Argentina

Dívida, gestão polêmica e ‘muita frustração’ da torcida: A crise que afunda o San Lorenzo

San Lorenzo pode ter falência decretada se não pagar valor até o dia 19 de outubro, mas tem lei como última esperança

Um tradicional clube argentino enfrenta forte crise. O San Lorenzo foi notificado pela Justiça na terça-feira (14) de que tinha cinco dias para quitar uma dívida com o AIS Investment Fund, fundo suíço, de cerca de 4,4 milhões de euros (R$ 27,8 milhões), segundo a “TyC Sports”. Se não cumprir o ordenado no tempo estipulado, pode ter falência decretada.

O valor corresponde a uma negociação que envolveu o atacante Adolfo Gaich. Em 2020, o time argentino vendeu o jogador para o CSKA, da Rússia, e fez um empréstimo com o fundo para ter o valor da transferência antes.

— Foi em plena pandemia. O pagamento seria de 7 milhões de euros, mas parcelado. O que o clube fez foi entregar os documentos para que o fundo adiantasse o dinheiro todo de uma vez. Esse grupo empresarial deu o dinheiro adiantado — explica à Trivela Cris Pagliaro, jornalista na “TNT Sports Argentina”.

A expectativa seria de que o clube russo pagasse o montante acordado ao AIS, o que não ocorreu. Ao invés disso, o CSKA fez o pagamento ao San Lorenzo que, por sua vez, não teria devolvido o empréstimo.

No ano passado, a equipe argentina foi condenada a pagar 3,6 milhões de euros (R$ 22,8 milhões), mais juros, ao grupo suíço, e recorreu da decisão. Neste ano, não apenas teve a sentença confirmada como o valor aumentou devido à correção. A dívida precisa ser paga até domingo (19). Não há mais possibilidade de apelação, de acordo com a “TyC Sports”.

Bandeirão do San Lorenzo exposta durante jogo
Bandeirão do San Lorenzo exposto durante jogo (Foto: Reprodução/Divulgação San Lorenzo)

O que vem a seguir para o San Lorenzo?

Pagliaro explica que, apesar da adversidade, o San Lorenzo tem ao seu lado a Lei 25.284 na Argentina, que diz respeito ao “Regime Especial de Administração de Entidades Esportivas com Dificuldades Econômicas”.

— Se o San Lorenzo não conseguir pagar, o que pode acontecer é a intervenção da Justiça: nomeiam um órgão fiduciário, um interventor, e o clube passa a ser administrado por um síndico de forma temporária até que a situação econômica seja estabilizada. Depois disso, podem ser convocadas novas eleições, e a atual gestão de Moretti seria afastada definitivamente. Isso é o que pode acontecer.

O uso do “definitivamente” ganha contornos maiores ao considerar a outra crise que se instaurou na instituição. Marcelo Tinelli era o presidente do Ciclón durante o imbróglio gerado com o fundo AIS, e seu xará, Marcelo Moretti, foi eleito em 2023.

No entanto, Moretti estava afastado após vir à tona escândalo em que teria sido flagrado recebendo propina para contratar um jogador de base, em abril de 2025. Ele reassumiu o posto na segunda-feira (13) com amparo de uma ordem judicial, mas enfrentou muito protesto de torcedores. A determinação da justiça que recolocou o presidente no cargo frustrou planos de uma eleição antecipada para definir um substituto.

Nesta quinta-feira (16), a polícia da cidade de Buenos Aires reforçou a segurança do prédio da AFA, devido a uma reunião de dirigentes – para discutir temas gerais do futebol local – que contará com a presença de Moretti.

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Futuro do San Lorenzo nas mãos de Moretti

O mandatário é o responsável por resolver a situação com o fundo suíço juntamente com um escritório de advocacia alheio ao San Lorenzo, diz o jornalista. Porém, independentemente do desfecho, o desânimo se instaurou no Nuevo Gasómetro.

— Ele fez tudo errado. Não fez nada direito. Ele construiu toda a sua campanha política com base em promessas e ações que nunca conseguiu cumprir. Prometeu coisas que todo mundo sabia que não realizaria, e de fato não cumpriu. Desde a promessa de construir o novo estádio à busca por fundos para viabilizar isso, os supostos acordos com empresários chineses, até a escolha antecipada de uma futura fornecedora de material esportivo europeia, uma marca italiana que nunca chegou. Tudo ficou só no discurso — comenta Cris Pagliaro.

Marcelo Moretti, presidente do San Lorenzo
Marcelo Moretti, presidente do San Lorenzo (Foto: Reprodução/Divulgação San Lorenzo)

É uma situação melancólica para o clube fundado no ano de 1908 no bairro de Almagro, em Buenos Aires, que divide a prateleira de principais times da Argentina com Boca Juniors, River Plate, Estudiantes e Racing.

O Ciclón foi o primeiro do país a disputar uma edição de Libertadores, em 1960, e conquistou o título do torneio em 2014. A equipe se popularizou ainda mais naquele período por ser o time do coração do Papa Francisco, que iniciou o pontificado em março de 2013.

O San Lorenzo também levou a Supercopa Argentina (2016) em seguida, mas desde então, não levanta troféus.

— Moretti também prometeu conquistar a segunda Libertadores, o que obviamente não aconteceu. Ou seja, desde o início, sua gestão foi mal estruturada, baseada em promessas e projetos que nunca conseguiu sustentar. Foram todas ideias que não se concretizaram.

Entre os fãs, predomina a falta de esperança. “Há muita raiva, muita frustração entre os torcedores. Essa é a verdade”, ressalta o jornalista.

— O torcedor está sem esperança com a situação atual. Há muita falta de esperança, porque se acreditava que o problema já estava superado, e agora as pessoas estão cansadas de tudo o que está acontecendo. Essa é a situação real.

Foto de Milena Tomaz

Milena TomazRedatora de esportes

Jornalista entusiasta de esportes que integra a equipe de redação da Trivela. Antes, passou por Premier League Brasil, ESPN e Estadão. Se formou em Comunicação Social em 2019.

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