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Schelotto e Gallardo: dois ídolos, dois campeões, dois lados da mesma moeda

Quando o apito final soar no Monumental de Núñez, Boca Juniors ou River Plate dará a volta olímpica do maior título de todos os tempos, a conquista que dificilmente será igualada. E no comando desse grande feito inevitavelmente estará um treinador muito identificado com o seu clube: Guillermo Barros Schelotto ou Marcelo Gallardo, dois lados da mesma moeda. Dois ídolos e dois super-campeões separados pela rivalidade. Dois homens que buscam, a partir deste sábado, a maior das glórias.

Cabeça quente – e inteligente

“Agi por impulso e perdi a razão”, explicou Marcelo Gallardo. “Diante de uma situação de tanta importância como uma semifinal de Libertadores, as emoções também jogam e jogaram contra mim”. A justificativa do técnico do River Plate refere-se à infração que ele cometeu em Porto Alegre ao, mesmo suspenso pela Conmebol, comunicar-se com seus auxiliares por meio de rádios e visitar os jogadores nos vestiários durante o intervalo. Novamente punido, pegou quatro partidas de gancho e, na primeira delas, não poderá sequer pisar o estádio adversário: a Bombonera, no jogo de ida da final da Libertadores.

Curiosamente, as frases de Gallardo poderiam se aplicar a outra semifinal sul-americana, àquela que até às 18h (Brasília) do próximo sábado permanece como o Superclássico mais importante de todos. Em 2004, capitão do River Plate, deu uma entrada por trás em Cascini, três minutos depois do gol de Rolando Schiavi na primeira partida da eliminatória, levou o cartão vermelho e deu início a um grande quebra-pau entre as equipes, no qual ele ainda arranhou o rosto do goleiro Abbondanzieri. Uma atitude intempestiva que custou sua ausência no duelo de volta, no qual o Boca Juniors passou à decisão.

Entre as duas ausências, a de 14 anos atrás deve ser a mais sentida. A qualidade de Gallardo liderando o River Plate dentro de campo não difere tanto da habilidade com que ele conduz o seu elenco como treinador, mas o trabalho com a prancheta no Monumental de Núñez tem quatro anos de idade, e os jogadores conhecem de cor as ideias de seu comandante. Sabem exatamente o que ele espera deles: confiança, coragem, muita intensidade e a busca por um futebol ofensivo. Conceitos resumidos em uma simples declaração. “Eu gosto de dizer aos jogadores que iremos a campo para defender uma causa e para nos divertirmos”, disse.

Gallardo foi um grande jogador, vitorioso em todos os lugares pelos quais passou. Levantou troféus com o River Plate, com o Monaco, com o Paris Saint-Germain, o DC United e o Nacional, pelo qual deu início à sua carreira de treinador, assim que encerrou a de jogador. E, na única temporada pelo gigante de Montevidéu, conquistou o Campeonato Uruguaio. Nessa caminhada, teve contatos com grandes profissionais, mas um o influenciou mais que os outros. “Marcelo Bielsa foi um dos treinadores que mais me ensinou, mas talvez eu tenha perdido algumas coisas porque eu era muito jovem e elas não me interessavam tanto naquela época”, afirmou.

Na atualidade, a inspiração vem de Guardiola, pela tentativa de ter sempre a bola e por praticar um futebol de alta pressão e intensidade. Os mais supersticiosos poderiam traçar outros paralelos. Ambos, por exemplo, nasceram em 18 de janeiro, separados por cinco anos. E ambos eram muito jovens quando abraçaram os maiores desafios de suas novas carreiras: com pouca experiência, retornar para onde foram ídolos e promover revoluções. Guardiola tinha 37 anos quando assumiu o Barcelona. Gallardo tinha 38 quando tomou as rédeas do River Plate, substituindo um nome forte como Ramón Diaz.

O desafio era muito difícil. Não fazia muito tempo que o River Plate havia deixado para trás o calvário da segunda divisão e muitos jogadores continuavam no elenco. E, com eles, Gallardo fez o clube alçar voos muito mais altos do que se imaginava: conquistou a Copa Sul-Americana na sua primeira temporada e, na seguinte, acrescentou o título da Libertadores à coleção.

Houve um período de baixa, em 2016, com a eliminação para o Independiente del Valle nas oitavas de final, mas, na sequência, vieram a semifinal, com derrota para o Lanús, e agora uma segunda decisão. Um período de sucesso tão longo é um unicórnio no futebol sul-americano, assolado pela alta rotatividade de jogadores e problemas financeiros. Poucos conseguem manter o alto nível por tanto tempo.

