Como o modelo de SAFs é visto na Argentina? Fomos até lá para responder
Modelo de sociedades anônimas é um sonho do presidente Javier Milei, mas muitos times e torcedores se opõe à decisão de clubes-empresa
A Sociedade Anônima no Futebol (SAF) já é uma realidade estabelecida no Brasil e a tendência é que o número de clubes que adote esse modelo por aqui só cresça. Na vizinha Argentina, o cenário é distinto e o tema divide opiniões. A Trivela esteve em Buenos Aires atrás dessa história.
A gestão dos clubes é uma questão complexa que chegou a virar uma das bandeiras do presidente Javier Milei nos últimos anos.
Em agosto de 2024, Milei assinou o decreto 730/2024, estabelecendo que nenhum direito de uma organização esportiva pode ser impedido, dificultado, privado ou diminuído em razão de sua forma jurídica, seja uma associação civil ou uma sociedade anônima, desde que seja reconhecido por lei”.
Isso significa que as SAD’s (Sociedade Anônima Deportiva), que tenham como finalidade “a prática, o desenvolvimento, o apoio, a organização ou a representação do esporte e da atividade física”, possam ser inseridas no Sistema Institucional de Esporte e Atividade Física.
No entanto, a AFA (Associação de Futebol Argentino) não deseja que os clubes possam se tornar sociedades anônimas. Com isso, uma queda de braço entre as partes se iniciou.
SAF no centro do debate no futebol argentino

Ao contrário do que acontece no Brasil, no país hermano, a lei não permite que os clubes de futebol existam como clube-empresa, e é justamente isso que Milei quer alterar. Com a revogação da lei, os times que desejassem poderiam ser vendidos e atuarem como sociedades anônimas.
No meio da disputa para tentar viabilizar a alteração da regra, o presidente chegou a elogiar os clubes de futebol brasileiro. Durante a disputa do Mundial de Clubes, o chefe de estado aproveitou a eliminação de Boca Juniors e River Plate do torneio ainda na fase inicial para voltar a defender sua posição sobre o tema.
— Nem River, nem Boca. Sem argentinos no Mundial de Clubes. O Brasil foi com quatro times, os quatro passaram. Até quando teremos que apontar o fracasso do modelo Chiqui Tapia [presidente da AFA, federação de futebol argentina]? Um campeonato frágil, com 30 times, sem competitividade, sem SAD, sem incentivos. Não está à altura do tremendo público argentino que lota estádios ao redor do mundo. Insisto, Chiqui Tapia e seu minúsculo círculo fazem mal ao futebol argentino — criticou o presidente na época.

Atualmente, na Argentina, os clubes possuem grande número de sócios — realidade muito distinta do Brasil. O Boca Juniors, por exemplo, tem uma base com mais de 300 mil sócios, segundo dados do clube de 2023. Já o River Plate ultrapassa os 350 mil. São esses torcedores que possuem direito a tomar decisões pelo clube, votar em eleições e também mantém a prioridade na hora de compra de ingressos para os jogos.
Inclusive, muitos sócios não aprovam a ideia de SAF acreditando que isso iria tirar o poder que eles possuem nos clubes. Não é difícil encontrar, nessas discussões, um forte sentimento de pertencimento — e preservação — do atual modelo. Ao trocar presidentes eleitos por donos, esses clubes perderiam a característica de “povo” tão defendida pelos times argentinos.
— Sinto que se perde um pouco o que é a paixão do torcedor se implementar a sociedade anônima. Por exemplo, Boca é o mais pueblo que tem, representa que o clube é do torcedor, e se tornar Sociedade Anônima, se perde um pouco essa cultura futebolística. E isso que o que faz diferença ao Boca — expressou o torcedor do Boca Juniors Giuliano Bruno em contato com a Trivela.

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‘Os clubes são do povo e dos sócios’
A Trivela foi às ruas de Buenos Aires para ouvir os torcedores sobre a entrada das SAFs no futebol local. Conversando com torcedores de diferentes clubes, o tema é bastante delicado. Em grande maioria, eles acreditam que o modelo não deve ser adotado e que o clube deve se manter pertencendo aos sócios.
— Não estou a favor, o clube é do torcedor, dos dirigentes, não de empresas externas. Pode haver patrocinadores, mas donos diretos do clube, não. Privado não — disse Lautaro Perez, torcedor do Boca Juniors.
Kevin Quinteros, também torcedor do clube xeneize, concordou com o colega. Para ele, que é sócio do clube azul y oro, o time é dos torcedores e não de empresários que queiram interferir.
— Estou totalmente contra, porque para mim os clubes pertencem aos sócios e não devem ser interferidos por nenhum figurão de terno, nenhum empresário. Então, estou totalmente contra. Se o Boca Juniors decide se tornar SAF eu não concordaria. Me oponho totalmente. Não concordo — afirmou.
Estudiantes de La Plata e Talleres podem começar a puxar a fila

