lugüercio, Carrusca e alcançando a quarta colocação que, em 2005, lhe garantiria o retorno a uma Libertadores depois de 22 anos. Por lá, eliminado pelo São Paulo, demonstrou ainda sentir o peso da ausência. Viu Simeone largar o barco pelo River, sentiram-se menores, mas ao mesmo tempo gratos pelo legado, pelo aparecimento de Pablo Piatti e Leandro Benítez, pelas vendas de Sosa e Pavone. Uma base assentava-se ali para sob o comando de Sabella, alguém de baixo perfil, que pouco aparece, requisitar o seu espaço, o seu papel na história. De hierarquia, referência para quem quiser chegar até lá. E 2011 ainda prevê novos capítulos de aprendizado.

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Equipe Trivela

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