Gallardo precisou construir um time novo quase do zero. Dos 14 jogadores que entraram em campo na vitória por 3 a 0 sobre o Tigres, em 5 de agosto de 2015, apenas três permanecem no elenco: Camilo Mayada, Jonathan Maidana e Leonardo Ponzio. Fechando o ciclo de curiosidades, naquela decisão, ele também teve problemas disciplinares. Foi expulso no jogo de ida contra os mexicanos e deu lugar ao assistente Matías Biscay no banco de reservas na partida do título. Mais uma vez, será Biscay à beira do gramado em uma final de Libertadores, com Gallardo, no lado de fora, torcendo para o fim da história ser o mesmo.

Treinar como um torcedor

Pouco antes de Gallardo ser expulso daquela semifinal da Libertadores, Guillermo Barros Schelotto dominou a bola pela ponta direita e pensou por alguns segundos antes de desferir o cruzamento que Schiavi completou às redes, dando ao Boca Juniors a vitória por 1 a 0 no jogo de ida. As jogadas saíam com menos naturalidade para ele. Como disse em entrevista à revista El Grafico, em 2010, não tinha o talento de Riquelme, nem os gols de Palermo. “Mas tinha a atitude que os torcedores teriam. Joguei como eles jogariam”.

A qualidade de Gallardo também superava a sua. Agora rivais como treinadores, o do River Plate ganha mais elogios por fazer a sua equipe desenvolver um futebol mais vistoso. Schelotto conviveu com críticas por não conseguir tirar da cartela de jogadores altamente técnicos à disposição um rendimento coletivo satisfatório. Mas seu time compensa com o espírito competitivo e brigador que permeia a história do Boca Juniors. E com resultados: são dois títulos seguidos do Campeonato Argentino e, agora, uma final de Libertadores.

Espanta que houvesse espaço em seu pescoço para pendurar mais medalhas. Schelotto disputou 300 partidas como jogador do Boca Juniors, com 87 gols, e mais de uma dezena de troféus, sendo quatro da Libertadores e seis do Argentino, além de duas Copas Sul-Americanas e dois Mundiais de Clubes. Ao terminar a carreira no mesmo Gimnasia La Plata em que foi revelado, Schelotto assumiu o comando do Lanús e foi campeão novamente, da Copa Sul-Americana de 2015.

Antes de retornar ao Boca Juniors, Schelotto teve uma passagem brevíssima pelo Palermo. A parceria não foi tão bem-sucedida como aquela com o jogador homônimo que marcou história na Bombonera. Em janeiro de 2016, ele assumiu o clube italiano, mas não tinha as licenças exigidas pela Uefa. A equipe siciliana chegou a nomear Giovani Tedesco como testa de ferro enquanto Schelotto resolvia seus problemas burocráticos. No entanto, quando ficou claro que a entidade europeia não aliviaria a barra do argentino, Schelotto foi embora, um mês depois de chegar.

Em março, embarcou na turbulência do fim da passagem de Rodolfo Arrubarrena pelo Boca Juniors e, logo de cara, teve que desarmar a bomba Carlos Tevez. O atacante havia retornado da Juventus com as honras de um chefe de Estado. Tinha o poder de mandar prender e mandar soltar na Bombonera e não queria o antigo companheiro de time. Preferia Jorge Sampaoli e Gabriel Heinze. Fez lobby, também, pela contratação de Ábila, antes deste ir ao Cruzeiro. Perdeu as quedas de braço e, no fim daquele ano, foi embora para a China.

Sem Tevez, o Boca Juniors cresceu coletivamente e conquistou o Campeonato Argentino. Quando Carlitos voltou, no começo de 2018, Schelotto já caminhava para um bicampeonato nacional consecutivo e tinha moral suficiente para fazer o que fez: colocar o craque fora de forma no banco de reservas e priorizar os outros talentos ofensivos do seu time, como Pavón, Ábila, Zárate e o renovado Darío Benedetto, o homem que decidiu a semifinal contra o Palmeiras.

Jogadores desse calibre são suficientes, com um mínimo de organização, para vencer os times mais fracos do Campeonato Argentino, geralmente a chave para um título em pontos corridos. Schelotto ainda devia alguma coisa na Libertadores. Chegou às semifinais, dois anos atrás, mas perdeu para o nada mais do que bravo Independiente del Valle. Não deve mais. Superou dificuldades, derrubou gigantes e estabeleceu a final do século contra o River Plate, quando tentará pagar mais uma dívida aos seus torcedores, depois das derrotas na Supercopa da Argentina, em março, e no Superclássico de setembro, na Bombonera. E se pagar, será com juros e correção monetária.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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