Contrariando a maioria local, o Estudiantes de La Plata é um dos primeiros clubes argentinos a se posicionar a favor do modelo de SAF. Um dos maiores ídolos e atualmente presidente do clube, Juan Sebastián Verón, é a favor do modelo de clube-empresa e batalha contra a AFA para poder implementar o modelo no “Pincha”.
Em dezembro de 2024, a equipe de La Plata assinou um pré-acordo com o empresário Foster Gillett, filho de George Gillett, ex-dono do Liverpool. A negociação prevê um investimento inicial de 150 milhões de dólares (cerca de R$ 810 milhões, de acordo com a cotação atual), no entanto, o negócio segue parado em função da legislação argentina.
O Estudiantes busca uma forma de “driblar” essa proibição, formando uma sociedade mista. Com isso, os bens do Estudiantes não entrariam como garantia. Visto que ao se tornar SAF, os bens do clube passam a ser da empresa, que tem fins lucrativos.
Ou seja, ativos da empresa (como estádios, CTs, e outros imóveis) podem ser usados para garantir empréstimos, financiamentos e outras operações financeiras, o oposto do que ocorre na estrutura de clube associativo.
Já o Talleres, de Córdoba, adotou um estilo parecido com a SAF, mas sem utilizar tal denominação. O presidente do clube, Andrés Fassi, foi ligado ao Grupo Pachuca até 2021, e então liderou a mudança do modelo de “gerenciamento”. Atualmente, o clube entregou algumas de suas atividades a terceiros, sem precisar vender o clube. Com isso, é possível viabilizar a entrada de capital privado, ainda que siga sendo presidido pelo atual mandatário.
Isso driblou a legislação argentina e permitiu que a equipe de Córdoba recebesse um investimento externo sem que fosse punida pela Federação Argentina, acusada de ser um clube-empresa.
Racing foi o pioneiro no modelo de SAF?

Apesar da legislação argentina não permitir que clubes sejam empresas, o Racing já passou por tal modelo em sua história. O clube virou sociedade anônima em 1999 para conseguir se reerguer.
Vítima de péssimas administrações, o Racing enfrentou uma grave crise financeira, principalmente entre 1997 e 1999, época em que o clube tinha como presidente Daniel Lalín.
Perdido, o presidente chegou a promover uma sessão de exorcismo para tentar afastar “os maus espíritos” do clube, e cerca de 15 mil torcedores compareceram ao “ato de fé”.
Mesmo assim, a equipe de Avellaneda não conseguiu se reerguer e, em 10 de julho de 1998, Lalín anunciou a falência do Racing. Meses depois, em março de 1999, a Câmara de Apelações de La Plata determinou a liquidação imediata do clube.
Desesperada, a torcida passou a protestar.

Na sede do clube, em Avellaneda, o então presidente do clube chegou a ser agredido por torcedores que o atingiram com um bumbo. O ato violento ocorreu logo após Liliana Ripoll, contadora da AFA, anunciar que o clube deixaria de existir devido às dívidas.
Em 7 de março de 1999, o dia, que ficou conhecido como “El Dia del Hincha de Racing”, marcou o renascimento da instituição. Com o desespero dos torcedores, a Câmara de Apelação revogou a determinação judicial e permitiu que o clube se tornasse uma empresa: A Blanquiceleste SA. Com isso, eles poderiam saldar suas dívidas em um período de 10 anos, salvando o clube da falência.
A decisão foi tomada com base na lei 25.284, da Constituição argentina. Chamada de Lei Salvataje Deportivo, ela permite que entidades esportivas em crise econômica possam reestruturar suas dívidas através de uma supervisão judicial para evitar a sua dissolução. A lei estabelece a criação de um órgão de confiança para organizar a reestruturação e garantir a continuidade do clube, buscando proteger seu patrimônio e sua função social.
Com base nisso, os torcedores puderam encontrar um respiro em meio ao caos e evitar a falência do clube. Esse modelo permaneceu na equipe de Avellaneda até 2008, quando a empresa não cumpriu com alguns pagamentos e um novo pedido de falência foi decretado.

Salários de jogadores, pagamentos por contratações de atletas, cheques sem fundo e até mesmo sanduíches servidos para as categorias de base não foram pagos pela empresa, resultando em uma grande pressão interna.
Do lado de fora do clube, torcedores também passaram a pressionar e pedir o comando do clube outra vez. Depois de um grande número de protestos contra a Blanquiceleste, a empresa presidida por Fernando De Tomaso deixou de ser a administradora da Academia. Horas depois, a Justiça Comercial declarou sua falência.
De acordo com esse pedido, o Racing voltava a ser uma associação, que passou a ser administrada por um órgão de confiança composto por Eduardo Gilberto, Carlos Ves Losada e Eduardo Bugallo, sócios do clube, e isso permitiu encerrar a falência judicial e convocar novas eleições em dezembro de 2008.
Depois de sete anos e meio, o clube deixava de pertencer à iniciativa privada e o clube voltou a ser dos sócios em sua totalidade. Rodolfo Molina ganhou o pleito e assumiu o comando do Racing.



